A Peste Negra em Aracaju.
(por Antonio Samarone)
No jornal “O Estado de Sergipe” edição de 28 de agosto de 1903, o Inspetor da Higiene Pública, Dr. Theodoreto Arcanjo do Nascimento, alertava para o exagero das notícias que circulavam na cidade de que estava acontecendo uma elevada mortandade dos ratos e o aparecimento dos primeiros casos de Peste Bubônica em Aracaju.
Diz o Diretor: “não é tão fácil concluir da simples observação clínica de dois ou três casos, o diagnóstico da Peste”. Sergipe não possuía recursos laboratoriais para realizar a prova biológica desse diagnóstico.
Mesmo desmentindo a existência de Peste na Capital, a Inspetoria avisou ter recebido vacina anti-pestosa do Instituto Soroterápico Federal, e que a vacinação estava ocorrendo diariamente de uma as duas da tarde.
Os casos continuaram aparecendo e Inspetor de Higiene do Estado, Dr. Theodoreto Nascimento, cedeu as evidências e convocou uma reunião, em sua residência, dos médicos atuantes em Aracaju.
Compareceram os Drs. Manoel de Marsilac, José Moreira de Magalhães, Cândido Costa Pinto, José de Souza Ponde (Inspetor de Saúde dos Portos), Manoel Nobre (auxiliar da Inspetoria) e José Francisco da Silva Melo; deixaram de comparecer, mesmo tendo sido convidados, os Drs. João Telles de Menezes (médico militar), Álvaro Telles de Menezes e Daniel Campos.
Nessa conferência foi decidido por unanimidade que estavam diante da suspeita da ocorrência da Peste Bubônica. Esse é o primeiro registro de Peste Bubônica em Sergipe.
As medidas sanitárias tomadas para se evitar a propagação da doença foras as seguintes:
Isolamento dos pacientes (em número de doze) no lazareto existente; imediatos expurgos de suas casas, que também foram interditadas e guardadas por agentes da Força Pública; tentativa de vacinação; desinfecção – com o pulverizador Geneste de todas as casas onde ocorreu mortandade de ratos; asseio pessoal, domiciliar e das ruas; desinfecção do Palácio, Alfândega, Quartel, Tesouro, Justiça Federal, Cadeia e demais edifícios públicos; imediata limpeza do cais e das embarcações pequenas.
Os Delegados de Higiene do Interior foram todos colocados de “sobre aviso”, isto é, alertados para uma possível epidemia.
“O cais, as ruas, o interior das casas, os quintais, tem sido continuadamente limpo, procedendo-se por toda à parte a remoção e incineração do lixo, de maneira que se poder afirmar, jamais se viu tão limpa a nossa modesta Capital”. (Theodoreto Nascimento, no Jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 13/09/1903).
Diante de mais uma ameaça de epidemia, assim se manifestou o Presidente do Estado, o Farmacêutico Josino Menezes, em mensagem a Assembléia Legislativa, no dia 07 de setembro de 1903:
“O nosso Estado acha-se na desagradável contingência de não poder resistir à invasão de qualquer epidemia, tão fácil de ser importada, quanto de se desenvolver entre nós, como prenunciam infecções gravíssimas já observadas em nossa Capital”.
Em setembro de 1903, O Inspetor de Higiene solicitou ao Presidente do Estado que determinasse ao doutor Chefe de Polícia para que proibisse as pessoas de deixarem Aracaju sem serem devidamente examinados e emitidos os “Passaportes Sanitários”.
Solicitou-se também um auxílio em dinheiro para as pessoas removidas para o Lazareto, por não poderem prover seu sustento com trabalhos externos e que se proibisse os sepultamentos em nossos cemitérios sem o respectivo atestado de óbito.
O Lazareto era dirigido pelo enfermeiro Canuto Severino de Araújo.
A Saúde Pública determinou também que se desinfetassem com enxofre todas as mercadorias e objetos que saíssem da Capital, mesmo sabendo do risco de danificá-las. Para atender a essa determinação foi construída na Inspetoria de Higiene uma estufa para funcionar com gás sulfuroso ou formol, mais dois salões no centro comercial e mais outro no Jardim Baiano, onde se podem proceder ao expurgo das mercadorias.
O Mercado, velho edifício, carcomida e ameaçadora habitação de ratos, fora completamente evacuado; o Beco do Açúcar (atual dos cocos), também sofreu evacuação e os proprietários ali instalados intimados a reformarem seus estabelecimentos.
O Beco dos Cocos era considerado um verdadeiro cortiço incrustado no centro da cidade, feio e imundo, a atentar contra a saúde pública e aos foros de civilização necessários a uma Capital.
O Mercado, que era propriedade da “Associação Aracajuana de Beneficência”, que administrava o Hospital de Santa Isabel - presidida na época pelo Major Serafim Moreira - somente foi reaberto após passar por uma ampla reforma higiênica, com pintura, mudança do teto, inclusive com a construção de oito latrinas para a serventia pública, até então inexistentes.
Diante do pavor decorrente da ameaça da Peste decretou-se um verdadeiro “estado de sítio” sanitário. A polícia se desdobrou para cumprir as determinações da Saúde Pública. Em menos de 30 dias cerca 500 pessoas já tinham conseguido o tal “Passaporte Sanitário”, sem o qual o direito de ir e vir estava banido.
Não ficam claro quais os critérios usados para a emissão do citado “Passaporte”, quais os aspectos de sanidade deveriam ser observados. Uma pista está no fato de que até o amanuense da Repartição Sanitária, senhor José Alencar Cardoso, estava autorizado a emitir e assinar tal documento.
É evidente que medidas tão duras, “justificadas” pelo medo da Peste, tiveram forte resistência por parte da sociedade. Como os conhecimentos ainda eram muito precários era mais prudente errar-se pelo exagero do que pela omissão, discursava os defensores das medidas.
Entretanto, com essas medidas, mesmo consideradas exageradas, a Peste foi rapidamente controlada, não causando mais os estragos de épocas passadas. A medicina já dispunha de alguns instrumentos eficazes no combate a algumas moléstias. A Peste Bubônica começava a ser domada.
No dia 12 de setembro, Dr. Theodoreto envia um curioso oficio ao Chefe de Polícia: “solicito uma patrulha, mesmo de pouco homens, destinada a evitar a defecação que se faz publicamente, na zona compreendida da frente do Hotel Brasil e a Alfândega”.
A Saúde Pública registrou também o recebimento de amostras de um “sabão de creolina”, fabricado especificamente para ajudar nas medidas profiláticas do combate a Peste. A fedida invenção não somente foi aprovada como bastante elogiada, pois era resultado da criatividade de uma saboaria local, de propriedade da senhora Arlinda A. Espinheira.
Quanto ao tratamento empregado nos casos de Peste Bubônica usou-se a aplicação, via hipodérmica, do soro anti-pestoso em altas doses, com excelentes resultados. O soro também foi usado, preventivamente, em pessoas expostas ao risco, que tiveram algum tipo de contato com áreas suspeitas.
A Peste Negra, também chamada de Bubônica, Febre do Caroço, Febre do Rato, Íngua de Frio e Peste Levantina, começava com febre intensa, calafrio, dores de cabeça, mal-estar, apatia, prostração e no segundo dia aparecia o “bulbão”, que era a reação dos gânglios satélites.
O povo acreditava que enquanto o bulbão não fosse sarjado o risco era iminente. Com a descoberta das sulfas e depois dos antibióticos, basicamente a estreptomicina, a cura deixou de ser problema.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
domingo, 31 de julho de 2022
A PESTE NEGRA EM ARACAJU
A CONSCIENCIA DO DR PEDRITO
A Consciência do doutor Pedrito.
(por Antonio Samarone)
O doutor Pedrito Salgado já beira os 60 anos. Mesmo sabendo pouca medicina, Pedrito ganhou notoriedade e fez boa clientela. O seu consultório é cheio. O dr. Pedrito sempre foi um conservador acomodado. Ele nunca se expôs politicamente.
O avô de Pedrito foi integralista (galinha verde) destacado em Sergipe. O pai ficou rico no tempo da ditadura. Pedrito sempre manteve a aparência de neutralidade. Um homem fino, que dizia odiar a política.
Ninguém sabe o porquê, nem o seu psicanalista, Pedrito assumiu a militância política, sobretudo nas redes sociais. O seu profundo encantamento pelo “Mito” beira a irracionalidade.
Durante a pandemia Pedrito foi um negacionistas convicto, acreditou que a ivermectina e a cloroquina tinham eficácia preventiva. Virou um bolsonarista de carteirinha.
O dr. Pedrito chegou a botar um pato amarelo, aquele da FIESP, na entrada do seu consultório. A esposa exigiu que ele retirasse; “Pedrito, você perdeu o juízo. Respeite os seus pacientes.”
O dr. Pedrito acredita que as urnas são fraudulentas e que o STF é um antro de comunistas. A alma fascista de Pedrito saiu do armário. Ele perdeu o medo e está certo de que um golpe será a salvação do Brasil.
Pedrito entope um grupo de médicos no WhatsApp, do qual faço parte, com vídeos de louvação à supremacia branca e trechos bíblicos. Pedrito acha-se profundo postando as mensagens dos evangelhos. Soube que nem ele lê. Copia e cola.
Entretanto, os ventos começaram a mudar!
A reunião de Bolsonaro com os Embaixadores deixou o doutor Pedrito preocupado. Ele é fascista, mas não é burro. Começou a suspeitar que esse negócio de golpe pode não terminar bem. E ele, a sua imagem, como ficaria?
O dr. Pedrito começou a pensar em recuo. Ele apoiou Collor apaixonadamente. Depois do desastre, todos esqueceram. Ele mesmo não se lembra mais.
Hoje, logo cedo, recebi um telefonema de Pedrito. “Samarone”, como faço para assinar a “Carta aos Brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, essa carta da Faculdade de Direito do Largo São Francisco?
O quê? Agora que o barco está afundando você quer sair? “pois é, respondeu doutor Pedrito sem a menor cerimônia, não quero sujar o meu nome com aventuras autoritárias, que podem não dar certo”.
Arrematou Pedrito: “a Fiesp já mudou, vários banqueiros, até Michel Temer quer assinar a Carta. Soube que o governo americano já mandou o recado para os militares: não é hora de golpes! Você quer o quê, que fique sozinho?”
Muitos médicos entraram nessa onda por modismo, pensa o dr. Predito. “Agora vão fazer de conta que nada aconteceu. O esquecimento é a marca da política brasileira. No fundo ninguém muda, a alma é imutável.”
Afinal, sentenciou o dr. Pedrito Salgado: “todos odiamos a política!”
Eu fiz a última pergunta a Pedrito: e se o Golpe for bem-sucedido? “Bem, vou aguardar o Sete de Setembro. Se as milícias patrióticas assumirem o comando, nesse caso, Eu estou dentro!
É o Brasil!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
SERGIPE PARASITADO
Sergipe Parasitado
(por Antonio Samarone)
A história política de Sergipe tem a marca das oligarquias rurais. As casas grandes dos engenhos eram os centros das decisões e o Estado, a principal fonte de rendas e regalias.
A reunião da Assembleia Provincial para transferir a Capital para Aracaju, ocorreu na casa grande do Engenho Unha do Gato.
Sergipe sempre viveu sob o mando dos senhores de baraço e cutelo. Durante o Império, os dois partidos políticos em Sergipe denominavam-se “Rapinas e Camundongos”.
Somente em 1985, as “forças populares” conquistaram a Prefeitura do Aracaju, com Jackson Barreto. Em pouco tempo, as forças tradicionais da política cassaram o seu mandato na Assembleia Legislativa, com os votos favoráveis do PT.
Jackson Barreto foi um mal-entendido. Nunca teve projetos, sempre cuidou da sua carreira política pessoal. Astuto, populista, habilidoso nos conchavos, chegou ao Governo do Estado. Depois de quase 50 anos na vida pública, não deixou marcas positivas. Hoje, ele é um fantasma nos corredores dos palácios, em busca de um novo mandato.
A nível estadual, somente em 2006, as “forças populares” chegaram ao Governo do Estado, através do PT, para acabar com a “mesmice”. Uma experiência que já dura 16 anos.
Disse Marcelo Déda em seu discurso de posse, citando Fernando Pessoa: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Em Sergipe, o Estado continuou privatizado.
Com o tempo, a motivação deixou de ser as mudanças. O objetivo central passou a ser a manutenção do poder a qualquer preço. A máquina pública voltou-se exclusivamente para os operadores da política.
Buscando a governabilidade, a manta do Estado cobriu a maioria dos políticos. Sobraram poucos na oposição.
Em um Estado pobre, com a economia destroçada, ser bem-sucedido empresarialmente, sem o adjutório das regalias públicas é quase impossível.
O deserto da oposição é árido!
Foram 16 anos de vacas magras e declínio da economia sergipana. A renda dos sergipanos diminuiu e os empregos sumiram.
O poder transformou muitos líderes de ontem, que “amavam os Beatles e os Rolling Stones”, em novos ricos. Alguns fizeram até o curso de sommelier, para brilharem nos salões da Corte.
Prevaleceu a lógica de Tomasi di Lampedusa, em seu livro Il Gattopardo: “Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi» (se quisermos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude).
Nada mudou!
Nessa eleição (2022), as “forças populares” no poder se dividiram e apresentaram dois candidatos, sob a proteção da Máquina. O poder absoluto leva a arrogância absoluta e a subestimação do voto livre. Eles têm a certeza da vitória em qualquer circunstância.
Poderemos ter surpresas nas eleições desse ano?
Até agora:
O grupo político que controla o Executivo Estadual, a Assembleia Legislativa, a Prefeitura do Aracaju, 67% das Prefeituras no Interior, tem a simpatia manifesta da mídia corporativa, comanda diretamente 52% do PIB, controla 32 mil cargos em comissão, os empregos terceirizados, que distribui mimos, regalias e sinecuras, mesmo assim, não conseguiu emplacar um candidato competitivo a própria sucessão.
Quem pode explicar?
Antonio Samarone (médico sanitarista)
O MEDO DA MORTE
O Medo da Morte.
(por Antonio Samarone)
Conheci Gutemberg Resende na adolescência. O filho de Zé Boleia era precoce. Um inteligência que beirava a anomalia. Deixou a escola e mergulhou nos livros. Ele foi o primeiro, entre os meus amigos, a descobrir a Internet.
Depois de longa ausência, soube que o meu amigo de infância está aguardando a morte em um hospital de São de Paulo, com um câncer na garganta.
Descobri o seu e-mail e estabeleci contato. Gutemberg há muito habita o ciberespaço, onde eu fui encontrá-lo.
Antes de revelar o destino do meu amigo, peço paciência para relatar um pouco do e-mail que ele me respondeu.
Gutemberg descobriu, lendo Kierkegaard, a dualidade paradoxal da existência humana: somos metade animal, verme alimento de vermes e metade simbólica. Somos um corpo material finito, pó, condenado a morte e, ao mesmo tempo, somos uma consciência infinita, criadora, uma mente que voa alto em busca da imortalidade.
O corpo é a ruína dos esforços do espírito.
A vulgaridade materialista acredita que a mente é uma função físico-química do cérebro e que a consciência perece com o corpo. Gutemberg reage furioso contra essa hipótese.
O cristianismo prega que com a morte do corpo, a alma (consciência) se liberta para uma vida eterna no Paraíso, para os bens comportados. Os espíritas kardecista, enxergam novas chances para o espírito (consciência), que irão reencarnar. As religiões orientais apontam para o nirvana. As alternativas religiosas são muito simplificadoras, para a complexidade intelectual de Gutemberg.
Buscou uma saída nos estoicismo. Leu as cartas de Sêneca a Lucilio, onde o filosofo aconselha ao amigo uma aceitação serena da morte. Não agradou a Gutemberg, ele busca a imortalidade.
Achou a versão do sábio argentino Jorge Luís Borges, em seu conto “O Imortal” razoável. A consciência se imortaliza pela literatura, eternizando o espírito humano. Entretanto, a coletivização da imortalidade também não atende a indignação de Gutemberg.
Quem chegou até aqui, ficará sabendo o caminho que ele encontrou para superar essa condição humana.
Meu amigo Samarone, “somos a última geração a morrer. A imortalidade encontrou uma saída técnica. Que o diabo carregue esse corpo, ele não me pertence.”
Aliás, continuou Gutemberg, com a posse científicas do genoma e os avanços da engenharia genética, poderemos clonar quantos corpos se fizerem necessários. O homem biológico se tornará uma curiosidade arqueológica.”
Esse avanço pode ajudar, más não resolve!
“O problema é outro: como imortalizar a consciência, o Eu, a mente, a alma? Com essa memória preservada em arquivos, em toda a sua complexidade, poderemos implantá-la em um outro corpo clonado ou mesmo em uma máquina robótica. Talvez a segunda alternativa seja mais segura.”
“Eu conseguir captar a minha consciência, ela está em um arquivo, não muito grande. Se a tecnologia 5G já estivesse funcionando no Brasil, lhe mandaria pela Internet. A dificuldade atual, que logo será superada, é reimplantá-la em um corpo clonado ou em uma máquina. É o fim das demências e da morte.”
A saída para a morte será técnica, e não demora.
Eu ainda perguntei pela doença, o câncer na garganta. Ele me respondeu com desdém: “já me libertei do corpo há muito tempo. A carcaça ficara para os vermes, ou será cremada. Isso não me interessa.
Vou mandar o arquivo com a minha consciência para você. Aliás, esse arquivo já está depositado no Olimpo, nas nuvens cibernéticas. Já vivo no ciberespaço há muito tempo. Lá continuarei.
Adeus ao corpo!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
TALENTOS SERGIPANOS - EDGAR BARROS
Talentos Sergipanos. Professor Edgar Barros (foto)
(por Antonio Samarone)
Morreu um poeta!
Passei parte da vida alisando os bancos escolares. Centenas de professores tentaram me ensinar em vão. Apreendi pouco, do muito que me ensinaram nas escolas. Esqueci muita coisa.
Os professores tentaram me ensinar, cada um ao seu modo. Sou grato a todos.
Entretanto, alguns professores foram especiais, ficaram na memória.
No início da década de 1970, fui aluno de biologia do professor Edgar Barros dos Santos (foto), no Murilo Braga. Humilde, discreto, Edgar era um técnico agrícola, especializado em inseminação artificial. Licenciado em ciências biológicas. Depois formou-se em odontologia.
Edgar foi dentista do IPES.
Edgar nasceu professor. Didático, fluente em metáforas, deixava a turma extasiada, ninguém dava um pio, todos de respiração presa, atentos, para não perder uma palavra do professor Edgar. A sua aula era um espetáculo.
A aula começava no canto superior do quadro negro. Tudo arrumado. Desenhos perfeitos, esquemas esclarecedores. No final da aula, ele chegava no canto inferior, no lado oposto do quadro. Um artista do quadro negro e do giz. A sua aula era uma obra de arte.
Edgar nunca usou o apagador. A sua aula ficava na lousa por dias, ninguém se atrevia apagá-la. Alunos de outras turma, professores, bedéis, todos extasiados.
A aula sobre a anato-fisiologia do aparelho reprodutor feminino era inesquecível. Na faculdade de medicina a aula de obstetrícia pareceu repetitiva. Lembrava-me de tudo da aula de Edgar no Murilo Braga. Naquele tempo, célula e genética estavam chegando. Biologia era botânica, zoologia e corpo humano.
O professor Edgar Barros, filho de Seu Epaminondas e Dona Duartina, morreu essa semana, aos 73 anos. Não ficou nem famoso, nem rico. Não terá um monumento em Praça Pública, A sua morte não foi notícias.
Mas afirmo sem receio: Edgar Barros foi um gênio em sala de aula, um poeta da biologia. Hoje, meio século se passou e as suas aulas continuam impressas em minha memória.
Eu fui um esforçado professor de biologia no Arquidiocesano. Quando recebia elogios sobres as aulas, pensavam em silencio: vocês não conhecem Edgar.
Receba as minhas homenagens, professor Edgar.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
O MITO
O Mito!
(por Antonio Samarone)
Os estudos apontam a concentração do “bolsonarismo” entre algumas categorias sociais: evangélicos, forças de segurança, milícias, agronegócio e médicos. As motivações bolsonaristas são diferentes, mas a paixão é a mesma.
A surpresa fica por conta dos médicos. Essa paixão é generalizada entra os esculápios, concentrada entre os economicamente bem-sucedidos. O que move politicamente os médicos? Não sei!
A imensa maioria dos médicos vive do seu trabalho. Economicamente, são trabalhadores. A paixão bolsonarista é de ordem ideológica.
Não existe um bolsonarismo real e um bolsonarismo esclarecido. Não! Bolsonaro é um mito para os seus seguidores. A paixão não permite divergências. A certeza de que as urnas eletrônicas são fraudulentas é generalizada entre eles. O “terraplanismo” é bem aceito e o pensamento de Olavo de Carvalho é um guia.
Quais as motivações políticas atuais dos médicos bolsonaristas? Também não sei. Em Sergipe, essa tendência à direita dos médicos é antiga.
Os ideais tenentistas da Revolução de 1930 foram sufocados em Sergipe. Os usineiros, liderados pelo Coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, dono da Usina Pedras, fundaram a “União Republicana de Sergipe” (URS). Um Partido da oligarquia açucareira apoiado pela Igreja Católica (LEC). Um partido da velha ordem.
A cerimônia de fundação do União Republicana de Sergipe ocorreu na Usina Pedras, em Maruim, num laudo banquete, para cem talhares, regado a champagne cristal rosé e vinhos finos. O banquete foi animado por uma orquestra baiana.
A União Republicana de Sergipe defendia um “liberalismo intervencionista”, segundo o mestre Ibarê Dantas.
Na primeira eleição, em 1933, a União Republicana de Sergipe lançou quatro candidatos ao parlamento federal, sendo três médicos (Augusto Leite, Eronides Carvalho e Moacyr Rabelo Leite). Augusto Leite foi eleito.
Nas eleições para a Constituinte estadual (1934), a União Republicana derrotou o governo tenentista de Augusto Maynard, elegendo dezesseis, dos trinta deputados. Como consequência, a Assembleia Legislativa elegeu indiretamente os médicos Eronides Carvalho para governador e Augusto Leite para o Senado.
Os usineiros governaram Sergipe com o médico Eronides Carvalho, entre 1935 e 1942. Um período trevoso, onde preponderou o império da violência e da perseguição política. O Governo de Sergipe aplaudiu com entusiasmo o golpe do Estado Novo de 1937.
Contraditoriamente, o golpe de 1937 cassou o mandato de Augusto Leite. Para o bem da boa medicina, o notável médico deixou a política partidária.
Para agradar a Getúlio Vargas, os usineiros de Sergipe fecharam as portas da União Republicana de Sergipe, com o Estado Novo (1937).
Posso citar outros momentos da história de Sergipe, mas não vejo necessidade.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
LAGARTO
Villa de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto.
(por Antonio Samarone)
Fui passear em Lagarto. Bater pernas. Adorei! A cidade limpa, organizada e um povo atencioso, prestativo.
Fui na igreja de Nossa Senhora da Piedade. Linda. bem cuidada. Até o galo permanece na torre da igreja. A casa paroquial continua com os azulejos do Brasil Império.
Encontrei na praça um voluntário vendendo verduras da Fazenda Esperança (foto). Me pareceu um iniciativa decente, Eles acolhem dependentes químicos de forma desmedicalizada. Usam o poder da palavra.
Sou da raça dos perguntadores, esmiucei detalhes da Fazenda Esperança, Gostei do que ouvi.
Fiquei de voltar, para conhecer pessoalmente a Fazenda Esperança.
Achei o centro de Lagarto silencioso. O comercio arrumado, lojas de boa aparência. Só conhecia Lagarto de passagem pela rodovia.
O povo me pareceu pacato e atencioso. Perguntei muito a muita gente. Todas me atenderam bem.
De vez em quando ouvia de populares: aquele é Samarone? Vige com está velho... Fiz questão de ir com a camisa do Itabaiana, para não parecer turista.
Gostei de Lagarto. Voltarei!
Antonio Samarone (médico sanitarista).
