Quem comeu Sardinha?
(por Antonio Samarone)
A história oficial revela (equivocadamente) que o único prelado submetido ao ritual antropofágico nas Américas, em junho de 1556, durante a realização do Concilio de Trento, foi o Bispo Sardinha.
A confusão aumenta quando a história imputa a façanha aos Caetés, num suposto naufrágio ocorrido nos arrecifes de Coruripe, em Alagoas.
O historiador Moacyr Soares Pereira, fundamentado nos arquivos dos Jesuítas em Madri, já desmentiu essa versão. O Bispo Sardinha foi comido na Praia Santa Isabel, entre Pirambu e Cabeço, na enseada do Vaza Barris, em Sergipe. E pelos Tupinambás!
Os historiadores das faculdades nem desmentiram Moacyr, nem concordaram, sendo mais preciso, nem prestaram a atenção. O Bispo continuou sendo comido pelos Caetés.
Relendo o velho João Ribeiro (o sergipano), encontrei outra versão, mais verossímil, sobre Dom Pero Fernandes Sardinha. Dado a importância para a história, transcrevo o texto na íntegra:
“A MENTIRA DO JUDEU – João Ribeiro.”
No ano de 1593 estando em Olinda o Licenciado Heitor de Mendonça, Visitador do Santo Ofício, foi denunciado à sua presença um velho adelo e roupavelheiro de nome Gil Gomes, acusa do de judaísmo.
Declarou Gil Gomes que era cristão velho, natural de Almeirim, observante da fé de seus pais e que muito jovem viera do Reino para a Bahia e aí servira de sacristão do bispo Dom Pêro Fernandes Sardinha a cujas abas e proteção vivera por dous ou três anos.
A este ponto, o Visitador que tomava apontamentos para o seu Tratado Sentencioso, Moral e Descritivo do Brasil, interessado pelo depoimento, perguntou se efetivamente o bispo tinha sido comido pelos caetés.
Pelo contrário, disse o velho Gil Gomes; o bispo não foi comido e até foi ele quem comeu. Mentes, miserável judeu! Como podes afirmar semelhante cousa? Morrerás a fogo se não falares verdade.
Mas, refletindo nos apontamentos do seu Tratado Sentencioso, animou o judeu a dizer tudo o que sabia.
Senhor Visitador, eu estive no naufrágio da nau Nossa Senhora da Ajuda que se quebrou nos parcéis do Cururipe.
Os náufragos fugiram e ficamos em terra, apenas dous, o bispo e eu. Haverá mais de cinquenta anos que isso foi, e é bem possível que minha memória enfraquecida cometa algum desfalecimento.
Prossegue, ordenou o Visitador. Ficamos os dous, e realmente seríamos comidos dos caetés, não fôsse uma inspiração minha que lembrei ao Bispo a conveniência, na quele transe, de dizer uma missa. E assim se fêz.
“Armamos um tôsco altar, alçamos uma cruz feita de lenho da floresta e o bispo rezou a missa que supunha ser a última do seu mister. Mas qual não foi o nosso espanto, vendo o gentio ajoelhado, mudo e contrito, diante do santo sacrifício. As próprias aves em torno entoavam louvores ao Senhor.
“Estávamos salvos!
“O cacique Tejuguaçu desde então se tornou o maior amigo de Dom Pêro, a quem fez particulares obséquios, e deu-lhe para o seu serviço a gentil e formosa Ganumbi, a flor da taba caeté.
"Ao santo cresceram-lhe as barbas que a indiazinha anediava docemente, quando num Dia de fortes calores, Dom Pêro, tentado do demônio, chamou a si a linda Ganumbi e comeu-a a dentadas..."
Mentes ainda, miserável judeu! Clamou o Visitador indignado; mas pensando nos apontamentos para o seu Tratado Sentencioso, ordenou ao judeu que prosseguisse.
Realmente (continuou o judeu) eu nada vi por meus olhos, mas vi que todos os índios gritavam: “O abaré comeu a índia! Abaré comeu Ganumbi!”
“E já aprestavam a desforra. As velhas dançavam e punham a ferver o cauim para banquetear-se nas gorduras do santo homem. Dom Pêro arrependido, consternado, em lágrimas, de sua própria mão foi buscar a tangapema, espécie de clava com que havia de ser abatido, sacrifício pequeno para o seu grande erro.
“Foi neste ponto que chegou Tejuguaçu, o cacique, que dando um pontapé nas igaçabas de cauim livrou Dom Pêro da morte.
“— O abaré é meu amigo, disse o cacique. Não faltarão por aí outros Perós para serem comidos.
“E como eu era o único Peró (assim chamam eles aos portugueses) que ali havia , dei à perna quanto pude e vim parar à Capitania de Pernambuco."
Aqui acabou o depoimento. Gil Gomes foi remetido a Lisboa, como judeu mentiroso, negativo e relapso, para os cárceres da Inquisição.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
QUEM COMEU SARDINHA?
O LAVA-PÉS
O Lava-Pés.
(por Antonio Samarone)
Como revisitar o passado, entendê-lo, desfrutá-lo? A história limita-se aos fatos e dados que deixaram registros documentados, ou seja, quase nada da vida, do cotidiano, dos valores, das crenças, dos costumes e das subjetividades.
Na falta de registros isentos, a história recorre aos jornais da época. Nunca entendi. Basta observar o que os jornais escrevem na atualidade. O que são notícias? São versões interessadas dos ocorridos. Longe da realidade!
Como recuperar essa memória? A arte e a cultura visualizam melhor o passado, em sua complexidade. A imagem mais profunda de Portugal, na segunda metade do Dezenove, encontra-se na obra de Eça de Queiroz, a profundidade da vida nordestina em Gilberto Freire e Câmara Cascudo.
Estou dizendo: é na sensibilidade dos artistas, nas tradições, na linguagem que podemos recuperar parte da memória da vida passada.
O fuxico é o motor da história.
Nunca entendi os critérios das igrejas nas escolhas dos meninos que participam da celebração do lava-pés, na Semana Santa. Uma rememoração da última ceia, quando Cristo lavou os pés dos apóstolos.
Eu era uma rato de igreja. Um catecúmeno assíduo aos atos e celebrações. Esperava ansioso o convite para o lava-pés. Nunca fui lembrado. Nunca fui anjo de procissão.
Observava os meninos escolhidos e me perguntava: como eles foram selecionados, quais os critérios? Depois de meio século, acabo de descobrir:
“A seleção dos que iriam ao lava-pés, (em Itabaiana), era prioridade de Dona Maria de Joãozinho do Vapor. Ela escolhia os doze, entre os seus mais de trezentos afilhados, e os arrumavam de modo idêntico aos apóstolos da Última Ceia.” – Dr. Luiz Carlos, citado por Vladimir.
Acabou a minha aflição. Eu não era afilhado de Dona Maria Tavares, uma grande doadora para as obras da igreja. Passei a infância com os pés sujos.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
LETRAS PROVINCIANAS
Letras Provincianas.
(por Antonio Samarone.)
Sergipe é um fenômeno literário e poético. A proliferação de Academias é uma consequência. Esses artistas merecem o reconhecimento.
Sobre as Academias, continuo pensando como o comprovinciano Alberto Carvalho.
Muitas almas agrestes e rudes se aventuram em publicações de livros. Os antigos, diziam que sem o dom da poesia ninguém possui o senso estético. Tudo bobagem, perdemos a timidez.
Recentemente, uma vaca sagrada da intelectualidade sergipana desacreditou os articulistas de internet, pelo erros gramaticais encontrados em seus textos. “Eles não sabem usar a crase”, disse o consagrado provinciano.
Relendo o grande João Ribeiro, autor de uma gramática da língua portuguesa, encontrei esse trecho:
“Assim, pois, meus senhores, amigos e inimigos, sabei que eu sou um pecador velho, como “vos ommes... A verdade é que, quando publiquei uma gramática, parece que tive a previsão desse enfado, e publiquei-a justamente para desquitar-me desse monstro, e errar à vontade.”
Por conveniência, penso como João Ribeiro.
Gilberto Freire considerava João Ribeiro, e não Tobias, o maior intelectual de Sergipe. O laranjeirense João Ribeiro, ocupou a cadeira 31, da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 1934.
“Para o botânico a planta vale pouco, porque quase não tem inteligência; mas para planta é possível que a inteligência seja uma aptidão à desgraça, qualidade inferior e tal que aos olhos dela desmoralize o homem.” – João Ribeiro.
João Ribeiro foi aluno de medicina na Bahia, abandonou o curso por falta de vocação.
As exigências para alguém ser considerado um “homem de espírito”, um literato, um poeta, um músico, um pintor, um dançarino foram revogadas. Vivemos o relativismo cultural. Para ser considerado um artista, basta atender a demanda cultural.
As academias de letras acolhem a todos, mesmo os que não se arriscaram a escrever sobre nada. Nenhuma carta, nenhum bilhete.
Há pouco, as exigências eram intransponíveis.
“O Artista é aquele ser sensível possuidor do fogo sagrado, o contraditório, o mágico, o profeta, as antenas da raça, o abridor de caminhos. Também é o depoente, o crítico, o incomodo alquimista dos mais estranhos elementos do seu tempo.” – Alberto Carvalho.
Eu, valendo-me da atual permissividade cultural, continuo escrevendo essas mal traçadas linhas.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
0 ÚLTIMO CORONEL
O Último Coronel...
(por Antonio Samarone)
O livro “Coronelismo, Enxada e Voto”, um clássico de Victor Nunes Leal, foi publicado em 1949. A propriedade da terra constituía o fundamento em que se baseava o coronelismo. O Coronel era o dono das terras e dos votos.
No caso de Euclides Paes Mendonça, de Itabaiana, o poder vinha do controle da Exatoria e da Delegacia de Polícia. Cobrar impostos seletivamente e prender e soltar ao arrepio da lei são forças descomunais do mando político.
Euclides mesclava a luta política com a econômica. A disputa pelo comando dos armazéns de secos e molhados, pela acumulação de riqueza, facilitada pela política. Quando chegou ao poder, Euclides cravou os seus objetivos, com uma frase famosa: “agora quem passa contrabando sou Eu.”
Ao final de 12 anos no poder, Euclides era o mais rico dos Paes Mendonça: Mamede e Pedro.
Muito já se escreveu sobre Euclides Paes Mendonça. Teses diversificadas, interpretações variadas e versões contrastantes. Dessa vez, o Desembargador Vladimir Carvalho, foi longe: são 450 páginas de letra miúda, passagens detalhadas, a vida de Itabaiana esmiuçada. Vladimir mexeu com quase tudo da vida do Coronel.
Vladimir Carvalho é o maior historiador da vida Itabaianense. Antes, entre outros, ele publicou: “A República Velha em Itabaiana.” Vejam pelo título, não se trata de Itabaiana na República Velha, como era o esperado. Não, é o inverso, O centro da história é Itabaiana.
Agora, o título é “Euclides Paes Mendonça – um político do passado”, quando na verdade o livro trata do passado de um político. Vladimir une o rigor acadêmico da história, com o dia a dia da vida Itabaianense. Os causos, as passagens grotescas, a memória oral de quem viveu e sentiu o que está contando.
A interrupção da carreira política de Euclides e do filho, drasticamente, com os assassinatos de ambos, decorreu, sobretudo, da chegada do PSD ao Governo, com Seixas Dória. Itabaiana passou a ter duas forças policiais armadas: a guarda municipal e a polícia estadual. Não acabou bem.
A trajetória política de Euclides Paes Mendonça transformou Itabaiana, deu inicio ao desenvolvimento mercantil, a construção de uma economia pujante, a uma revolução urbana. Itabaiana se tornou o centro da vida sergipana.
A história de Itabaiana entre 1945 e 1964, está contada e bem contada, nessa biografia de Euclides Paes Mendonça.
Desde a publicação por Vladimir de "Quando as cabras dão leite" (1971), "Santas Almas de Itabaiana Grande" (1973), "A República Velha em Itabaiana" (2000) e "Vila de Santo Antonio de Itabaiana".
Agora com “Euclides Paes Mendonça, Vladimir esvaziou os arquivos.
Esses livros acima são os específicos de Vladimir Carvalho sobre a história de Itabaiana.
Os livros de Vladimir Carvalho de contos: "Mulungu Desfolhado (1994), "Água de Cabaça" (2003), "Feijão de Cego". Os de poesia: "Sinal Verde, trânsito vermelho" (1972), "Dois Instantes e uma saudade". Os de folclore: "O Caxangá na história de Itabaiana" (1976), "Apelidos em Itabaiana", "Adivinhas Sergipanas" (1999). Todos tratam da alma universal de Itabaiana.
Vladimir Carvalho também escreveu livros jurídicos, que eu nunca me interessei, por razões óbvias.
Afirmo com segurança: Itabaiana é cidade mais estudada de Sergipe. Talvez sejamos uma terra de historiadores, pequenos e grandes. Estamos a comemorar o centenário de Maria Thetis Nunes.
Ontem eu fui ao lançamento do livro de Vladimir Carvalho, em Itabaiana. A sociedade local presente, as autoridades presentes, os correligionários presentes, a UFS presente, a alma do povo presente.
Agora eu vou começar a leitura. Ler aos poucos, homeopaticamente, para demorar na leitura. Coisa boa, se come aos poucos, degustando-se lentamente. Depois eu conto os detalhes sobre o livro.
Palmas para o Desembargador!
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
GENTE SERGIPANA - PADRE PADILHA.
Gente Sergipana – Padre Padilha – 83 anos.
(Por Antonio Samarone)
O Defensor Público José Padilha de Oliveira tinha deixado a batina, porém continuava padre. Era uma vocação. O comportamento, o pensamento, as ideias, os gestos eram de padre. Padilha era “Le Curé de village”, na visão de Balzac.
Conheci o padre Padilha nas reuniões das segundas, na sede do Conselho de Economia. Existia um grupo de intelectuais, fundado por Aloisio Campos, que se reunia semanalmente, com chuva ou sol. Passávamos a realidade a limpo, reformando-a.
Nessas reuniões, o Padre Padilha era o orador oficial, nas datas festivas.
Era um Grupo plural, onde conviviam democratas e patriotas. As divergências não se transformavam em ódio.
O Grupo acabou!
E ontem, nos deixou o padre Padilha. Voou para o Reino da Glória. Se os critérios da salvação são os que conhecemos, ele se salvou.
O que a minha memória guardou de Padilha foi o sorriso. Mesmo em polêmicas, onde ele discordava profundamente do interlocutor, Padilha não levantava a voz, sempre manso e educado. Padilha era um fidalgo.
O padre Padilha valorizava as amizades.
Meu amigo Padilha, dê lembranças aos amigos aí no Céu. Diga a Amaral Cavalcante, que o mundo da cultura em Sergipe sente a sua ausência. Diga a Luiz Eduardo Magalhães que ele está fazendo muita falta, nesses tempos sombrios.
Nos espere! Vamos retomar as reuniões.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
GENTE SERGIPANA - CLÍNIO GUIMARÃES
Gente Sergipana – Clínio Guimarães – 74 anos.
(por Antonio Samarone)
A sensibilidade musical de Clínio é hereditária.
Clínio Carvalho Guimarães é filho do maestro Barbosa (Antonio Barbosa Guimarães Filho), falecido em 1992 e de Dona Tita, Benedita Guimarães, por enquanto, com cem anos.
Quinquinho já nasceu gordo, em Simão Dias (18/08/1948). Clínio é o gordo invejado o gordo feliz e saudável. O gordo que mandou as dietas à merda.
Clínio é um brasileiro que adora samba, cerveja e futebol. Porém, tem um vício infantil: é apaixonado pelo Flamengo. Ninguém é perfeito.
Estudou o primário nos Grupos Escolares de Simão Dias e o científico no Atheneu. É da turma de economia da UFS de 1973.
Eu conheci Clínio numa situação curiosa. Eu, membro ativo do cangaço sindical, ele, um servidor público experiente, tinha chegado a presidência da FUNDESP, na época de Luiz Antonio Barreto.
Clínio foi trabalhar no Serigy. Em minha jovem visão, Clínio era mais um adversário dos Servidores Públicos.
Cruzei com o Gordo na escada do Serigy, ele subindo e eu descendo, e ele tirou uma pilhéria. Eu não conhecia o humor sarcástico de Clínio. Tive vontade de reagir. A primeira impressão foi de um Gordo reacionário.
Depois, fui conhecendo a grandeza do Gordo, a sua integridade, a sua irreverência, o seu bom caráter. Clínio, filho único, cuida da mãe como uma boa filha. Eu sei a dedicação necessária para se cuidar de uma mãe centenária.
Clínio é uma referência da música, sabe quase tudo. Para mim, um Noel Rosa de província. As suas rodas musicais, com uma turma de primeira, é um encanto na terrinha.
Clínio é o pai de uma ninhada de gente boa: Kiko, Arthur, Vinicius e Adelaide. Conhecendo Arthur, descobri que não sei nada de fotografia e ainda sair satisfeito.
Hoje, Clínio sai pouco. Fico seguindo as suas redes sociais, aguardando comentários inteligentes e bem-humorados.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
GENTE SERGIPANA - ZÉ CARLOS, O MORDOMO DO SERIGY.
Gente Sergipana – Zé Carlos, o mordomo do Serigy.
(por Antonio Samarone)
No início da década de 1980, a Saúde Pública em Sergipe era comandada por José Machado de Souza, o maior pediatra da medicina em Sergipe. Um médico sem meias palavras. Um homem de princípios.
Eu, recém-chegado da pós-graduação em Saúde Pública, cheio de ideias, aluno das melhores escolas. Sonhando em mudar o mundo.
Precisava trabalhar, não existia concurso. Procurei o professor João Cardoso, em sua residência.
Ele ouviu os meus planos pacientemente, no final foi sucinto: nada disso vai dar certo. Ouvi calado. Ainda tinha um ponto: Professor, eu preciso trabalhar. Ele também sucinto: vou lhe dar um bilhete para o Dr. Machado, não abra, entregue a ele.
No outro dia, logo cedo, estava na porta do Serigy. Entreguei o bilhete ao Dr. Machado, que reagiu: eu não posso negar nada a João Cardoso. Estamos precisando de sanitarista. Amanhã traga os documentos. Foi contratado e já nomeado Diretor da Regional de Lagarto.
O Serigy fervilhava de gente e ideias. A Saúde Pública tinha o peso do Dr. Machado.
Logo cedo, aprendi que quem mandava no Serigy era Seu Zé Carlos (foto). Ele chegava antes das cinco da manhã e só saia depois das vinte e uma.
Ele era o zelador, a quem o Dr. Machado entregou os segredos, as chaves e o almoxarifado. Sem a boa vontade de Zé Carlos, voltava-se de mãos vazias.
Um homem simples, honesto, servidor público até a alma. Zé Carlos subia e descia escadas, puxando de uma perna, atendendo a um e a outro. Sempre dadivoso, atento, cônscio do seu poder.
Na Saúde Pública de Sergipe, convivi com muita gente preparada, enfermeiras responsáveis, médicos dedicados, auxiliares e técnicos em enfermagem, dentistas, psicólogos, assistentes sociais, economistas, planejadores, uma equipe zelosa, sob o comando de Machadão.
Não sei o porquê, mas em minha memória, domina a imagem de Seu Zé Carlos. O porteiro, o zelador, o mordomo, um homem já idoso, que cuidava de toda a logística.
Zé Carlos era mais eficiente que um inspetor do Tribunal de Contas. Nada acontecia de errado no Serigy, sem que Zé Carlos soubesse. O seu olhar era a certeza da lisura.
Seu Zé Carlos morava no Bugio. Alguém sabe o paradeiro desse herói do serviço público? Ainda é vivo?
Antonio Samarone (médico sanitarista)