terça-feira, 30 de julho de 2024
VIVA A LIBERDADE
Viva a liberdade.
(por Antonio Samarone)
Acordei-me ouvindo "bella ciao", cantada por Mercedes Sosa.
O ovo da serpente está germinando. O assanhamento da extrema-direita é ostensivo. Triste, pela impotência, recorri aos sonhos. Enquanto é possível.
A famosa canção anti-fascista “bella ciao”, deposita as esperanças de liberdade nos partigianos, um grupo italiano de resistência ao fascismo, durante a Segunda Guerra. A canção ainda é cantada pela torcida do Livorno.
O que significa partisan, qual a origem? Algumas versões da música em português, traduz como companheiros. Não, o significado é mais profundo.
No tempo de Salomão, o povo judeu era dividido entre fariseus, saduceus, essênios e zelotes. Os essênios (ou partisans, homens do Partido de Deus) conviviam coletivamente, sem a propriedade privada. Os essênios foram eliminados após a destruição de Jerusalém, pela Babilônia.
Partisan vem dos essênios, vem de longe.
O que diz a música, numa tradução aproximada?
“Acordei de manhã, minha querida, Adeus!/ Acordei de manhã e me deparei com o invasor,/ Partigiano, me leve embora/ Minha querida, Adeus/ E se eu morrer como resistente, tu deves me sepultar/ Me sepultes na montanha/ Sob a sombra de uma linda flor/ As pessoas que passarem irão dizer: que linda flor/ É a flor do Partigiano, que morreu pela liberdade.”
Tenho maus pressentimentos, sobre a sobrevivência da democracia no Brasil.
Viva a liberdade.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
segunda-feira, 29 de julho de 2024
O DOENTE IMAGINÁRIO
O doente imaginário.
(Por Antonio Samarone)
Tomei o título de Molière.
Romeu, é um filósofo independente. Nunca tomou conhecimento do pensamento filosófico grego. Apreendeu a pensar com Zezito de Dona Bilô, no Beco Novo.
O seu horizonte filosófico é uma passagem do evangelho: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, que um rico entrar no Reino do Céu.” Romeu divide a humanidade pela riqueza de cada um.
Em sua casuística, Romeu constatou que a canalhice é um privilégio dos ricos. Esse foi o seu maior engano. A canalhice é bem distribuída entre os humanos.
Em estudos recentes, exegetas bíblicos descobriram que alguns oportunistas, embarcaram na Arca de Noé, mesmo sem convites. A canalhice é universal e antiga.
Romeu era coerente com o seu credo e curtia uma bem sucedida velhice estoica. Até o atual transtorno.
Recentemente, Romeu começou a sofrer dos nervos. Após rondar pajés, xamãs, rezadores e curandeiros, terminou quase desenganado. Procurou o Dr. Rondinei, um velho charlatão em medicina natural, que diagnosticou um “destemperamento hipocondríaco”.
Diagnóstico que há muito tempo foi retirado do Código Internacional das Doenças (CID), mas a doença continua existindo.
Presente ou não no CID, o diagnóstico estava dado.
Como bom cristão, Romeu acredita em milagres, sabe que é o caminho mais rápido para a legitimação de santidades. Duvidá-los, é uma forma primária de arrogância. O milagre mais conhecido, a transformação de água em vinho, nas bodas de Canaã, é bem-visto, mesmos entre os hereges.
As leis da natureza são suspensas, pela ação de Jesus Cristo, acredita o filosofo Romeu. O coxo anda, o cego vê, o enfermo é curado, o morto ressuscita e os demônios são expulsos. Se alguém duvida, pergunta ele?
O que parecia fácil, recorrer aos milagres, ficou difícil.
A enfermidade de Romeu só existe como impressão, um transtorno imaginário: “destemperamento hipocondríaco”. Como curar quem de nada sofre? Ele só acha que sofre. Talvez, nesse caso específico, nem a psiquiatria científica de mercado, nem os milagres, resolvam.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(Por Antonio Samarone)
Tomei o título de Molière.
Romeu, é um filósofo independente. Nunca tomou conhecimento do pensamento filosófico grego. Apreendeu a pensar com Zezito de Dona Bilô, no Beco Novo.
O seu horizonte filosófico é uma passagem do evangelho: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, que um rico entrar no Reino do Céu.” Romeu divide a humanidade pela riqueza de cada um.
Em sua casuística, Romeu constatou que a canalhice é um privilégio dos ricos. Esse foi o seu maior engano. A canalhice é bem distribuída entre os humanos.
Em estudos recentes, exegetas bíblicos descobriram que alguns oportunistas, embarcaram na Arca de Noé, mesmo sem convites. A canalhice é universal e antiga.
Romeu era coerente com o seu credo e curtia uma bem sucedida velhice estoica. Até o atual transtorno.
Recentemente, Romeu começou a sofrer dos nervos. Após rondar pajés, xamãs, rezadores e curandeiros, terminou quase desenganado. Procurou o Dr. Rondinei, um velho charlatão em medicina natural, que diagnosticou um “destemperamento hipocondríaco”.
Diagnóstico que há muito tempo foi retirado do Código Internacional das Doenças (CID), mas a doença continua existindo.
Presente ou não no CID, o diagnóstico estava dado.
Como bom cristão, Romeu acredita em milagres, sabe que é o caminho mais rápido para a legitimação de santidades. Duvidá-los, é uma forma primária de arrogância. O milagre mais conhecido, a transformação de água em vinho, nas bodas de Canaã, é bem-visto, mesmos entre os hereges.
As leis da natureza são suspensas, pela ação de Jesus Cristo, acredita o filosofo Romeu. O coxo anda, o cego vê, o enfermo é curado, o morto ressuscita e os demônios são expulsos. Se alguém duvida, pergunta ele?
O que parecia fácil, recorrer aos milagres, ficou difícil.
A enfermidade de Romeu só existe como impressão, um transtorno imaginário: “destemperamento hipocondríaco”. Como curar quem de nada sofre? Ele só acha que sofre. Talvez, nesse caso específico, nem a psiquiatria científica de mercado, nem os milagres, resolvam.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sexta-feira, 26 de julho de 2024
COM A PALAVRA, VLADIMIR CARVALHO.
Com a palavra, Vladimir Carvalho.
(por Antonio Samarone)
Foi a Cultura que tirou o homem da caverna. Luiz Antonio Barreto me ensinou: a Cultura não tem dono. Uma verdade!
Hoje, as 19 horas, na Câmara de Vereadores de Itabaiana, a Academia Itabaianense de Letras, em parceria, com a Secretaria da Cultura, irão comemorar os 51 anos do lançamento do livro “Santas Almas de Itabaiana Grande”, de Vladimir de Souza Carvalho.
A historiadora Thetis Nunes apontava a chegada de BR – 235 e a criação do Colégio Murilo Braga, no início da década de 1950, como os pontos de partida do desenvolvimento de Itabaiana.
O progresso econômico em Itabaiana é incontestável. Contudo, a Cultura pede passagem. O papel da educação foi decisivo desse desenvolvimento, gerou pensadores. O Colégio Murilo Braga foi o berço da Academia de Letras.
O lançamento do livro de Vladimir Carvalho, abriu uma nova Era na cidade. Talvez, no interior de Sergipe. Essa iniciativa, estimulou a publicação da história de vários municípios. Hoje, toda comunidade tem a sua história.
A Cultura em Itabaiana, antes centrada na música, religião, fotografia e folclore, iniciava uma fase literária. Vamos prestar uma justa homenagem a Vladimir Carvalho. Tudo começou com ele: o jornal O Serrano, o incentivo a centenas de publicações: literatura, poesia, contos, causos, história, desaguando na Academia de Letras.
Na sessão de hoje, o homenageado, Vladimir Carvalho, fará uma conferência sobre os 350 anos de fundação de Itabaiana. Será o primeiro ato de comemoração dessa data gloriosa.
O aniversário será festejado no próximo ano, em 2025. Será um ano especial. A cidade nasceu no mesmo berço da Freguesia de Santo Antonio e Almas. Um duplo aniversário.
A foto, é significativa, uma amostra dos intelectuais que prestigiaram o lançamento do livro de Vladimir. Da esquerda para direita: Zé Crispim, Jackson da Silva Lima, Alberto Carvalho, Zé Silveira, Vladimir Carvalho, Renato Mazze Lucas e Jubal Carvalho.
Um convite: quem puder, venha!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
domingo, 21 de julho de 2024
POR QUE SONHAMOS?
Por que sonhamos?
(por Antonio Samarone)
“O sonho que se sonha só, é loucura”. Sidarta
Realizar os sonhos é um caminho para a felicidade. A razão produz monstros. “O sonho é a imaginação sem freio nem controle, solta para temer, criar, perder e achar.” – Sidarta Ribeiro.
Os sonhos proféticos, de origem divina, já conduziram reinos, declararam guerras, salvou monarcas. Nabucodonosor soube da queda da Babilônia através dos sonhos.
José interpretou o sonho do faraó. Aquela história dos anos de vacas magras e vacas gordas. Hoje, se sonhar com vacas, tornou-se apenas uma dica para se fazer uma fezinha no jogo do Bicho.
Júlio César sonhou com o seu assassinato. César recebeu um presságio para os perigos dos idos de março. “Na noite de 14 de março de 44 a.C., César sonhou que era transportado entre as nuvens, elevado aos céus e recebido por Júpiter.” – Sidarta R.
Calpúrnia, esposa de César, sonhou com o seu assassinato.
Os sonhos estão presentes na Bíblia, Corão, Ilíada e odisseia.
Na Grécia, os doentes procuravam os Templos de Asclépios em busca da cura. Os doentes dormiam nos Templos, esperando a voz os oráculos, que falavam através dos sonhos.
Freud e Jung fizeram da interpretação dos sonhos uma nova ciência da mente, a psicanálise. Os sonhos permitem mergulhar nos subterrâneos da consciência.
A medicina científica reduziu o sonho a uma ativação aleatória de neurônios do córtex cerebral. Nessa visão cientificista, os sonhos são fragmentos da memória montados ao acaso. Ou seja, um fenômeno irrelevante, sem interesse para a compreensão da consciência humana.
O Homo sapiens é anatomicamente o mesmo, há pelo menos 300 mil anos. Saímos das cavernas através da cultura. Não foi a economia! O fogo permitiu as rodas de conversa e os devaneios oníricos. Os sonhos moveram as narrativas humanas.
A inumação intencional antecedeu aos cem mil anos. Nascem as religiões. O sonho é um portal de comunicação com as divindades.
Finalmente, o que é o sonho?
Calma, estou saboreando a leitura do Oráculo da Noite, nos primeiros capítulos. Quando souber, direi a vocês.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(por Antonio Samarone)
“O sonho que se sonha só, é loucura”. Sidarta
Realizar os sonhos é um caminho para a felicidade. A razão produz monstros. “O sonho é a imaginação sem freio nem controle, solta para temer, criar, perder e achar.” – Sidarta Ribeiro.
Os sonhos proféticos, de origem divina, já conduziram reinos, declararam guerras, salvou monarcas. Nabucodonosor soube da queda da Babilônia através dos sonhos.
José interpretou o sonho do faraó. Aquela história dos anos de vacas magras e vacas gordas. Hoje, se sonhar com vacas, tornou-se apenas uma dica para se fazer uma fezinha no jogo do Bicho.
Júlio César sonhou com o seu assassinato. César recebeu um presságio para os perigos dos idos de março. “Na noite de 14 de março de 44 a.C., César sonhou que era transportado entre as nuvens, elevado aos céus e recebido por Júpiter.” – Sidarta R.
Calpúrnia, esposa de César, sonhou com o seu assassinato.
Os sonhos estão presentes na Bíblia, Corão, Ilíada e odisseia.
Na Grécia, os doentes procuravam os Templos de Asclépios em busca da cura. Os doentes dormiam nos Templos, esperando a voz os oráculos, que falavam através dos sonhos.
Freud e Jung fizeram da interpretação dos sonhos uma nova ciência da mente, a psicanálise. Os sonhos permitem mergulhar nos subterrâneos da consciência.
A medicina científica reduziu o sonho a uma ativação aleatória de neurônios do córtex cerebral. Nessa visão cientificista, os sonhos são fragmentos da memória montados ao acaso. Ou seja, um fenômeno irrelevante, sem interesse para a compreensão da consciência humana.
O Homo sapiens é anatomicamente o mesmo, há pelo menos 300 mil anos. Saímos das cavernas através da cultura. Não foi a economia! O fogo permitiu as rodas de conversa e os devaneios oníricos. Os sonhos moveram as narrativas humanas.
A inumação intencional antecedeu aos cem mil anos. Nascem as religiões. O sonho é um portal de comunicação com as divindades.
Finalmente, o que é o sonho?
Calma, estou saboreando a leitura do Oráculo da Noite, nos primeiros capítulos. Quando souber, direi a vocês.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sexta-feira, 19 de julho de 2024
A QUEDA DO CÉU
A queda do céu.
(por Antonio Samarone)
A questão ambiental não é prioridade em Aracaju. Uma bandeira solta, à espera de quem a carregue. Talvez, seja um mal de origem. Aracaju foi construída entre manguezais e pântanos.
Luiz Antonio Barreto resumia numa frase: “Aracaju é um aterro embelezado.”
Este aterro avançou no século XX, com aterros de lagoas e riachos e com o desmonte do Morro do Bomfim, onde a areia de uma enorme duna, viabilizou a ocupação da Zona Norte.
Aracaju foi construída sobre os mangues do São José, nas imediações do Batistão, sobre os aterros da Coroa do Meio, mangues do São Conrado, rios, Poxim e do Sal e das salinas do Porto Danta, etc.
Passaria a manhã descrevendo os aterros do Aracaju.
Desde os meados do século XX, Aracaju é comandada pela indústria da construção civil. Diretamente ou mediante prepostos.
Aracaju tem o DNA da especulação imobiliária. Nada mudou.
Na década de 1980, tentaram lotear a Praia 13 julho. Aterrar e construir prédios. A ambição foi freada pela forte resistência da sociedade civil. Hoje, não se daria um pio.
“Aracaju é uma cidade roubada do ecossistema” – poeta Jozailto Lima.
O desprezo pelo meio ambiente em Aracaju é ostensivo, desassombrado e agressivo. As enchentes, a precariedade do saneamento básico, a poluição do Rio de Sergipe, o desprezo pelas árvores, é senso comum.
Estou aguardando os planos de governo, dos candidatos a Prefeito do Aracaju. Não sou otimista!
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
quinta-feira, 18 de julho de 2024
O DIREITO DE IR E VIR
O direito de ir e vir.
(por Antonio Samarone)
O artigo V da Constituição Federal garante o direito a locomoção.
Em Itabaiana, resolveram exercer o direito de ir e vir, preferencialmente de moto ou motoneta.
A cidade possui 103 mil habitantes (Censo 2022). Se excluirmos a fração que não usa moto: idosos, com mais de 60 anos (9%), por dificuldades físicas, e os jovens com menos de 16 anos (12%), por proibição legal, se ainda excluirmos os que não usam pôr limitações pessoais, incluindo o medo, restam cerca de 72 mil pessoas aptas.
Os dados oficiais registram 36 mil motos emplacadas em Itabaiana. Fizeram a conta? Um em cada dois habitantes, possui moto. Fica a pergunta: trata-se de um problema ou de uma solução?
Eu sei, o número de veículos por cidade é um indicador do seu desenvolvimento econômico. Façam essa comparação: Itabaiana, com 103 mil hab., possui 74 mil veículos emplacadas; Lagarto, com 101 mil hab., possui 58 mil veículos. Socorro, com 192 mil habitantes, possui 62 mil veículos.
O número de veículos é um dado positivo, mas também é um problema para a mobilidade urbana.
Itabaiana já enfrenta o trânsito como prioridade. A mobilidade é um tema central, no plano da futura administração de Valmir de Francisquinho.
(a foto foi de ontem, numa rua central em Itabaiana)
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(por Antonio Samarone)
O artigo V da Constituição Federal garante o direito a locomoção.
Em Itabaiana, resolveram exercer o direito de ir e vir, preferencialmente de moto ou motoneta.
A cidade possui 103 mil habitantes (Censo 2022). Se excluirmos a fração que não usa moto: idosos, com mais de 60 anos (9%), por dificuldades físicas, e os jovens com menos de 16 anos (12%), por proibição legal, se ainda excluirmos os que não usam pôr limitações pessoais, incluindo o medo, restam cerca de 72 mil pessoas aptas.
Os dados oficiais registram 36 mil motos emplacadas em Itabaiana. Fizeram a conta? Um em cada dois habitantes, possui moto. Fica a pergunta: trata-se de um problema ou de uma solução?
Eu sei, o número de veículos por cidade é um indicador do seu desenvolvimento econômico. Façam essa comparação: Itabaiana, com 103 mil hab., possui 74 mil veículos emplacadas; Lagarto, com 101 mil hab., possui 58 mil veículos. Socorro, com 192 mil habitantes, possui 62 mil veículos.
O número de veículos é um dado positivo, mas também é um problema para a mobilidade urbana.
Itabaiana já enfrenta o trânsito como prioridade. A mobilidade é um tema central, no plano da futura administração de Valmir de Francisquinho.
(a foto foi de ontem, numa rua central em Itabaiana)
Antonio Samarone – médico sanitarista.
terça-feira, 16 de julho de 2024
O GRANDE INQUISIDOR
O Grande Inquisidor.
(por Antonio Samarone)
“Se Deus não existe, tudo é permitido.” – Dostoievski.
Compreendendo a falta de tempo para as narrativas encantadas, resolvi postar essa reflexão, de um clássico da literatura. O grande Inquisidor é um capítulo dos Irmãos Karamazov. Fala sobre o vazio da pós-modernidade.
“A ação passa-se em Espanha, em Sevilha, na época mais terrível da Inquisição, quando todos os dias, para glória de Deus, se acendiam as fogueiras e "os medonhos hereges ardiam em soberbos autos-de-fé".
“Na Sua infinita misericórdia, Cristo desceu pelas ruas ardentes da cidade, onde justamente na véspera, em presença do rei, dos cortesãos, dos cavaleiros, dos cardeais e das mais gentis damas da corte, o grande inquisidor mandou queimar uma centena de hereges, ad majorem gloriam Dei.”
“Cristo apareceu suavemente, sem se fazer notar, e, coisa estranha, todos O reconhecem; o povo comprime-se à Sua passagem e segue-Lhe os passos.”
“Silencioso, passa pelo meio da multidão com um sorriso de compaixão infinita. Tem o coração abrasado de amor, dos olhos se Lhe desprendem a Luz, a Ciência, a Força que irradiam e nas almas despertam o amor.”
“Um velho, cego de criança, grita dentre o povo: "Senhor, cura-me e ver-Te-ei"; cai-lhe uma escama dos olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão que Ele pisa. As crianças deitam-Lhe flores no caminho; todos cantam, todos gritam: hossana! É Ele, deve ser Ele, não pode ser senão Ele!”
“Cristo ainda para no Adro da Catedral de Servilha e ressuscita uma criança de sete anos.”
“Neste instante, passa pela praça o cardeal grande inquisidor. Os taciturnos ajudantes e a guarda do Santo Ofício seguem-no a respeitosa distância. Para diante da multidão e observa-a de longe.”
O inquisidor franze as espessas sobrancelhas e ordena: prenda-o!
Ignoro quem és e nem quero sabê-lo: és Tu ou somente a Sua aparência? Mas amanhã hei-de condenar-Te e serás queimado como o pior dos heréticos e o mesmo povo que hoje Te beijava os pés se precipitará amanhã, a um sinal meu, para deitar lenha na fogueira.
O Inquisidor reconheceu que era Cristo, mesmo assim, ou talvez por isso, decidiu condená-lo a fogueira. Cristo retornava para espalhar a liberdade e amor entre os homens. O inquisidor alertou-O, sem o medo, eles irão tentar construir uma nova babel.
Esse era o risco. O homem odeia a liberdade. Porque não há para o homem que ficou livre cuidado mais constante e mais doloroso do que o de procurar um ser diante do qual se incline.
Os povos forjaram deuses e desafiaram-se uns aos outros:
"Abandona os vossos deuses, adorai os nossos; senão, ai de vós e dos vossos deuses!" E será assim até o fim do mundo, mesmo quando já os deuses tiverem desaparecido; prostrar-se-ão diante dos ídolos.”
“O homem prefere a paz, e até a morte, à liberdade de discernir o Bem e o Mal? Nada há de mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas nada há também de mais doloroso.” Na pós-modernidade, o homem deixou de ter importância.
“Há três forças, as únicas que podem subjugar para sempre a consciência destes fracos revoltados: são o milagre, o mistério, a autoridade!”
Para entender o vazio, a falta de sentido da vida na pós-modernidade, para entender o desespero quando se descobre que os homens mataram Deus. E agora? Com Deus, tínhamos um norte, uma narrativa, um sentido para a vida.
O Ser humano precisa de orientação. Quem irá nos oprimir e proteger? A ciência, uma utopia humanista, ou o retorno ao sagrado? O homem busca o milagre!
Trocamos as narrativas pelos dados. A informação não produz significados relevantes para a vida, são efêmeras. Vivemos com pressa, voltados para a ação, para o desempenho. Precisamos de narrativas contemplativas, encantadas, criada em volta da fogueira.
É preciso imaginar Sísifo feliz!
Ao final da fábula acima, o Inquisidor libera Cristo: "ide e não voltes mais."
Antonio Samarone – médico sanitarista.
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