quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

OS FORTES DA PRAIA: DE GARCIA D'ÁVILA A JOÃO GUALBERTO.

Os Fortes da Praia: De Garcia d’Ávila a João Gualberto.
(por Antonio Samarone).

A Praia do Forte tornou-se um polo de ecoturismo. A convivência de condomínios de luxo, vila de pescadores, conservação do meio ambiente e uma diversificada rede de pousadas, hotéis de luxo e resort internacional. Um exemplo bem-sucedido do turismo sustentável.

O sucesso do complexo turístico Praia do Forte, não dependeu apenas das piscinas marítimas, decorrente da cordilheira de corais. Não! A conservação do meio ambiente e a integração da comunidade nativa foram decisivos. A Villa de Pescadores é o centro cultural do projeto, e os seus moradores grandes beneficiados.

A Enseada de Tatuapara foi ocupada pelos portugueses, com a chegada do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza (1549).

A região foi doada ao seu filho, Garcia d’Ávila, que se tornou o maior latifundiário do Brasil. Garcia, envolveu-se ativamente na conquista de Sergipe, pelos portugueses (1590).

No século XVII, o atual município de Mata de São João, onde fica a Praia do Forte, foi ponto de descanso das boiadas, oriundas dos curais itabaianenses, para o Salvador e Recôncavo.

A relação de Sergipe com essa região baiana é ancestral.

O padroeiro do Castelo de Tatuapara é Santo Antonio. Em 1705, o Santo guerreiro foi nomeado Capitão das forças públicas. O soldo era pago ao mosteiro franciscano.

A Enseada foi fazenda dos D’Ávilas, até meados do século XIX. Na década de 1980, a Praia do forte era uma Vila de Pescadores e uma bela praia deserta. Eu a visitei nesse período. Na década de 1970, a praia mais famosa no Norte da Bahia era Arembepe, uma Aldeia Hippie.

Nesse período, um alemão maluco e endinheirado, Klaus Peters, comprou a antiga fazenda dos d’Ávilas, e construiu um grande eco resort, implantando a lógica sustentável de turismo. Tudo começou com o alemão.

O alemão foi embora e faleceu, deixando as ideias e as condições para o ecoturismo florescer.

Aqui apareceu um itabaianense, o filho de João Padre, com alma empreendedora, inteligência, poder político e capital, e resolveu transformar a Praia do Forte, num gigantesco complexo de eco turismo. Deu andamento o projeto de Klaus Peters.

João Gualberto Vasconcelos, comprou a fazenda do alemão e montou um empreendimento sustentável. Viabilizou a implantação da unidade dinâmica e rentável do Projeto Tamar, para conservação das tartarugas; do Projeto Baleia Jubarte; da Reserva Sapiranga, com 757 hectares de Mata Atlântica; de um Parque com 264 hectares de Restinga e recuperou o Castelo Garcia d’Ávila (foto).

A Fundação Garcia d’Avila é um sucesso turístico e de negócios, com festas e shows. Por coincidência, em minha passagem pelo Castelo, o cenário estava sendo montado para um show de Natanzinho. Claro, me gabei que ele é de Itabaiana.

A Vila de Pescadores foi urbanizada, com hotéis e pousadas, adequadas ao ambiente bucólico, um forte comércio, respeitando as tradições culturais. No centro da Villa tem uma casa de farinha, com um beiju de tapioca divino, pé de moleque, com o exuberante sabor da Carimã. A culinária baiana raiz predomina.

A segurança é garantida pela incorporação de todos nos negócios. Uns mais, outros menos, mas todos ganham. Claro, o trade turístico é controlado pelo grande capital. Mas, não vi pedintes, morador de rua, ou outras vítimas do capitalismo selvagem.

O papel de João Gualberto foi decisivo para que a ocupação dos entornos com grande condomínios de luxo, respeitasse o meio ambiente. O Poder Público limitou a área construída a 10% dos terrenos. Sobrava uma enorme área verde, onde as matas foram respeitadas.

João Gualberto Vasconcelos, nasceu em Itabaiana, 06 de julho de 1958. Filho de João Pereira Vasconcelos (João Padre) e Dona Maria Otília Mendonça. João estudou no Murilo Braga até a oitava série.

Em 1973, João Gualberto se meteu numa encrenca em Itabaiana, sendo obrigado a mudar-se para Salvador, onde concluiu os estudos. Em Salvador, João teve a sombra de Mamede Paes Mendonça, seu tio, irmão de Dona Maria Otília.

João Gualberto, mesmo sendo sobrinho dos Paes Mendonça, cresceu na vida por méritos próprios. Formou-se em química e montou a rede de hipermercado Ideal.

Meteu-se na política. Em 2008, elegeu-se Prefeito de Mata de São João (onde se situa a Praia do Forte); reeleito em 2012; foi Deputado Federal (2015/19). Em 2020, voltou a Prefeitura. Nessa eleição, ele declarou o patrimônio de 170 milhões. Nas últimas eleições municipais (2024), João Gualberto, elegeu um correlegionário, Bira da Barraca.

O motorista do Bugre que fiz os passeios, Seu Evandro, foi direto: João Gualberto por aqui elege qualquer um, até o senhor.

João Gualberto é o líder político inconteste da Região. O povo atribui a ele e ao alemão, a virtude de terem construído um império ecológico. Transformando uma vila de pescadores, num complexo turístico internacional.

O mais importante, sem expulsar os pescadores. Teve muitos nativos que alugaram as suas casas, outros venderam e outros montaram negócios. Convivem pacificamente com os magnatas do mercado imobiliário e do turismo.

Eu não conheço João Gualberto pessoalmente, ele é 4 anos mais novo. Fui amigo de Balancinha, seu irmão, já falecido. Fui aluno de matemática de Bernadete Vasconcelos, sua irmã. E conhecia o pai, João Padre.

Hoje, João Gualberto estendeu os seus negócios a Portugal.
A família Paes Mendonça, da Serra do Machado, brilhou no comércio e na política: Pedro, dono da Rede Bompreço, em Pernambuco; Mamede, dono da Rede Paes Mendonça, na Bahia; e Euclides, chefe político em Itabaiana.

Dos descendentes, lembro-me do famoso João Carlos (87 anos), filho de Pedro do Bompreço, e João Gualberto Vasconcelos (67 anos), filho de Maria Otília Mendonça, o criador do complexo turístico Praia do Forte.

A força empreendedora dos itabaianenses vai longe.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A SERGIPANIDADE NO SENADO


 A Sergipanidade no Senado.
(por Antonio Samarone)

O Senado Federal é uma representação dos Estados, por isso a igualdade nas vagas. Sergipe e a Bahia, possuem, cada, três representantes.

Sergipe, nunca deu muita importância ao Senado.

Entre 1826, primeira legislatura do Senado e a décima, em 1859, ou seja, nos primeiros trinta e três anos, foram Senadores por Sergipe, o gaúcho José Teixeira da Matta Bacellar e o baiano José da Costa Carvalho (Marques de Monte Alegre). Os dois, nunca pisaram os pés em Sergipe.

Essa desonra política original, foi solenemente esquecida.

O primeiro sergipano a representar o Estado no Senado (1859), foi o senhor de engenho Antonio Diniz de Siqueira Mello, que lutou contra a libertação dos escravos. Diniz era da família de Leandro Maciel, governador e senador por Sergipe, na segunda metade do século XX.

Durante o Império, apenas mais dois sergipanos chegaram ao cargo de Senador: João Gomes de Mello (Barão de Maruim), em 1861, e Antonio Dias Coelho e Mello (Barão de Estância), em 1885.

Com a República, entre os três primeiros senadores eleitos por Sergipe, um era baiano, Thomaz Rodrigues da Cruz. E assim, a história anda.

Sem contar o amazonense, Lopes Gonçalves, eleito Senador por Sergipe (1924 – 1930), sem saber onde ficava Sergipe. Foi cassado pela Revolução de 1930.

Sem esquecer o baiano Lourival Batista, Senador por Sergipe por 24 anos. A esquerda teve a sua vez, o carioca Zé Eduardo Dutra, também representou Sergipe no Senado (1995 – 2003).

Um amigo, bolsonarista, crente na sergipanidade, argumentou:

“Era assim antigamente, hoje, ser ou não filho de Sergipe tem peso relevante na escolha.”

Será?

Na atual bancada sergipana no Senado, dos três, um é gaúcho e o outro pernambucano.

Acho que qualquer brasileiro pode representar Sergipe. Os critérios são políticos. O estranho é porque tantos, não sergipanos. Na história, não sei se por coincidência, os melhores senadores foram os naturais de Sergipe.

É evidente que não basta ser sergipano. O desempenho dos políticos obedece a outras variáveis. Se existem bons candidatos nas duas condições, no perfil ideológico de cada eleitor, com a competência e honradez necessárias, por que optamos quase sempre pelos de fora?

Para evitar distorções, não estou defendendo votar num sergipano despreparado, só porque ele é sergipano. Entretanto, a histórica escassez de sergipanos no Senado Federal é sintomática.

Quem se lembra de um sergipano eleito Senador, pela Bahia?

Antonio Samarone – observador da política.

domingo, 21 de dezembro de 2025

DOCE PROVÍNCIA

Doce Província.
(por Antonio Samarone)

Luiz Antonio Barreto lembrava que Aracaju era um aterro embelezado. Obra dos sergipanos. A natureza foi hostil: mangues, dunas e alagados. Enquanto o Rio de Janeiro e Salvador já nasceram belas, Aracaju foi uma luta contra os pântanos. O embelezamento foi obra dos homens.

Sonhei atravessando o Rio Sergipe a nado, à altura da Ponte do Imperador. Fui salvo por Zé Peixe. Até o centenário (1955), Aracaju era um doce província, no dizer de Garcia Moreno.

Os versos de Gregório de Mattos sobre São Cristóvão, cabiam bem para capital de Inácio Barbosa: “Três dúzias de casebres remendados,/ Seis becos, de mentrastos entupidos,/ Quinze soldados, rotos e despidos,/ Doze porcos na praça bem-criados.”

A população de Aracaju, em 1960, era de 112.516 mil habitantes. A cidade possuía 22.541 edificações, sendo 21.171 residências, 960 comércios, 78 indústrias, 123 repartições públicas, 142 escolas e 67 destinadas a outros fins.

Chama a atenção a precariedade dessas edificações: 7.662 (31,7%) eram casas de taipas e 1.135 eram barracos (casas toscas, cobertas com palhas de coqueiros ou latas velhas).

Existiam 540 vilas de quartos, totalizando 3.435 quartos (habitações coletivas de um cômodo). Os quartos de vilas eram higienicamente piores que os barracos das favelas, devido ao confinamento. 18,3% das residências possuíam piso de chão batido.

A rede geral de esgoto cobria apenas 2.255 (10%) residências. Como agravante, entre as residências não cobertas pelo esgoto, 9.870 não possuíam fossa. Na prática, 10 toneladas de fezes eram jogadas nas ruas e quintais, depois drenados para o Rio Sergipe.

A metade da população não recebia água encanada e 33,8% não tinha luz elétrica em casa, viviam à luz do candeeiro.

Em 7.817 residências não existia coleta de lixo. O balneário de Atalaia só recebia coleta de lixo no período de veraneio. Na cidade foram identificados 316 chiqueiros de porcos e 54 estábulos para bovinos. Vários matadouros para suínos, ovinos e caprinos.

A fonte dos dados é um criterioso estudo do DENERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais), publicados pelo Dr. Alexandre Menezes, na Revista Científica do Hospital de Cirurgia.

Em 2025, o saneamento continua atrapalhando Aracaju. Com a privatização, a IGUÁ adquiriu a concessão por 35 anos, do tratamento e coleta do esgoto, em 74 municípios de Sergipe, incluindo Aracaju.

Pelo tempo, não alcançarei os resultados dessa privatização desastrada. A primeira impressão da IGUÁ é negativa.

Acho que os banhos no Rio Sergipe e a travessia a nado, da Ponte do Imperador para a Barra dos Coqueiros, são sonhos inexequíveis. Por enquanto...

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

0 AUTO-RETRATO DE VAN GOGH.

O auto-retrato de van Gogh.
(por Antonio Samarone).

Eu estava, distraidamente, comendo a minha fatia matinal de manuê de arroz, num daqueles quiosques, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Exato, onde nos tempos de Vila existia um frondoso jenipapeiro, quase em frente a antiga casa paroquial.

De forma inesperada, fui abordado por um senhor, com um olhar no infinito, atemporal, que me pediu dinheiro. As pessoas por aqui, pedem muito. Dependendo das motivações do suplicante, eu sou generoso.

Desta vez, este senhor me despertou velhas memórias. Tive uma sensação de intimidade (esse olhar não me é estranho) e fui direto: eu lhe conheço! José Hamilton, afirmei sem convicção.

Ele não falava, nem ria. Só balançava a cabeça, ou que sim ou que não. Criou-se um clima de simpatia. O senhor é de que família? Sempre pergunto. Ele continuou calado. Achei-o muito parecido com um auto-retrato de van Gogh, que eu tinha visto em Amsterdã.

Um senhor ao lado, entrou na conversa: ele mora no Cruzeiro, anda assim à toa, mas é manso. Não mexe com ninguém. Quis saber, e os outros mexem com ele? Não, respondeu o senhor.

Hipócrates identificava dois tipos de doenças da alma (manias): “os loucos pela fleuma, que são calmos, não gritam nem agitam; e os loucos pela bile, que nunca ficam quietos”.

O Conselho de Abdera (cidade grega), pediu ajuda a Hipócrates, para curar o sábio Demócrito, que ria de todos e de tudo e desprezava os seus concidadãos. A loucura de Demócrito não foi confirmada pelo Pai da medicina. Ao contrário, a loucura era da sociedade.

Esse mesmo enredo foi usado por Machado de Assis, no conto “O Alienista”. No conto de Machado, o alienista é Simão Bacamarte, que diagnosticou e internou como louco toda a cidade de Itaguaí, até mesmo a sua esposa. No final do conto, o doutor dá alta aos internos e interna-se sozinho, o louco era ele:

“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde (o manicômio), entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.” – Machado de Assis.

Pinel e Esquirol acreditavam que com a Revolução Francesa e fim do “ancien régime” a insanidade seria reduzida. Engano, aumentou. A modernidade criou os grandes manicômios. A loucura resistiu ao tratamento moral.

A psiquiatria de mercado nada tem a nos dizer, atribui o sofrimento mental a um desarranjo dos neurotransmissores, para a felicidade da indústria farmacêutica.

O estranho nesse encontro com Zé Hamilton, foi a minha memória que se abriu. Não sei como, mesmo sem ele ter dito nenhuma palavra, eu lembrei-me do nome dele. Uma interação das almas profundas.

O senhor é filho de Manuel Teles (Mané Lombriga) e Dona Maria Queimado, neto de Dona Zabilinha, da Moita Formosa? Ele arregalou os olhos, confirmando. Uma memória de 60 anos foi ativada.

Ele foi novo para São Paulo, como era regra para os pobres daqueles tempos. Tentar a vida no Sul. A minha memória fui buscar os arquivos de infância.

Eu não suspeitava que o meu velho cérebro ainda captava memórias tão distantes. Onde essas informações estavam arquivadas? Com certeza, não estavam guardadas nos neurônios ou em suas sinapses. Não estavam no cérebro. Não foi uma descarga físico-química. A ciência fechou-se para esse entendimento.

Voltando ao encontro.

Aí ficou fácil. Seu Mané, o pai, foi um carroceiro que ficou conhecido pelo peso que conseguia carregar nas costas: 120 quilos. Eu trabalhava num armazém de cereais, comprando farinha diretamente aos produtores, para revendê-la ao Paes Mendonça, na Bahia.

Mané Lombriga, pela disposição, era o carroceiro preferido. Como era previsível, ele fraturou a coluna cervical e morreu com a sequela, com um colete protetor no pescoço.

A família da mãe de Zé Hamilton é grande e enraizada em Itabaiana. Dona Maria (a mãe) é irmã de Sílvio, Manuel, Otília e Antonio Queimado, gente bem situada na sociedade. Filhos de João Queimado e Dona Maria Isabel dos Santos (Zabilinha).

Hamilton vive sob os cuidados de uma irmã, Vaneide, no Bairro São Cristóvão (Cruzeiro). Ele não é assistido pelo CAPS, mesmo sendo dependente do álcool. Ele resiste. Vou procurá-lo. Sei que ele tem muita coisa a contar. Em minha roda infantil de amigos, a insanidade mental era frequente.

O fato reforça a minha suspeita de que a consciência não é produzida nem armazenada no cérebro, como pensa a neurociência. O cérebro age como um receptor da consciência. Esse espaço não permite o aprofundamento dessa hipótese.

A nossa comunicação foi possível, sem que Zé Hamilton dissesse uma palavra. Tenho certeza que da mesma forma que lembrei dele, ele lembrou de mim. Houve uma vibração harmônica entre as nossas consciências.

Não adianta os colegas psiquiatras procurarem o caso no CID. Essas loucuras são doenças da alma, da consciência e da civilização.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

sábado, 13 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DE MANÉ BARRACA


 Memórias de Mané Barraca.
(por Antonio Samarone)

O banzo (loucura nostálgica) e a tísica pulmonar eram frequentes no Tabuleiro dos Caboclos. Seu Manuel cuidava do banzo. A peste branca matava. Não existia tratamento para a tuberculose: o poeta Castro Alves (38 anos) e o Imperador Pedro I (36 anos), foram vítimas.

Mané Barraca era o pajé do Tabuleiro. Um negro alto, de fala mansa e gestos imponentes. No alto do seu oratório tinha um quadro de Jacques de Molay, a caminho da fogueira; ao lado da figura de Bafomé, esculpida em barro.

Se dizia que essa influência templária, foi deixada por um “maçone”, dono de engenho no Zanguê, no final do século XIX. Um ancestral do doutor Átalo e Grampão.

Seu Manuel era um misto de sacerdote, pajé e curador. Fazia as suas mandingas em Iorubá. No canto do oratório existia um manuscrito, com a farmacopeia jesuítica, incluindo a composição do “triaga brasílica!”. Fui seu cliente. Mamãe temia o quebranto, uma prostração causada por maus-olhados.

Seu fosse necessário, em casos urgentes, o mandingueiro Mané Barraca, lancetava, sangrava, sarjava e partejava. Era pau para toda a obra. Um benemérito, não cobrava.

A casuística de Mané Barraca incluía a gota serena (avitaminose A), bicho de pé (tunga), sarna, sapinho, impingem, antraz, pereba, ventosidade, opilação, gonorreia, malinas, tosse comprida, bexiga, sezões, fleimão e unheiro. O "morbus sacer" era tida como possessão.

Entretanto, o caso mais famoso de Mané Barraca, foi a cura de Zuzu do Matebe, ex escravizado, paneleiro e Pai de Santo. Seu Zuzu entristeceu, depois que a polícia mandou fechar o seu Terreiro.

Deixou de comer, só andava muzumbudo, emburrado pelos cantos.
Seu Zuzu perdeu a liberdade religiosa e cultural. Uma melancolia profunda pela perda da liberdade. O diagnóstico foi preciso: banzo! Uma doença que acometia os escravizados, quando chegavam ao Brasil, uma nostalgia profunda da pátria africana.

Mané Barraca, percebeu as semelhanças, no fundo, era a mesma perda da liberdade.

Martim Cascavel, um poderoso Coronel do Bom Jardim, ficou sabendo do caso e se ofereceu para ajudar. O tratamento era a reabertura do Terreiro. Dito e feito. A ordem foi dada: pode abrir!

Ouvia Seu Sancho contar, nas bodegas do Beco Novo, esse caso de banzo. Talvez o último, tratado por Mané Barraca. Nesse tempo, a doença já estava em extinção. Seu Zuzu montou o novo Terreiro, nas proximidades do Açude Velho. O banzo foi curado.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O REINO DE MIL ANOS

O reino de mil anos.
(por Antonio Samarone)

“Se alguém está destinado à prisão,/ irá para a prisão;/ se alguém deve morrer pela espada,/ é preciso que morra pela espada.” – Apocalipse 13,10.

A Besta foi vista no Caribe.
A Besta tem cabelos de fogo.
O tempo está próximo.
Aniquilarei os homens da face da terra.
Está próxima a grande tribulação.
Gaza já foi abandonada.
A sétima trombeta anunciou
A rosa hereditária.

É o fim das terras de Bolívar. Nos resta, uma madura solidariedade.

Eu sempre tive uma fantasia tridentina: assistir ao Armagedom pela TV, comparecer ao juízo final e ser um dos poucos escolhidos.

Entendam, o Paraíso não cabe todo o mundo. Creio que o juízo final será transmitido ao vivo, com acesso a perguntas. Basta saber o login e a senha.

Que me digais,/ Pois morri tão sem aviso,/ Se a barca do Paraíso/ É esta em que navegais?” – Gil Vicente.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A MISSA DO GALO

A Missa do Galo.
(por Antonio Samarone)

Os Natais começavam com os presépios. Na primeira semana, Dona Dezí esposa de Seu Jeconias, montava o seu presépio, na sala de visitas de sua casa. O menino Jesus ficava na manjedoura, esperando os Reis Magos. Se sabia até os nomes dos monarcas orientais: Belchior, Gaspar e Baltazar. Eles seguiam uma estrela e traziam ouro, incenso e mirra. Não me perguntem, eu não sei o que é “mirra”.

O presépio de Dona Dezí era de visita obrigatória.

O Natal nasceu em Roma, como festa pagã. Saturnália e o Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto) celebradas no solstício de inverno (25 de dezembro). O cristianismo associou a data ao nascimento de Cristo. Eu ainda alcancei o Natal como uma festa cristã.

O Natal sempre foi um tempo de presentes e roupas novas. O ponto máximo do Natal era a missa do galo, tarde da noite.

Depois da missa, os ricos organizavam um jantar em família. Os pobres e remediados iam à Feirinha de Natal, comer arroz amigo com galinha de capoeira, nas banquinhas das cozinheiras, no final da Praça de Santa Cruz. Quando me lembro, sinto o cheiro e ainda me dá água na boca.

No Beco Novo, se dizia que um galo tinha cantado a meia-noite, anunciando a boa nova, o nascimento de Cristo. Eu, até hoje, acredito no canto desse galo. Fiquei sabendo que não existe mais a missa do galo.

Depois da missa, descíamos aos magotes para Praça de Santa Cruz, onde estava montada a Feirinha de Natal. A festa consistia num parque de diversão, totalmente artesanal. Os principais brinquedos eram: barcas, carrosséis, o balanço de Seu Otávio, a onda de Zé Costa, o trivoli de Miguel Fagundes, todos empurrados pelos músculos humanos.

Outra atração para os adultos eram os jogos de azar. Carteado, pio, roleta, argola e o jogo do preá. Os prêmios das roletas eram goiabadas, peixe e palmeiron. Meu pai gastava as economias nas roletas de natal. Ele chegava em casa, cansado, com os bolsos vazios e as mãos cheias de goiabadas.

Papai se considerava um vencedor nas roletas de Natal. Chegar em casa com as mãos abanando, era um sinal de derrota.

O jogo do preá era uma mesa enfeitada, cercada de casinhas numeradas. O coitado do preá era solto no meio da mesa e, empurrado aos gritos, para se esconder dos humanos, em uma das casinhas. O número da casa escolhida pelo atordoado preá, era o número vencedor. Naquele tempo, era permitido se maltratar os animais.

A Feirinha de Natal era sortida de vendas de doces, frutas e bugigangas. Foi numa dessas feirinhas, aos 13 anos, onde eu experimentei a maça pela primeira vez. Gastei tudo o que tinha, mas comprei a maça. Movido pela curiosidade em saber o que Adão viu na maça, para ele perder o Paraíso, e pelo cheiro de um papel azul que enrolava o fruto proibido.

Uma decepção: não gostei da minha primeira maça. Preferia ingá, tamarindo, oiti, cajarana, imbu e juá.

Ao fundo da feirinha, um alto-falante tocava boleros e mandava recados para os enamorados: alguém oferece, apaixonadamente, a uma moça de saia plissada e blusa de alcinha, as músicas que seguem. A música mais tocada era “Esta noite eu queria que o mundo acabasse...”, na voz de Silvinho.

Papai Noel já existia, trazido por Fefi, do Armarinho Tem-Tem. Porém, nunca passou no Beco Novo. Para ser sincero, eu nunca acreditei. Eu conheci o Papai Noel em Aracaju.

A chamada Festa de Natal, se repetia no Ano Bom e no dia de Reis. Cada povoado fazia a sua, em dias diferentes. Meu pai me levava para o Natal das Candeias, onde ele nasceu.

Hoje, as cidades se iluminam de leds, pisca-piscas, arvores de natal, renas e Papai Noel. Muitos, um em cada esquina tem um. Nada contra, o Natal voltou a ser uma festa pagã.

Em Itabaiana, além das luzes, montaram um moderno parque de diversões, onde tem até montanha-russa e, acompanhando as novidades, o competente Marquinhos inventou um castelo medieval, daqueles da Disney. O castelo foi fabricado pela Tuchê Impressão, uma empresa local.

A festa está bonita e animada em Itabaiana, com corais, bandas e teatro.

Eu só acho que a igreja católica, assistiu à derrota passivamente. Gente, pelo menos deixassem a missa do galo.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.