A festa de Santo Antonio.
(por Antonio Samarone)
Entrei numa loja pet na Rodovia dos Náufragos, em Aracaju, e fui indagado por um funcionário, com uma certa ironia: “o senhor virou secretário da cultura de Itabaiana. Que cultura, a dos caminhoneiros?”
Eita, acertou! Depois de Santo Antonio, os caminhoneiros são o segundo pilar da nossa cultura. O terceiro é o futebol da Associação Olímpica.
Santo Antonio é a nossa principal raiz.
Se comemora Santo Antonio em Itabaiana, há quatrocentos e vinte anos. O Arraial de Santo Antonio é de 1607. A criação da Freguesia é de 1675. A criação da Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana é de 1687 e a sua instalação de 1698.
“Noites de Santo Antonio em Itabaiana, Santo Antonio, o beato protetor de minha Terra, Santo Antonio Cabaú, o almejado noivo de Nossa Senhora da Conceição, Peba, como me faz lembrar você, nessa noite invernosa, de Sá Linda, Iaiazinha, Almerinda, Paula, Rufino, Batista, Sá Céu, poderosas entidades laicas da Matriz, zeladoras fiéis de tudo o que a ela se referia”. Sebão Sobrinho, 1937.
Nada mais justo que as duas festas, Santo Antonio e caminhoneiros, sejam juntas.
Tenho saudade das alvoradas e do toque festivo dos sinos, durante as Trezenas. Saudade dos foguetórios, comandados por Capitulino.
Saudades de Mestre Fio, Boanerges, Zé da Serra e Pedro Cezário, hábeis pirotécnicos. Das Filarmônicas Santo Antonio (dos Cabaús) e a Nossa Senhora da Conceição (dos Pebas), tocando os seus dobrados.
Saudades do velho Coro da Igreja: Teodorico, Balbino, Joaozinho de Totoinho, Chumbinho, Soledade, Antonio Batatinha, Teonila, Normélia, Sita e Zefinha de Antonio de Joaquim da Rua da Vitória. Todos entoando os hinos a Santo Antonio.
A Filarmônica Nossa Senhora da Conceição sob a batuta do maestro Esperidião Noronha, composta pelos músicos: Francisquinho, Sizino, Melinho do Vigário, Paulino, Osório, Franco Gia, Magó, Janjão, Assanhaço, Nacum, Joviniano, mestre Antonio Silva, Manuelzinho da Viúva, Oscar de Samuel, Sulino, Otávio de Piquita e Zé Macaquinho.
Na Filarmônica Santo Antonio (a Lira dos Cabaús), os músicos Chumbinho, Nilo, Juvenal, Zezé Camaleão, Manuelzinho de Meira, Enóque, Jeto, Zé Pato, Boito, Jerome de seu Santo, Jardelino e Zau de Fessora.
Itabaiana é a capital sergipana da música. Alguma discordância?
Quem quiser saber detalhes sobre esse povo antigo, é só procurar Vladimir ou Baldochi.
Com o tempo, a filarmônica Santo Antonio se juntou a Nossa Senhora da Conceição.
Entretanto, Itabaiana continua com duas Filarmônicas: a centenária Nossa Senhora da Conceição, fundada em 1745, pelo padre Francisco da Silva Lobo; e a Filarmônica 28 de Agosto, do carismático Popó.
Sexta Feira, dia 06 de maio, o Prefeito Adailton vai anunciar a programação da próxima festa de Santo Antonio e dos Caminhoneiros. Mantendo a tradição das alvoradas, o anúncio será as 6:30 da manhã. Acredito que terá fogos, mesmos poucos, só para relembrar.
Viva Santo Antonio e Vivam os caminhoneiros!
Observação: na Imagem do Santo Antonio de Itabaiana, o Cristo está nu!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
segunda-feira, 12 de junho de 2023
A FESTA DE SANTO ANTONIO
OS NEGROS DE ITABAIANA
Os Negros de Itabaiana...
(por Antonio Samarone)
Em minha infância eu ouvia: Itabaiana não tem negros! Éramos uma cidade só de branco, os poucos negros vinham de fora. Os negros eram invisíveis, escondidos, negados. Uma forma negacionista de racismo.
Ao contrário, Itabaiana possuía muitos negros.
Eu não entendia. Os meus amigos eram quase todos pretos, ou quase pretos... Depois de meio século, percebo que a cultura negra é pujante em Itabaiana.
O Tabuleiro dos Caboclos (Abaoarapetaba), hoje Bairro São Cristóvão, foi um mocambo de paneleiros. Foi lá que nasceu o futebol em Itabaiana. São de lá os nossos craques. Passei a minha infância no Tabuleiro dos Caboclos, jogando futebol no campo de Mané Barraca.
Para os mais novos, o campo de Mané Barraca era onde a Prefeitura está construindo o Briozão. O futebol era lá! Ficavam na sequência: o antigo Etelvino Mendonça, o campo do Cantagalo e o campo de Seu Mané. O único que não era murado.
A quadrilha “Balança mais não Cai”, a capoeira, o maculelê, o samba de roda, as religiões de origem afro, continuam lá, fortes e atuante. No São João do Bairro São Cristóvão ainda tem pau de sebo, quebra pote, se salta fogueiras e se dança forró pé de serra.
No povoado Flechas, havia uma comunidade negra de malês, todos alfabetizados. A professora primária de minha mãe era negra, na década de 1940. Quintino de Lacerda, líder abolicionista em Santos, SP, é das Flechas.
Entretanto o quilombo mais documentado de Itabaiana foi o Carrilho, atual capital brasileira da castanha de caju, mesmo com poucos cajueiros. O nome é a memória de Fernão Carrilho. Os povoados vizinhos Tabocas, Dendezeiro e Carrilho são comunidades de maioria negra.
Edison Carneiro, em seu livro “O Quilombo dos Palmares (1946)”, cita com documentos, um quilombo dominado em Itabaiana, por Fernão Carrilho. Em 1670, o Governador Geral do Brasil, Alexandre de Souza Freire, mandou Fernão Carrilho destruir todos os mocambos da Província de Sergipe.
O maior mocambo em Sergipe, estava nas cercanias da Serra de Itabaiana, com mais de duzentos negros. Nina Rodrigues, também cita esse mocambo.
Em 1673, Fernão Carrilho acompanhou com os seus homens, a expedição de Rodrigo de Castelo Branco, no descobrimento das minas de prata em Itabaiana.
Em 1683, Fernão Carrilho comandou uma Entrada, com trezentos homens, para destruição do Quilombo dos Palmares. Em 1686, Fernão Carrilho fez outra Entrada, sem sucesso, contra Palmares.
Fernão Carrilho Foi Capitão Mor do Ceará em 1693. Em 1703, foi o lugar tenente do Presidente da Província do Maranhão,
substituindo-o em seus impedimentos.
Não se sabe ao certo nem quando Fernão Carrilho nasceu (1640), nem quando morreu (1703). A única marca deixada por esse guerreiro português em Sergipe, foi o seu nome em um povoado em Itabaiana.
A consciência negra nos povoados Carrilho, Tabocas e Dendezeiro é frágil, chegando-se a negar essa origem. Como me disse uma professora local: os próprios negros não assumem a sua negritude. Foram negados por séculos.
A resistência é cultural.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
A foto é de José Airton, (Grilo de Firmino do Fósforo), o goleiro do meu primeiro time de futebol. Ganhamos um Campeonato de pelada (1968). (Grilo, Vadinho de Nilo, Baldochi, Beijo de Bebé, Nego Gato e Samarone).
DOCE PROVÍNCIA
Doce Província.
(por Antonio Samarone)
Não tem jeito, sou um provinciano estrutural.
Apresento o sintoma patognomônico do provincianismo: o interesse pela vida alheia. No bom e no mau sentido.
Ao ser apresentado a alguém, uma pergunta está na ponta da minha língua: você é filho de quem? Quem é a sua família, são de onde? E por aí vai...
Na antiga Itabaiana provinciana, ser detetive particular era um profissão invejada. Se fazia um curso por correspondência, no Instituto Universal Brasileiro (1941), com direito a diploma e carteirinha.
Ser detetive particular era um sonho. Os filmes de James Bond enchiam o cinema de Zeca por semanas.
Getúlio de Gumercindo era formado nessa escola. Depois de diplomado, Getúlio passou a ter hábitos dissimulados. Qualquer que fosse o segredo, a fofoca, o disse-me-disse, Getúlio dava um sorriso irônico, como soubesse os detalhes de tudo o que a gente suspeitava.
Foi Getúlio quem descobriu o roubo das galinhas de Messias do Gringo. Foi um afilhado do próprio Messias. Um roubo familiar. O delegado Joãozinho da Padaria mandou soltar os acusados, os três filhos de Zabilinha. Esse caso ficou famoso, na crônica policial da cidade.
Getúlio ganhou fama e prestígio, menos dinheiro.
Getúlio passou a andar pelas sombras. Rondar o beco do cemitério, as ruas do Canto Escuro, o Cassete Armado, o Beco Novo e a rua do Fato. Sempre em soslaio.
Getúlio sabia de tudo, dos podres e das traquinagens dos outros, mas não podia contar. A ética dos detetives não permitia. Não fala nem em juízo.
Os detetives são iguais aos padres e aos médicos. As confissões dos padres, as consultas dos médicas e as investigações dos detetives são secretas.
Andei procurando pelos atuais detetives particulares. Quantos e quem são? Ninguém sabia mais do que se tratava. Eles não existem mais em Itabaiana, acabaram. O Instituto Universal continua oferecendo o curso, sem interessados.
Itabaiana cresceu, passou de cem mil habitantes, virou uma jovem metrópole. A vida dos outros só interessa aos outros. O mercado para os detetives particulares acabou.
O fim dos detetives particulares é um indicativo que Itabaiana deixou de ser Província. Uma prova irrefutável.
Entretanto, Eu permaneço docemente provinciano. No bom sentido.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
A ARTE DE MORRER
Ars Moriendi (A arte de morrer).
(por Antonio Samarone)
A derrota foi inevitável.
Depois de quase setenta anos de resistência, entreguei-me aos caprichos da medicina de mercado. Para ser mais preciso, da biomedicina, da medicina do corpo, da medicina dos procedimentos. Submeti-me a 137 exames laboratoriais.
Senti o peso da medicina de mercado. Falei baixo. Sussurrei. Esqueci-me de coisas rotineiras. O ambiente médico é ritualizado. Ali, naquela sala fria, cada um pensa que o seu caso é o mais grave. Notei que ninguém prestava a atenção numa TV ligada, à meio som.
Fiz tantos exames, que a recepcionista perguntou rindo: a medicina suspeita de quê, para tanto esmiuçamento? Suspeita não, ela tem certeza, que a transformação do meu corpo em pó está acelerada.
Todos ali, na antessala dos exames, procuram um jeito de adiar a morte e o sofrimento. Existe a ilusão que os exames vão apontar precocemente os riscos e a medicina saberá afastá-los.
A medicina sabe cada vez mais sobre o corpo e cada vez menos sobre as pessoas. Sobre os seres históricos, suas vidas e suas aflições. O Eu, a alma, a psique, a consciência, o espírito, a energia vital, seja lá o que se queira chamar.
Como a alma precisa do corpo, perdendo-o, a alma vagará como um grão na poeira cósmica. Não posso ignorá-lo! Preciso cuidar do corpo, atender aos seus caprichos, tratá-lo à pão de ló.
O meu corpo já deu sinais de que está cumprindo a profecia bíblica de tornar-se pó. Há muito, o meu corpo deixou de obedecer às minhas vontades e ao meu comando.
Na incerteza de quanto tempo me resta, embarquei na ilusão de que a medicina pode retardar esse retorno ao pó. O corpo tem as suas vontades. Não sei se é falsa impressão, mas tem morrido muita gente conhecida. Antes era novidade.
Realizei 137 exames bioquímicos. Pesquisaram tudo: da ponta dos cabelos às unhas dos pés. Todas os íons (metade da tabela periódica), enzimas, hormônios, anticorpos, neurotransmissores, aminoácidos, foram todos quantificados...
Certamente, a medicina vai encontrar uma casa desarrumada. Vários sinais de anormalidades, riscos previsíveis, alertas exagerados e problemas insolúveis. Esses exames servem principalmente para a gente ficar sabendo antes das doenças e aumentar a ansiedade.
O que fazer com os resultados do pacotaço de exames? Entregar-me de corpo e alma à indústria farmacêutica e aos procedimentos médicos, na esperança de ganhar tempo e enganar a morte?
Sinceramente, não sei! Antes, a gente tinha pelo menos um anjo da guarda.
Percebo que não comando essas decisões. Não mando em minha vontade. Ela assume as decisões por conta própria, faz o que quer. A Vontade tem vontade própria. A gente apenas justifica as escolhas.
A medicina irá utilizar produtos, chamados de remédios, e tentará regular o funcionamento do meu corpo. Não sei se os remédios irão ajudar ou agravar a enorme confusão de um organismo determinado a virar pó.
É uma questão de tempo.
Não falo de remédios para disfunções localizadas, uma dorzinha aqui, outra acolá, uma amidalite ou uma insônia eventual. Não! Falo de remédios pretensiosos, que visam rearrumar o funcionamento total do corpo, sobretudo do seu sistema hormonal. Sei não...
Espero que na inevitável desagregação corpórea, pelo menos, o cérebro fique por último.
A distância entre o veneno e o remédio é a dose, dizia o pai da medicina.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
O CEMITERINHO DA RUA DAS FLORES
O Cemiterinho da Rua das Flores.
(por Antonio Samarone)
“Eu amo tudo o que foi/ Tudo o que já não é/ A dor que já não me dói/ A antiga e errônea fé.” Fernando Pessoa.
Existia um cemitério no fundo da igreja matriz de Itabaiana. Quem saía do Beco Novo, confrontava o murro desse cemitério. Os vivos e os mortos coabitavam.
Os padres, freiras, membros de confrarias religiosas, autoridades e um ou outro rico, que não queriam enterrar-se no interior da igreja, podiam descansar nesse campo santo, ao ar livre.
O povo de Itabaiana aceitou a destruição desse cemitério, onde descansavam os seus antepassados, com indiferença.
O Cemiterinho foi sepultado durante a prelazia do Monsenhor José Curvelo Soares (1967 – 1975).
No mesmo período, a centenária igreja matriz foi deformada com uma reforma e as valiosas imagens dos Santos de Itabaiana, foram doadas ao Museu Sacro de São Cristóvão.
O Monsenhor Soares ignorou as tradições e a história da Paróquia de Santo Antonio (1675), a segunda mais antiga de Sergipe.
Com o fim do Cemiterinho e a troca do piso da Matriz, entre as memórias apagadas, ressalta-se a sepultura do Monsenhor Domingos Mello Resende, que conduziu a Paroquia por 50 anos, entre 1852 e 1902.
A Arquidiocese de Aracaju, bem que poderia devolver essas imagens sagradas e preciosas da Paróquia de Itabaiana. Deixar no museu sacro de São Cristóvão, as imagens dos Santos da antiga Capital.
“Não havia uma separação radical, como temos hoje, entre a vida e a morte, entre o sagrado e o profano, entre a cidade dos vivos e a dos mortos.” – João Reis.
O Cemiterinho era um ponto de encontro entre os vivos e entre os vivos e os mortos.
Temia-se a morte súbita, a morte de repente, inesperada, onde não houvesse tempo para os arrependimentos.
O muro de Cemiterinho era ponto de desocupados, seresteiros, fofoqueiros, aposentados e saltimbancos noturnos. O fundo do Cemiterinho era um palco para os boêmios e para os apaixonados.
“O objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.” – Freud.
Antonio Samarone – (médico sanitarista)
NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS
Nossa Senhora das Candeias.
(por Antonio Samarone)
Pelo lado paterno, sou filho do Matebe, engenho antigo, que fazia fronteiras com o Capunga, Cova da Onça e Candeias. Seu Elpídio de Ascendino de Genoveva, meu pai, nasceu no Matebe.
Seu Elpídio era José de Santana, filho de negros e holandeses. Não pertencia nem aos “Barbosas”, nem aos “Mendonças”, as duas famílias herdeiras das sesmarias, nas Candeias.
Dona Genoveva, minha bisavó, a matriarca raiz, era descendente dos holandeses, que por aqui andaram no século dezessete.
Ascendino, meu avô, era loiro de olhos verdes. A minha avó, Georgina, era negra, descendente de escravizados.
Seu Elpídio carregou pedras para construir a Igreja de Nossa Senhora das Candeias.
Não conheço as razões, mas as Candeias é uma terra dos Elpídios, são vários. O nome Elpídio significa “o que tem esperança”. No caso de papai, ele morreu sem alcançar essas esperanças.
Não foi o povoado que deu nome à Santa, pelo contrário, foi a Santa que deu o nome ao povoado. Nossa Senhora das Candeias é comemorada em 02 de fevereiro. Também é conhecida como Nossa Senhora da Luz, da Candelária ou da Purificação.
A parte profana da festa de Nossa Senhora das Candeias, era uma réplica das feirinhas de Natal, com brinquedos para os jovens; bancas de baralho, para os viciados em jogos de azar; roletas, onde se ganhava goiabas peixe e mulheres vendendo arroz com galinha. Foi lá que eu comi a galinha de capoeira, que permanece como sabor guia até hoje.
Quando avalio se uma galinhada presta ou não, a referência é a galinha de capoeira que comi a sessenta anos, na festa de Nossa Senhora das Candeias, em 1963.
A devoção a Nossa Senhora das Candeias no Brasil, foi trazida pelos espanhóis, no tempo da União Ibérica.
Candeias, povoado do meu pai, tem origem nas primeiras ocupações do Vale do Jacarecica, por volta de 1603. As Candeias foi parte do Arraial de Santo Antonio, da Igreja Velha.
Nasci numa casa de rancho, no Beco do Ouvidor. Casa pertencente a Dona Graça do Congo, uma quase tia de papai. Morar em casa de rancho cedida, era a única alternativa para os “sem tetos” daqueles tempos.
Sessenta por cento das casas em Itabaiana eram de rancho. Ou seja, usadas pelos donos apenas em dias de feiras e festas, quando saiam de suas roças. A vida era rural, dominada pelos tabaréus.
O Beco do Ouvidor (atual Monsenhor Constantino), cruzava o Beco Novo no segundo quarteirão, numa esquina onde cada canto tinha uma história.
Nos quatros cantos: Justino Sapateiro e Dona Mãezinha, a bodega de Jânio Quadro, casado com Delina, mãe de Cabecinha; Armelindo e o seu harém e a Vila de Manezinho Clemente, onde residiam as mulheres de portas abertas.
Candeia é um pau bom de cercas, onde brotam flores brancas, cheirosas, matéria prima para um mel delicioso das uruçus. Candeia também é lamparina, de onde vem candeeiro.
Na entrada das Candeias existia uma “Corrente”, como era denominado os postos de fiscalizações da Exatoria estadual.
Hoje, as Candeias é um distrito da Moita Bonita, onde ainda mora Paulo, um irmão por parte de pai, que quase não vejo. É o irmão que mais parece fisicamente com papai.
Com a globalização, os tabaréus acabaram. Uma pena!
Antonio Samarone. (médico sanitarista).
O TESOURO DE SANTO ANTONIO
O Tesouro de Santo Antonio.
(por Antonio Samarone)
Eu tinha uma vaga lembrança dos cálices de ouro da Matriz de Antonio, em Itabaiana. Existia um grande sacrário, castiçais, bandejas, tudo em ouro maciço. Até um par de alpargatas em ouro, número 40, o tamanho do pé do Santo.
O tesouro foi doado a Santo Antonio, pelos jesuítas da Serra da Cajaíba, quando da sua expulsão do Brasil. O tesouro não é da Paróquia, é de Santo Antonio.
Em 1857, o Papa Pio IX, mandou um cofre especial para a Diocese de Itabaiana, visando colocar o tesouro de Santo Antonio em segurança.
O cofre existe e está bem guardado (foto).
A última pessoa, fora da hierarquia eclesial, a ver esse cofre aberto, foi a beata Zalmor, nos tempos do Padre Arthur. Ela morreu guardando o segredo do que viu.
O cofre travou já faz muito tempo. Não abre! Ninguém sabe o segredo, ou se sabe não informa.
Pulga de Cós já morreu. Era o único Itabaianense que sabia abrir qualquer cofre. Conhecia todos os segredos.
Conta-se que certa feita o cofre de Mané de Zeca dos Peixes enguiçou. Ele chamou Pulga para abrir. Em menos de cinco minutos o cofre estava aberto. Pulga encostou o ouvido, rodou prá cá, rodou prá lá, pimba, o cofre abriu.
Mané perguntou: quanto foi o serviço? Pulga não titubeou: cinco mil cruzeiros. Endoidou, reagiu Mané esbaforido: cinco mil? Um serviço que o senhor não levou cinco minutos. Não pago!
Pulga de Cós não esquentou, então eu fecho o cofre, e fechou.
Mané perdeu a calma, NÂO! Eu preciso do cofre aberto. Agora é tarde, resmungou Pulga de Cós.
Mané de Zeca dos Peixes, na necessidade, aceitou pagar o a dinheirama cobrada. Abra, pode abrir que eu pago.
Pulga de Cós, com a calma tradicional, foi taxativo: agora é dez mil cruzeiros. Cinco da primeira abertura e mais cinco para eu abrir novamente.
Mané teve que pagar. Precisava do cofre aberto.
Se eu soubesse quem sabe abrir cofres antigos, travados, valia a pena pagar, seja lá quanto for, para abrir o cofre de Santo Antonio. Eu acredito que a lenda do carneiro de ouro encontrado na Serra de Itabaiana, por Belchior Dias Morrea, é verdadeira.
Quem sabe lá se esse carneiro de ouro não está guardado nesse cofre de Santo Antonio.
Fotografei só o cofre, despistando a sua localização. Esses gatunos modernos, do crime organizado, já usam a inteligência artificial. Se souberem onde o cofre se encontram, levam o ouro em 15 dias.
Roubaram a taça Jules Rimet, que estava guardada no cofre do Banco Central, imagine o tesouro de Santo Antonio, em Itabaiana.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
