A Cultura e os Caminhoneiros.
(por Antonio Samarone)
Itabaiana é a Capital nacional dos caminhões (Lei 13.044, de 2014).
Nos últimos 70 anos, Itabaiana se transformou num importante polo comercial, puxado pelo crescimento do setor de transportes. O caminhão foi a locomotiva. Formou-se uma grande cadeia produtiva, em torno do caminhão.
A grande festa dos caminhoneiros em Itabaiana é uma mistura de religião, negócios e musical de massas.
O caminhão trouxe a indústria de carrocerias, uma rede de oficinas e casas de peças, empresas de vendas de veículos (novos e usados) e empregos para motoristas. O caminhão coloca muito dinheiro em circulação. O dinheiro corre, com si diz. O setor imobiliária explodiu.
Uma curiosidade. Somos a capital da castanha, também por conta do caminhão. Como assim, pergunta o apressado?
No agronegócio não basta produzir. É preciso vender, encontrar mercado consumidor. É o espírito competitivo que leva o Itabaianense a vender as suas castanhas no resto do país. E como as levam? Via de regra, na boleia dos caminhões.
Se encontrar alguém vendendo castanha de caju nas praias de Santa Catarina, pode perguntar: você é de onde? Ele responde gritando, do Carrilho ou das Tabocas ou do Dendezeiro. São ex quilombos extrativistas, em Itabaiana, onde assar castanha encontrou um solo fértil.
O Piauí produz a castanha, mas não beneficia, não tem a quem vender.
Voltando ao tema central.
Os caminhoneiros impuseram o seu modo de vida em Itabaiana e região. Hoje, quando se fala em Itabaiana, econômica e culturalmente, se fala no Agreste caminhoneiro.
É o Agreste que puxa a economia do estado. O resto é dinheiro público e capital de fora.
Quando se pergunta a uma criança em Itabaiana, o que ela quer ser, a maioria responde: caminhoneiro.
A impressionante carreata mirim é movida por emoção. São filhos, netos, sobrinhos de caminhoneiros. Muitos empurrados pela saudade, dos que já se foram.
O que explica essa força competitiva dos caminhoneiros em Itabaiana? Claro, a chegada da BR – 235 ajudou. Mas, a BR também chegou a outras cidades. Por que Itabaiana virou a pátria dos caminhoneiros?
Essa força está presente em todo o Agreste.
Na verdade, o caminhoneiro de Itabaiana ganhou a disputa no mercado dos transportes, teve a preferência das cargas, chegou na frente, por um motivo: as cargas nos caminhões de Itabaiana eram entregues na hora combinada, em especial as cargas de perecíveis.
O Itabaianense ganhou a concorrência no mercado dos transportes, ganhou fama e legitimidade, por sua competitividade.
Essa vantagem competitiva muitas vezes dependia dos arrebites. Do uso de substâncias estimulantes, para se evitar o sono e o cansaço. A carga deve ser entregue na hora combinada.
Isso teve um preço amargo. A mortalidade dos caminhoneiros em Itabaiana foi muito superior à média nacional. Muitas famílias em Itabaiana perderem os seus entes queridos.
A vitória na concorrência teve consequências boas e ruins. Por isso, o respeito em Itabaiana pelos caminhoneiros.
O Itabaianense não quer perder, disputa qualquer coisa. Apostam em tudo... Gostam do jogo e da disputa.
De onde vem essa índole competitiva do Itabaianense?
Tenho escutado várias explicações: uma suposta descendência judaica, uma herança genética dos holandeses, a natureza do Itabaianense, nascemos assim. São explicações superficiais, deterministas.
Penso que a explicação principal seja outra. Depende do nosso modo de vida. Peço ajuda a cultura, numa abordagem mais antropológica.
Itabaiana é uma terra de pequenos proprietários rurais, artesões, e pequenos comerciante. Uma terra em que a acumulação inicial do capitalismo funciona. Todos têm chances na disputa. Mesmo quem não tem, pensa que tem.
Os magnatas, magnatas, são poucos. Não existe a dicotomia Servo/Senhor. Os senhores são poucos, e não existem famílias tradicionais, os baronatos. Não existe uma aristocracia.
Aprendemos a ser livres na infância, e que dependemos do talento e da disposição.
Em Itabaiana, o novo rico é bem aceito na sociedade. Sem rejeição. Não se pergunta a origem da riqueza. Dinheiro é dinheiro, nos bolsos de qualquer um.
Isso permite uma competição com chances. Todos se matam de trabalhar, com gosto, sem reclamações. Rodam o mundo, para vencer na vida. Vale tudo.
Os comerciantes em Itabaiana enfrentam a expansão do grande capital, em boa parte, internacional, enfrenta as grandes redes nacionais de distribuição.
Vejam na grande Aracaju, a rede de Mercearias Itabaiana sobrevive, vendendo muitas vezes mais barato que os “Assais e os G. Barbosas."
Falando-se no comercio de madeira, fertilizantes, autopeças, confecções, bebidas, pneus, entre outros, não precisa consultar os preços, vá direto a Itabaiana.
Os “Peixotos” no Agreste, vendem de tudo e com um menor preço.
O novo rico é um herói em Itabaiana. Venceu!
Creio que a essa competitividade é determinada culturalmente, pelo modo de vida livre, sem senhores.
Por outro lado, essa competitividade individual de cada um, retroalimenta o modo de vida, as crenças e os valores.
Com isso, o Agreste está sendo transformado.
O Itabaianense trabalha as 24 horas por dia e os sete dias na semana. Full time. Dormir é para os fracos.
A alma competitiva do Itabaianense não é herança biológica, natural, ou depende da geografia serrana, como pensava um grande intelectual patrício, já falecido. E ainda pensa, uma gente academicamente bem formada.
Ouso colocar a cultura, lato senso, na base das análises.
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
A CULTURA E OS CAMINHONEIROS
VINTE E OITO DE AGOSTO
Vinte e oito de agosto.
(por Antonio Samarone)
Itabaiana Grande comemora as suas festas cívicas.
Em 28 de agosto de 1888, passamos de Villa a Cidade. Não sei quem disse que era o aniversário. Mesmo não sendo, pegou.
Esse ano de 2023, no dia 28, além de missa, hastearemos a bandeira e o cantaremos o hino da cidade defronte a Prefeitura.
Está acontecendo a “micarana”, uma tradição de 64 anos, quando Euclides Paes Mendonça organizou a primeira micarene (carnaval fora de época).
A Villa de Santo e Almas é antiga. Primeiro fomos Arraial. Antes, chegaram os franceses para buscar Pau Brasil.
Sebrão Sobrinho conta que antes da chegada dos portugueses, Simão Dias, filho de pai francês e mãe índia, foi criado debaixo de uma quixabeira e alimentado por uma cabra. O nosso primeiro vaqueiro. Quem sou eu para desacreditar.
Depois, Simão Dias se aborreceu com os holandeses, pegou o seu gado e mudou-se para as matas do Caiçara. Foi fundar a Villa de Simão Dias.
A grande Serra de Itabaiana foi avistada por Américo Vespúcio, em 1501. Ele conta, em seus livros.
Depois chegaram os sesmeiros, expulsando os índios. Construíram uma Igreja, no vale do Jacarecica. Criaram uma Irmandade das Santas Almas do fogo do purgatório. Compraram um sítio ao padre Sebastião, e fundaram a Villa. São quase 400 anos. Nascemos naquele tempo.
Os Peixotos ganharam uma sesmaria no vale do Jacarecica, em 1601, e dominam o comércio de Itabaiana até hoje. São os fundadores.
Itabaiana ia de Jeremoabo a Santa Rosa de Lima. Entretanto, a Villa, a parte urbana, era pequena. Morávamos nas roças. E assim permanecemosb até um dia desses. Itabaiana era rural. Quando eu nasci, a metade das casas da cidade, ainda era de rancho.
Na cultura, dominava a música, desde 1745. Depois a fotografia, com Miguel Teixeira.
A foto postada é do final do Século XIX, certamente é a primeira foto de Itabaiana, da lavra de Teixeirinha. A raridade é do rico acervo de Robério Santos.
O território de Itabaiana foi reduzido, ficou imprensado entre o seco Sertão e os doces canaviais. Sobrou o agreste, que depois foi esquartejado. Nos restou produzir alimentos: Itabaiana tornou-se o celeiro de Sergipe e do Sertão da Bahia.
Na metade do século XX, chegou a BR – 235 e o Ginásio Murilo Braga. Itabaiana tornou-se um entreposto comercial, puxado pelos caminhões.
Nos últimos 70 anos, crescemos e multiplicamos. Itabaiana ultrapassou a barreira dos cem mil. Tornou-se um centro metropolitano de desenvolvimento, em competição com a Capital.
Itabaiana tornou-se uma Região metropolitana, centralizando todo o Agreste. A capital nacional do caminhão criou um comércio competitivo, em qualidade e preço.
O que não se encontrar em Aracaju, não pense duas vezes, em Itabaiana tem pela metade do preço. Diz um ditado popular: “de tudo o que existe no mundo, em Itabaiana tem pelo menos dois."
Itabaiana transformou-se em polo na economia. Na política, pela primeira, os destinos de Sergipe passam pelo interior. A gestão da cidade é um exemplo, até para os adversários.
O futebol voltou ao cume e pensa alto. Aguardem 2024.
Eu não tenho dúvidas, em breve, a Cultura mostrará a sua pujança. Talentos não faltam. Se não bastassem a Orquestra Sinfônica e a Bienal (sexta edição), que vai além dos livros, o nosso Teatro já está no forno. No início de novembro, a Bienal volta mais forte.
Nesse segundo semestre, teremos um festival internacional de cinema, um festival de música clássica, outro de música popular, um festival de Hip-hop e outro de cultura. Será a ebulição das artes.
Itabaiana é a Terra dos milagres. Que Santa Dulce junte-se a Santo Antonio, para nos abençoar.
Antonio Samarone – Médico sanitarista.
A VIDA É UM MILAGRE
A vida é um milagre.
(por Antonio Samarone)
Acho a dúvida se milagres existem, uma bobagem. Tudo é milagre.
As versões científicas sobre a origem da vida são ficções mal arrumadas.
A coisa se agrava, quando a ciência procura explicar o surgimento da consciência. Quanto maior a objetividade da tese, maior a ilusão.
Estou convencido que o sagrado é parte inerente da consciência. Não são apenas fenômenos físico-químicos. A transcendência é um fenômeno real. Por outro lado, a consciência é um fenômeno do conjunto da vida, a sua parte divina. O ego é apenas um subproduto da consciência.
Pode se chegar a uma consciência ampliada, por vários caminhos.
Os gregos, iniciados nos Mistérios de Elêusis, usavam uma substância natural produzida pelo fungo ergot, presente na cevada da região.
Em 1938, Albert Hoffmann, um químico suíço da Sandoz, tentando sintetizar essa substância dos gregos em laboratório, descobriu o LSD (dietilamida do ácido lisérgico). A mais poderosa substância psicodélica.
Para evitar mal-entendidos e confusões com os psicotrópicos, os psicodélicos são substâncias que alteram a consciência por longa duração, não causam dependência e permitem viagens a regiões desconhecidas da mente. Fixam a consciência no tempo presente, unifica as polaridades, coletiviza as percepções e supera o domínio do ego e amplia a consciência.
A consciência ampliada percebe parte da hierarquia da vida. Das bactérias, insetos, fungos, seres humanos, anjos e deuses.
O que chamamos de consciência é uma percepção fragmentada e parcial da realidade.
A consciência ampliada é parte da energia cósmica eterna, princípio sagrado e divindade interna. É o Nivarna dos orientais. Um estado de beatitude e felicidade, onde a morte perde o sentido.
O uso orientado dos psicodélicos pode permitir essa experiência da consciência ampliada. Nasce um profundo sentimento de gratidão pela vida. Apesar da tragédia e do sofrimento, o universo está em ordem.
Relendo os Mistérios de Elêusis, de Mircea Eliade, entendi a profunda impressão que tive ao ver pela primeira vez uma foto da terra inteira vista do espaço. Era aquilo, tão pequenina, o habitat da humanidade.
A consciência ampliada permite enxergar o sentido de uma formulação aparente tola dos católicos: “Deus é amor.”
Quem tiver curiosidade nessas experiências com o uso dos psicodélicos, vale a pena a leitura de “As Portas da Percepção”, obra do escritor inglês Aldous Huxley.
Hoje vivemos uma profunda dissociação da nossa espécie com o restante da natureza.
Os psicodélicos mais conhecidos são o LSD, mescalina, psilocibina e a nossa ayahuasca, do Santo Daime.
Não se sabe como os psicodélicos funcionam. Acredita-se que eles reiniciem o cérebro, alterando os níveis de neurotransmissores, permitindo experiências místicas e novos modos de se pensar. Quando usados por pacientes terminais, aliviam a ansiedade existencial.
Perdi um grande amigo, ainda novo, com uma grave doença neurodegenerativa. Um comunista dos antigos, devoto da materialismo histórico, que não tinha a quem recorrer com a proximidade da morte. Tentei encaminhá-lo para os grupos de pesquisa americanos sobre o uso dos psicodélicos, como forma de criar experiências místicas e reduzir a sua ansiedade diante da morte.
Não houve tempo, ele morreu antes, numa viagem que fez a Belo Horizonte.
Francis Crick, Prêmio Nobel em medicina (1962), próximo a morte, informou ter descoberta a dupla hélice do DNA. Durante uma viagem com o uso do LSD.
Nas depressões se retorna patologicamente ao passado, nas ansiedades se antecipa compulsoriamente o futuro. Os psicodélicos lentificam o tempo, torna-o mais lento. Claro, com grande impacto na economia. Talvez o principal motivo das proibições.
Suponho que muita gente não entendeu quase nada, ou entendeu quase tudo por outros vieses. Entretanto, esse é um tema que atrai a minha curiosidade.
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
AS MULHERES DA REPÚBLICA DO BECO NOVO
As Mulheres da República do Beco Novo.
(por Antonio Samarone)
Não me lembro de mulheres gordas, patuscas e caseiras, nem de moças franzinas, neuróticas e românticas dos romances de Machado de Assis. Na República do Beco Novo, as mulheres não eram nem omissas, nem submissas. As três esposas de Armelindo, a seus modos, eram donas dos seus narizes.
O Beco Novo começava no fundo da Igreja e terminava no Tabuleiro dos Caboclos, onde nasceu o futebol, em Itabaiana. Um Beco de pobres e remediados, onde fervilhava gente e histórias.
Uma irmandade!
O Beco Novo era o Império do matriarcado. Desconheço um marido, que não fosse dominado pela esposa. Mulheres mandonas, e algumas desaforadas. Cada uma merece uma biografia. Não eram poucas. Entretanto, vou falar sobre a mais destacada.
Dona Mãezinha, baiana de Paripiranga, morena de braço forte e mãe de uma prole numerosa (15 filhos). Ela falava que preferia parir um filho a arrancar um dente. Só que, quando perguntada qual era a dor do parto, para ser engraçada, ela dizia ser a dor de cagar uma jaca.
Mãezinha criou os filhos com disciplina militar. Se precisasse o couro comia. Eram surras, cujo limite era a força do seu braço.
A família de Justino e Mãezinha levava uma vida sossegada.
Tiveram a primeira radiola do Beco Novo, que tocava os Demônios da Garoa, em toda a altura. Para mim, eram ricos. Lá em casa, não tinha nem rádio. Iracema, foi a primeira música que eu prestei a atenção, de tanto ouvir.
“Iracema, eu sempre dizia/ Cuidado ao atravessar essas ruas/ Eu falava, mas você não escutava não/ Iracema você atravessou na contramão.” Aquilo era estranho. No Beco Novo, que eu lembre, só passava de vez em quando, a marinete de Manezinho Clemente. A gente corria atrás para pegar uma punga.
Aliás, Iracema, uma morena vistosa, era também o nome da filha mais nova de Dona Mãezinha. As outras, já tinham casado.
A palavra de Dona Mãezinha era definitiva. Todos acatavam. Aliás, ela se impunha, mesmo calada.
Tive uns achaques de adolescente. Mamãe logo consultou Dona Mãezinha: o que fazer com esse menino? Mãezinha não teve dúvidas, isso só pode ser encosto. Vamos levá-lo a uma umbandista. Mamãe, mesmo católica, filha de Maria, me levou a uma sessão.
Lá fomos nós: eu, mamãe e Dona Mãezinha. Na sessão, a Mãe de Santo, com a fala modificada, parecendo uma voz incorporada do além, foi taxativa: “esse menino tem que parar de jogar bola e se dedicar aos estudos.” O caboclo estava certo, mas eu odiei e não atendi.
Mãezinha era de família de crentes (atuais evangélicos), mas não era praticante. Era uma mulher de convicções morais conservadoras.
O seu marido, Justino, era sapateiro e músico da filarmônica. A Itabaiana agrícola, era uma terra de sapateiros e alfaiates.
A vida apertou para os sapateiros e alfaiates, com a chegada dos sapatos de fábrica e das roupas feitas. Seu Justino quebrou, teve que fechar a sua tenda e migrar para a Baixada Fluminense (Queimadas), em busca de uma vida melhor. Perdi o meu melhor amigo (Everaldo, conhecido como Peba).
Os filhos mais velhos (Dedé e Dandinho), exímios sapateiros, foram fazer sapatos personalizados para ricos e famosos, numa sapataria na Barata Ribeiro. Nos sapatos de encomenda, se botava o pé na forma, e os sapatos saiam ajustados a cada pé.
Os outros filhos, Meco, Gilberto, Toninho e Messias, não sei que fim levaram. As mulheres ficaram com os maridos.
Recentemente, Toinho retornou a Itabaiana, depois de 50 anos.
Essa família sertaneja, foi mais uma que foi morrer em terra estranha. Esquecidos para sempre.
Mãezinha não se acostumou com o anonimato dos Grandes Centros. Morreu nova, com cinquenta e poucos anos.
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
OS GENIOS EXISTEM
Os gênios existem?
(Por Antonio Samarone)
Por circunstâncias, passei a observar a complexidade do mundo da cultura. Passei a perguntar, com o amplo domínio da globalização cultural, ainda existe uma cultura local. Se existe, do que se trata?
Descobri que os talentos locais são sufocados pela falta de oportunidades.
Um exemplo:
A alma de Caio Trajano transborda de criatividade artística.
Entretanto, Caio é um talento socialmente nulo, sem o necessário reconhecimento. Caio é o tradicional gênio incompreendido. Ele espera que um dia, que sempre se atrasa, o seu talento o leve a glória.
“A arte serve para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização. A arte oferece satisfações narcísicas substantivas, para os que foram pessoalmente educados.” - Freud.
A indústria cultural impõe o efêmero, como entretenimento. O critério único é a venda. Sem mercado, a arte não sobrevive apenas com os subsídios do mecenato público. O gosto das massas é criado pela própria indústria cultural.
A produção de mercadorias cria o desejo de consumo. Com a arte não é diferente.
O reconhecimento social de um talento artístico requer muito mais do que o próprio talento. O talento sem disciplina se torna ocioso. Uma grande obra requer talento e disciplina. É preciso encontrar o nicho, num terreno contaminado pela cultura de massa.
Por outro lado, o talento em um homem vazio, sem conteúdo, também apequena a obra. Não falo de erudição, mas de uma cosmovisão crítica. Contraditoriamente, esse mesmo vazio favorece a inclusão no mercado da indústria cultural.
E por último, o reconhecimento depende da formação cultural da civilização onde se vive. A sociedade é domada pela indústria cultural, pelo consumo do efêmero, pela arte enquanto entretenimento.
O talento precisa levar em conta a sociedade onde ele vive. A arte não é indiferente ao seu tempo.
Claro, os limites não são apenas pessoais. O social também pode inviabilizar os talentos, não oferecendo oportunidades. Ou as poucas oferecidas não serem percebidas. É comum na música, os gênios se transferirem para os centros culturais dominantes.
Ia esquecendo, o talento, como quase tudo, também depende dos caprichos do destino, da deusa fortuna, da sorte.
Como se percebe, o reconhecimento social do artista vai além da grandeza do seu talento.
Dito isso!
Caio Trajano, paciência! O dia da sua glória artística continua no horizonte.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
A CULTURA NÃO TEM DONOS
A Cultura não tem donos.
(por Antonio Samarone)
A economia comanda Itabaiana, tudo lá são negócios. Dirão os mais profundos, negócios, política e fé: todo o mundo tem lado e uma devoção. Os isentões são poucos.
E onde entra a cultura?
A tradição cultural em Itabaiana limita-se a música, com a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição (1745) e a fotografia, com Miguel Teixeira e Joãozinho Retratista.
Uma sofisticação cultural: Itabaiana possui uma Orquestra Sinfônica.
Durante anos, Abrahão Crispim agitou sozinho o mundo cultural de Itabaiana, em torno do Jornal “O Serrano”.
A atual ebulição cultural é recente.
A quadrilha “Balança mais não Cai”, de Salomão e a “Chegança de Zé de Biné”, saíram na frente.
Ana Angélica, irmã de Djalma Lobo, abriu a sua academia para a capoeira, maculelê, banda de birimbau e outras danças.
A reunião de artistas, escritores e intelectuais itabaianenses, com Luiz Antonio Barreto, para discutir a cultura local, numa sala do Guilhermino Bezerra, foi um grande passo.
Robério Santos criou o Grupo Itabaiana Grande e Vladimir Carvalho liderou a formação da Academia Itabaianense de Letras.
Almeida Bispo, Wanderlei Menezes, Anderson Silva, Carlos Mendonça, Tereza Cristina, Inês Resende, Amorosa, Josevanda Mendonça, Robério Santos, Romulo Lessa, Marlon Delano, Tito, Dido, Zeus, Eugênio, Andrei, Rodrigo Graça, Baldochi, o maestro Valtênio, Vladimir Carvalho, Padre Jerônimo, Messias Peixoto, entre outros, têm muito a dizer sobre a cultura em Itabaiana.
Criou-se uma agenda editorial, independente de Aracaju. Vários livros foram publicados.
Criou-se a Bienal de Livros, uma ousadia que se encontra na sexta edição. Uma boa notícia: A Academia de Letras assumiu a Bienal.
A força da arquitetura de Melcíades Souza.
Foi criado o Parque Cunha Menezes, um centro da cultura sertaneja de vaqueiros, toadeiros e aboiadores.
Na outra ponta, o movimento Hip-Hop se organizou.
Mensalmente, o espaço do Chiara Lubich passou a apresentar uma manifestação cultural. A Prefeitura criou o Festival Itabaianense da Canção (FIC). Vicente do Capunga intensificou a sua militância cultural. Robério Santos criou a Literatura no Cangaço e foi nacionalmente reconhecido.
Finalmente, está em andamento a construção de uma Teatro, um sonho antigo, de um memorial, uma escola de sanfona, zabumba e triangulo e uma Guia Cultura.
Hoje, os editais da Lei Paulo Gustavo estão sendo anunciado. Uma ruptura no fomento da cultura local.
Itabaiana ao ultrapassar os cem mil habitantes, entrou na categoria de Região Metropolitana, com tudo que isso significa.
Constato uma explosão de iniciativas culturais. Surgem talentos no audiovisual, artes plásticas, música, escultura, toadas, hip-hop, danças, literatura e poesia.
O que está faltando?
Essa energia criativa precisa ser fomentada, organizada, divulgada e prestigiada. A Lei Paulo Gustavo é um passo importante.
A cultura pede passagem.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
A MEMÓRIA É UM PESO
A memória é um peso.
(por Antonio Samarone)
A arquitetura é retrato de uma época, de um modo de vida, da economia e da cultura.
Da velha Itabaiana, pouco sobrou!
Os seus sobrados de taipa foram demolidos. A casa de Zeca Mesquita foi abaixo. Derrubaram até a Igreja Presbiteriana de Eulina Nunes. Resta muito pouco.
Na Praça da Igreja sobraram as duas casas das fotos. A casa de Chico do Cantagalo e o cartório de Serapião. As duas à venda, ou seja, com os dias contados. Será o fim do casario, da primeira metade do século XX.
Na nova Itabaiana predomina o estilo arquitetônico de Melcíades Souza. Eu não sei analisar, não sou do ramo. Sei que a arte de Melcíades e seus imitadores é dominante. Estilo que se espraiou pelo Agreste. Caiu no gosto dos Itabaianense, representa uma visão de mundo.
Junto com Melcíades, fotografei as suas principais casas. Ele me explicando o que significava cada curva, cada círculo, a altura do pé direito, os jardins, o blindex, o alumínio. Tudo! Infelizmente, nunca encontrei um arquiteto que quisesse descrever o estilo melcidiano.
Itabaiana está para Melcíades, como Barcelona para Gaudi.
Melcíades de Durval do Açúcar, foi o nosso maior talento.
Voltando, a memória arquitetônica será apagada! O preço da preservação é elevado.
O sentimento de preservação é amplamente minoritário. Restarão as fotos.
Antonio Samarone. Médico sanitarista.