quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O SORRISO MAROTO


O Sorriso Maroto..
(por Antonio Samarone)

Não está sendo fácil conviver com o fascismo. Acho que contraí “melancolia”, uma doença extinta, uma doença da alma.

Será se a melancolia, como o sarampo, está voltando? A quem recorrer?

A psiquiatria desmembrou a melancolia em dezenas de transtornos, e quer tratá-los com drogas que regulam a neurotransmissão.

Não é fácil enquadrar o sofrimento mental como mercadoria. Acho que a psiquiatria de mercado não tem respostas, tratam a depressão como um desequilíbrio químico.
Pensei em procurar um psicoterapeuta. Qual? A psicoterapia vai do exorcismo às teorias cognitivas, passando pela psicanálise. A psicoterapia é herdeira do xamanismo.

Melancolia não é tristeza, acabrunhamento ou amargura. Melancolia também não é depressão, muito menos Burnout. Então, o que é melancolia, se é que ainda existe?

Voltei à medicina hipocrática. Ele não é o pai atoa.

“Se deres ao homem um remédio que remova fleuma, ele vomita fleuma, se lhe deres um remédio que remova bile, ele remove a bile”. A melancolia é um excesso da bile negra, no paradigma humoral.

Hipócrates descreveu o comportamento do melancólico:

[Eles são] às vezes taciturnos e solitários, evadem-se para lugares isolados; desviam-se dos homens, olham o seu semelhante como um estrangeiro; mas também não é raro, nos que se consagram ao saber, que a sua disposição à sabedoria os incite a esquecer qualquer outra preocupação.

Assim, uma das características da melancolia é o isolamento dos indivíduos. Na literatura, Hipócrates é convidado para emitir um parecer sobre Demócrito, considerado louco pela sociedade.

Na carta dirigida a Damagetes, tem-se a narrativa do encontro entre Demócrito e Hipócrates. O médico é conduzido pelos cidadãos até o lugar onde Demócrito se encontra, e observa a sua situação com profunda tristeza.

“Demócrito está melancólico e não louco, concluiu o pai da medicina.

O filósofo se recolheu para deixar sua alma em paz. A procura da suspensão de perturbações está de acordo com a ataraxía democritiana.

O filósofo precisa de um momento consigo mesmo para refletir acerca de si, dos homens e da relação que eles mantêm com a sociedade. O isolamento demonstra sua atitude perante a sociedade.”

A descrição física de Demócrito (sujo, com uma túnica grosseira e barba longa) corresponde a um dos sinais elencados pelos cidadãos: ele se esqueceu de tudo, até de cuidar de si próprio.

Esse descuido com o próprio corpo revela-lhe o comportamento diante do corpo social, pois ele também se omite quanto à sociedade naquilo que seus concidadãos esperam dele.

Hipócrates pergunta a Demócrito pelo motivo do seu riso. Ele responde que ri da irracionalidade dos homens, da sua ganância, de suas guerras e de suas preocupações com o efêmero.

Sobre a ganância, a personagem de Demócrito afirma, nas Cartas, que leva à desmesura de querer sempre mais e nunca se satisfazer.

“Quando não são ricos, desejam a riqueza; adquirindo-a, eles a escondem e subtraem-na aos olhares”. Nos fragmentos de Demócrito, encontramos dois que também condenam a atitude gananciosa, caracterizando-a como capaz de provocar sofrimentos. O primeiro fragmento aconselha aos homens não sofrerem em demasia por aquilo que não possuem.

“Sensato é quem não sofre pelo que não tem, mas se alegra pelo que tem”.

O segundo condena aquele que age com desmedida, e preocupa-se excessivamente com seus bens: “Afortunado quem deseja com medida, infortunado quem sofre pelo que muito tem”.

Nas Cartas, sobre a suposta melancolia de Demócrito, o autor defende que não vem da bile negra, contrariando a tradição hipocrática. Ela não é uma doença do corpo, mas sim um estado d’alma.

O riso é uma terapia e tem um poder curativo, podendo purgá-la; ele não é a expressão da loucura do filósofo, mas de sua grande sabedoria diante dos homens.

Então, se num primeiro momento a sociedade pareceu sábia por se preocupar com a saúde de um de seus cidadãos, no final tem se mostrada ignorante, por não entender o riso de Demócrito.

Só me faltava essa, segundo a medicina hipocrática o remédio para a melancolia é o sorriso.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022


Os Subúrbios do Aracaju.
(por Antonio Samarone)

A Avenida Cruzeiro do Sul foi construída na marra. O povo foi chegando e fazendo as suas casas. Estreita, torta e desalinhada. Entretanto, 86 famílias construíram ali os seus lares.

A Cruzeiro do Sul é o logradouro mais importante do Bairro São José dos Náufragos. São quase vinte anos de luta.

Foi uma luta para chegar a água da Deso. Outra batalha para sair da escuridão. Lembro-me da resiliência do finado Juju. Um líder sem eira nem beira, nem ambições. Hoje a comunidade está mobilizada, atenta, com uma juventude esclarecida.

Agora chegou o asfalto. Claro, não é mesmo asfalto das ruas dos ricos, é uma raspa do que não prestava. Mais de grande valia. Acabou a poeira, a lama e os buracos.

Ontem eu fui lá, afinal, sou morador do mesmo bairro. Vi a festa, a alegria, o entusiasmo do Pastor Tel. O Pastor me mostrou as fotos, os requerimentos, as reuniões, as promessas, e agora, a Prefeitura atendeu.

Até os cães da casa do Pastor Tel estavam alegres, não parravam de saltar e me cheirar.

A Comunidade da Cruzeiro do Sul, onde moram os pescadores e marisqueiras, gente trabalhadora, está abrindo os olhos. Em especial, os jovens.

O Prefeito Edvaldo olhou para essa gente desassistida pelo poder público. O presidente de EMURB, o engenheiro Ferrari, acompanha pessoalmente a obra.
Ainda falta muito, mas os primeiros passos foram dados.

O desconhecido Bairro São José dos Náufragos, margeia o Rio Santa Maria, afluente do Vaza Barris. Tenho fé que a sua ocupação será sustentável e que o Poder Público ponha freios e modos na especulação imobiliária.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A ERA DOS VELHOS.


A Era dos Velhos!
(por Antonio Samarone)

Quase sempre, falar dos Velhos, não encontra uma boa acolhida.
O Brasil ignora os seus Velhos. O Estatuto do Idoso é uma lei que não pegou. Ninguém sabe por onde anda, nem cobra o seu cumprimento.
Durante a quarentena da Pandemia, o Velho que botasse o pé na rua era admoestado com rigor: “olha aí, depois não sabe porque morre.”

Os mitos e os clichês negam a própria existência dos Velhos: “só é velho quem quer, se diz de boca cheia, é uma questão de mentalidade.”

Em qualquer roda, quem alega a condição de velho é imediatamente contestado: “deixe de besteira, ninguém é velho.”
A juventude é eterna! As indústrias farmacêutica e de suplementos alimentares exploram essa utopia, vendendo produtos rejuvenescedores.

O Velho passa a ser objeto de exploração de um mercado de serviços médicos, farmacológicos, fisioterápicos, “clínicas de repousos”, asilos, residências adaptadas.

Os velhos são consumidores vorazes de medicamentos e serviços médicos.

No Brasil, o sistema bancário saqueia os proventos dos aposentados, com juros extorsivos dos empréstimos consignados.

Juros e remédios empobrecem os Velhos, levando-os em muitos casos a indigência.

No Brasil, não existe uma rede qualificada de assistência pública (nem privada) aos Velhos, tornando-os dependentes da boa vontade e sensibilidade dos familiares e filantropos.

A solidariedade e o acolhimento dos filhos é cada vez mais rara. Muitas vezes por falta de condições objetivas.

Cobra-se dos velhos sabedoria e prudência. Um desapego que se aproxima da submissão consentida. Ser sábio é calar, silenciar, fazer de conta que não está enxergando.

Visitei o velho Agenor das Candeias, numa casa de repouso aqui em Aracaju. Ele não parou de falar, contando-me o desprezo e maus tratos que recebia, mesmo pagando.

Eu, comprei a briga, fui questionar com a diretora, cobrar respeito. Seu Agenor foi muito amigo do meu pai.

A diretora se mostrou preocupada e foi comigo no quarto de Agenor, para obter mais detalhes. Quebrei a cara. Seu Agenor negou tudo, que aquilo era maluquice minha, que vivia arrumando encrenca. Passei por mentiroso.

Quando a diretora saiu, Seu Agenor me deu uma bronca. “Você é um imbecil? Quando você sair, como eu fico? Com essa denúncia, os funcionários vão passar a me odiar. Eu dependo da boa vontade deles. Eu bonzinho, calado, o tratamento já é ruim, imagine eu causando problemas.

"Doutor Samarone, o senhor nada sabe sobre a vida.” Ouvi calado!

Continuou o Velho Agenor:

“Um velho briguento, cheio de direitos, morre à mingua. A minha dependência, a minha falta de autonomia é crescente. Perderei em pouco tempo a fala, a consciência e os movimentos."

"Doutor, a morte é solitária, morre-se só!”

“O respeito aos velhos não depende de bronca, mas de civilização, de respeito que a sociedade tenha ou não pelos idosos.”

“No Brasil, estamos na mais profunda barbárie”, concluiu, com certa melancolia, o Velho Agenor das Candeias.

Antonio Samarone (médico sanitarista)