quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

AS NOVIDADES DO NATAL 2020


As Novidades do Natal de 2020.
(por Antonio Samarone)

Carlos Olavo Silva (78 anos), técnico em raios X, aposentado, operou por décadas, o Serviço de Abreugrafia do Serigy. Fomos colegas na Saúde Pública.

Carlinhos perdeu a esposa para a Covid-19, há três meses. Ele escapou! Mora só, no nono andar do Edifício Solar do Ártico, num apartamento de 75 m².

São 90 dias de completo isolamento. Desde a morte da esposa, Carlinhos assumiu a vida digital. O mundo real deixou de existir, ele faz tudo pela internet. Recebe os proventos e faz as compras on-line. Os amigos estão no WhatsApp.

Carlinhos esqueceu o mundo real, de carne e osso. As coisas existem apenas em seu cérebro e, o mais interessante, ele não sente falta. A minha sensação é que as realidades se fundiram em sua cabeça.

Existe uma suposição simplória na filosofia: a realidade do mundo é apenas uma criação mental de cada um. Nada existe fora da nossa imaginação. A comunicação digital através das redes sociais tornou o real e o virtual, a mesma coisa.

A comunicação digital descontruiu as distâncias, eliminou as fronteiras entre o virtual e o real. A minha dúvida é, se o mundo se tornou real ou virtual na cabeça de Carlos Olavo. A sua individualidade está diluída no enxame.

Carlos Olavo se tornou um homem virtual. Entenderam?

Ele não sente falta do outro presencialmente, pelo contrário, até festeja. Carlos Olavo receia encontrar com alguém fora das Redes Sociais e ficar sem jeito, sem ter o que dizer. Acha a presença física constrangedora, invasiva, incômoda. Sem falar no risco da Pandemia.

Carlos Olavo desaprendeu a lidar com gente à moda antiga. Acha os contatos físicos, os toques, os apertos de mãos, os bafos, as inhacas e os abraço estranhos. Quase tudo falso! Enxerga tudo isso como inconveniente, desagradável e pegajoso.

Carlinhos radicalizou: “Doutor, a amizade verdadeira só é possível virtualmente.”

Prossegue Carlinhos:

“Os amigos virtuais são acessíveis e dispensáveis com mais facilidade. São menos exigentes, pedem menos, acreditam mais em nossas narrativas. Outra vantagem: quando nos incomodam, deletamo-los com facilidade.”

“A verdadeira amizade precisa ser efêmera”, disse-me Carlinhos com um tom professoral. “Sem cobranças, sem vínculos obrigatórios, sem passado nem futuro. Tudo instantâneo, uma brisa de afeto e simpatia.”

Carlos Olavo está virtualmente feliz. Nesses 90 dias sem encontros, nem chamegos com gente de carne e osso, ele não está sentindo a menor falta. Vai passar o Natal plugado.

Já comprou o chester, o bacalhau e o vinho. Tudo pronto.

Carlos Olavo encerrou o telefonema com ironia e gargalhadas: “Feliz Natal, Velho Comuna!”

Vamos lutar pelo tecno-socialismo... Lembrei-me dos posadistas.

Eu fiquei pensando: já, já, a psiquiatria medicaliza essa confusão entre o real e o virtual de Carlinhos, põe um nome, incorpora ao Código Internacional de Doenças (CID) e arruma um tratamento.

Estou desconfiado que Carlos Olavo seja o futuro. Será o modo de vida possível no Novo Normal. Cada um trate de ir se acostumando!

Antonio Samarone (médico sanitarista) 

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

AS BANCAS DE MIUDEZAS


As Bancas de Miudezas...
(por Antonio Samarone)

As bancas de miudezas vendiam todas as quinquilharias da terra: linhas; agulhas; alfinetes; dedais; babados; enfeites; fitas; lembrancinhas; prendedores de cabelo; bobs; massas de moldar; santos de gesso; broches e escapulários.

Na feira de Itabaiana, a banca de miudezas mais famosa era a de Anita de Pedro de Chiquinho Gordo. Sortida de um a tudo.

Quando o comerciante de miudezas melhorava de vida, abria um armarinho. O comércio de Itabaiana era apinhado. Lembro-me dos armarinhos de Antonio de Rosinha, Zequinha Sete Porta, Fefi, Dalula, Lindolfa e Zaíra. Em cada trecho do comércio tinha um grande armarinho.

Antonio Gomes de Vasconcelos (Antonio de Rosinha), dono de Armarinho, foi o primeiro seguidor do Trabalhismo em Itabaiana.

Nas eleições presidenciais de 03 de abril de 1930, Antonio de Rosinha apoiou Getúlio Vargas. O candidato da situação, Júlio Prestes, obteve em Itabaiana 719 votos e Getúlio, apenas 13.

Getúlio Vargas perdeu a eleição em Sergipe, em abril de 1930, com menos de dez por cento dos votos. Não foi votado em vários municípios e em Itabaiana teve 13 votos. Contudo, em outubro de 1930, assumiu o Poder por conta da Revolução.

Itabaiana é uma terra governista. Esses 13 itabaianistas liderados por Antonio de Rosinha, talvez tenham sido os primeiros ceboleiros a votarem contra o Governo. Essa proporção não mudou muito até hoje, apenas o eleitorado cresceu.

Pouco depois, mesmo perdendo a eleição, a Revolução de 1930 colocou Getúlio Vargas no Poder por 15 anos (1930 a 1945). Depois ele voltou em 03 de outubro de 1950, pelo voto, ficando até 1954, com o suicídio.

Getúlio no Poder, Sergipe se desmanchou em mimos e homenagens. É a alma sergipana!

Nas eleições de 03 de outubro de 1950, depois da Ditadura do Estado Novo, Getúlio venceu com facilidade em Sergipe, com 43.435 votos. A oposição democrática, agora era João Mangabeira do (PSB), que obteve 100 votos. Não descobri quantos votos Mangabeira teve em Itabaiana (talvez os treze).

Nessa mesma eleição de 1950, em Sergipe, para efeito de comparação, Arnaldo Garcez foi o Governador eleito, com apenas 36.374 votos. Getúlio Vargas teve 43 mil para Presidente.
Voltando a trinta.

Em 05 de novembro de 1930, um mês depois de Vargas no Poder, o Prefeito de Aracaju nomeou a principal Rua da Capital como João Pessoa (o vice na chapa de Getúlio Vargas). Antes era a Rua do Barão, depois Japaratuba, e ficou até hoje como João Pessoa. Homenagem descabida, só por bajulação política.

Em Itabaiana, ainda em 1930, Antonio de Rosinha recebeu pessoalmente de Getúlio Vargas, uma foto oficial emoldurada, que ele ostentava na parede do seu Armarinho. Como se não bastasse, ele mantinha no balcão, uma estatueta em bronze de Getúlio.

Getúlio Vargas sabia agradar seu eleitorado, cativando Antonio de Rosinha para sempre. Procurei por essa foto e essa estatueta e ninguém soube informar o paradeiro.

A oposição progressista em Itabaiana começou com Antonio de Rosinha, mesmo ele nunca tendo sido um profissional da política. Era uma Getulista!

Já o seu irmão, Carlos Gomes de Vasconcelos (Carlos da Pipoca), era visceralmente contra Getúlio Vargas.

Durante a Revolução de 1930, Carlos da Pipoca era Tenente do Exército no Rio de Janeiro. Carlos era músico (trompetista) e ex-aluno da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Por isso, ingressou na Banda de Música do Exército, como oficial.

Com a vitória de Vargas, ele foi desligado do Exército e retornou para Itabaiana. Carlos da Pipoca foi um personagem importante em minha infância. Aos domingos e dias de festas, o seu carrinho de pipoca era uma referência na Praça da Igreja.

Eu era um freguês dos torresmos!

A pipoca era um produto de luxo. Aos meninos que ficavam ximando, sem dinheiro, Seu Carlos distribuía uns saquinhos de torresmos. Eu, por vaidade, ainda me gabava: gosto mais dos torresmos!

No Governo de Castelo Branco, Carlos da Pipoca foi reincorporado e conseguiu aposentar-se como soldado do Exército, perdendo a patente.

Vou perguntar a Vladimir Carvalho quem foram esses trezes que votaram em Getúlio Vargas, em 1930, em Itabaiana. São os “Treze do Forte” da cebola.

Antonio de Doci, Faustinho, Mané Barraca, Juca Cego, Océas, Euclides Alfaiate, Mazze Lucas, Zé Martins, Goisinho, Pulga de Cós, Átalo, Cibalena e mais uma meia dúzia, são os herdeiros políticos dos “Treze do Forte”, em Itabaiana.

Antonio Gomes de Vasconcelos (Antonio de Rosinha) é filho de João Gomes de Vasconcelos (músico da Filarmônica) e Dona Rosinha. Antonio era casado com Dona Nina Vasconcelos e tiveram 9 filhos: Tonico, Getúlio, Maninho, Zé Augusto, Maria José, Ana, Tereza, Leda e Lalá.

Antonio de Rosinha morreu em Salvador, na casa dos filhos.
Do mesmo jeito que Batista Itajay fundou a política tradicional em Itabaiana, Antonio de Rosinha fundou a oposição democrática popular.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A SOLIDÃO DOS IDOSOS


A Solidão dos Idosos.
(por Antonio Samarone)

Encontrei um amigo, que me parabenizou pelo 15 de dezembro. Não foi o único!

“Parabéns pelo aniversário, quantos anos?” E sem esperar a resposta, desembuchou: “impressionante, como você não envelhece! Nem parece.

Não pareço com o quê, eu pensei.

Uma reação preconceituosa de quem esperava me ver um cadáver empalhado, em estágio de decomposição pública. Esperava um depósito de doenças, senil, dependente, com sinais de demência, caminhando para a completa perda de autonomia.

Ele esticou a conversa, onde será a festa? Eu retruquei de mau humor, que festa, aniversário em minha idade se lamenta, passa a ser um ano a menos. O horizonte do fim se aproxima velozmente.

Quis dizer ao mancebo que a perda de poder e status dos idosos, em geral, é anterior a perda do vigor físico e da saúde. A primeira desgraça dos idosos é o isolamento, intensificado no momento pela Pandemia.

O processo do desapego é doloroso. Talvez o esquecimento demencial seja um alívio necessário.

Ocorre, que envelhecer é o único meio de se viver muito tempo. A longevidade ainda é um privilégio dos abastados. Os pobres morrem cedo.

A velhice é uma covardia, um massacre. O que fazer para torná-la mais leve? Pensei em abrir esse diálogo com o amigo que me parabenizou. Desisti! Esse amigo é daqueles que deseja “Descanse em paz” a todos os que morrem. Vá á merda, diria o defunto, se pudesse.

Segundo Hipócrates a velhice começa aos 56 anos. Ele comparou a vida as estações do ano e a velhice era o inverno.

O Pai da Medicina deixou escrito que os idosos sofrem de dificuldades respiratórias, catarros, acesso de tosse, disúria, dores nas articulações, doenças nos rins, vertigens, apoplexia, caquexia, prurido generalizado, sonolência; expelem água pelos intestinos, pelos olhos, pelas narinas; frequentemente têm catarata, a vista é fraca e ouvem mal.

O Velho Hipócrates de Cós sabia das coisas.

Galeno aconselhava que os Velhos deveriam tomar banhos quentes e beber vinho para manter seu corpo aquecido e hidratado.

O século XX aliviou algumas dessas dificuldades encontradas na velhice. Com os avanços da medicina e da farmacologia, muitos desconfortos próprios do envelhecimento do organismo foram suavizados.

Por outro lado, a exclusão dos idosos da sociedade de consumo foi acentuada.

Com a hegemonia neoliberal, o velho se tornou um peso para a Sociedade. Nenhuma novidade, os povos nômades também abandonavam os mais velhos nas florestas por onde caminhavam.

Atualmente, o envelhecimento é visto como um problema a ser resolvido.

“Além de ser um destino do indivíduo, a velhice é uma categoria social. Tem um estatuto contingente, pois cada sociedade vive de forma diferente o declínio biológico do homem.” – Alfredo Bosi.

Isso é fato!

Antonio Samarone (médico sanitarista)