quinta-feira, 25 de novembro de 2021

BURRICE ARTIFICIAL


A Burrice Artificial.
(por Antonio Samarone)

Postei uma linda foto no fakebook: um jovem índio carregando um velho pajé na cacunda. O fakebook censurou e me advertiu: a empresa não permite nudez. Para os algoritmos nudez é nudez, todas são pornográficas.

Os jesuítas, o Bispo Sardinha, Mem de Sá, Dom Sebastião e o fakebook, quiseram vestir os índios. Só o Rei, pode ficar nu!
A inteligência artificial é binária, precisa, digital. A vida é analógica, imprecisa, fantasiosa. As narrativas são aproximações, abertas a criatividade humana.

Cheguei a uma conclusão anacrônica: a vida é analógica. Entendemos o mundo por aproximações comparativas, por analogias.
Sou contra a inteligência artificial, ao chupa cabra, a uberização do trabalho, o fedor da treze de julho e ao politicamente correto.
Sou contra os algoritmos, o empreendedorismo, a internet das coisas e ao complexo de Édipo.

Sou conta a automação, ao VAR, ao delivery, a medicina baseada em evidências, ao elixir paregórico, ao ensino a distância e a psiquiatria orgânica.

Sou contra o negacionismo, o dízimo, a dar a outra face, a cuspir no prato que comeu, a piadas sem graça e ao samba de uma nota só.

Sou contra ao Natal iluminado pelo comércio, a falar mal na presença, a Papai Noel, a espantar os males com o canto, a missa do galo, a ceia de peru e ao réveillon em resort.

Aos 13 a anos, eu já sabia ser do contra.

Uma cigana que passou por Itabaiana, leu a minha mão e enxergou: “tempestades lhe esperam”! Mamãe não gostou da conversa e perguntou: “esse menino vai dar certo na vida”? A cigana riu pelo canto da boca e não respondeu. Eu, na hora, tive a sensação que não.

Agora, eu estou certo de que a cigana não me enganou.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

ÁGORAS PROVINCIANAS


 Ágoras Provincianas...

(por Antonio Samarone)
Participei ontem, de uma cerimônia política típica da vida sergipana. Os mecanismos de disputa do poder são os mesmos usados pelos Imperadores romanos. Os comícios são eternos.

Não me perguntem o que disseram no palanque. Não prestei a atenção. Em política nunca se diz o que se pensa. A política é uma estratégia de disputa do poder, onde o segredo é a principal arma.

A arte da política é não dizer nada e ainda parecer transparente. (Maquiavel Pé de Serra)

Uma multidão de líderes, vereadores, prefeitos, cabos eleitorais e assessores atentos. Ninguém estava ali a passeio. São eles que mandam, pelo menos são eles que elegem os Imperadores. O Poder não vem mais nem de Deus nem do Diabo, como nas monarquias. O Poder vem daquela gente, chamada de povo no texto constitucional.

É essa fonte de poder, inventada pelos gregos, que incomoda os déspotas esclarecidos (ou não). Os “eleitos” precisam da aprovação do povo, que deve ser convencido. Os mecanismos de convencimento não são exemplos de pureza. É uma relação humana.

O poder tem fontes não democráticas, que se legitimam sem precisar da anuência popular: a economia, a religião as forças armadas, a justiça, corporações, sindicatos, a tradição, a imprensa e tantas outras. Todas essas forças tentam demonizar o poder político.

Passamos por um longo processo de deslegitimação do Poder político.

Claro, os mecanismos de construção do poder político facilitam as críticas. Perguntei a uma velha raposa, presente no encontro de ontem: por que vocês não procuram aperfeiçoar as regras dessa disputa? Ele foi sucinto: “Estamos ganhando com essas regras, por que as mudar?” Eu me calei.
“O Poder é como um jegue carregado de rapadura, até o rabo é doce”, disse-me ontem o animado vereador Chico Pata, da Lagoa do Forno. Mesmo assim, penso eu, a política ainda é a forma mais civilizada para se alcançar o Poder.

Ontem tive saudade do meu pai, um “rabo branco”, apaixonado pelo PSD de Leite Neto. Meu pai era ativo nos comícios, era o primeiro a puxar as palmas e gritar “muito bem”, mesmo sem ter entendido nada do discurso.

Meu pai era da claque espontânea, mesmo sem nunca ter recebido um bom dia dos políticos. Naquele tempo era assim. Ele torcia pela PSD, como eu torço pelo Fluminense, sem nenhuma justificativa.

Como conciliar interesses divergentes, repartir a riqueza, prover segurança e conforto. Viver em paz. Como mediar os conflitos sem a política?

Fora da solução política, resta a força bruta.

O filosofo Armelino do Beco Novo acreditava na força: “dinheiro e pancada só não resolvem, se for pouco”, dizia ele de boca cheia. A soberania é da espada. O chefe político era um senhor de baraço e cutelo, herança da tradição das capitanias hereditárias.

A política substitui a força pela astúcia e pela narrativa convencedora. Em resumo: a política é a arte de convencer os outros de que o bom para você, é bom para todos. Por isso, frustra a maioria não comtemplada.

Quando os gregos inventaram a democracia, sabiam dos seus limites. Mas sabiam também, que as ditaduras eram bem piores. Não existem salvadores, mitos e “messias”. A superação das injustiças, quando e se houver, será uma obra de todos.

As classes médias alfabetizadas frustram-se facilmente com a política, pois só entendem da missa a metade. Eles percebem que a política é uma atividade de interessados, mas não sabem como lutar por seus interesses. Os seus interesses se transformam em privilégios e viram direitos (entre aspas).

Quando forças populares, por serem majoritárias, usam da política como mecanismo de ascensão social, as classes médias e os ricos se sentem ameaçados e renegam a democracia. Essa tem sido a história da América Latina.

O que assisti ontem, foi um processo de disputa de Poder imperfeito, cheio de subterfúgios, mas é o que temos. A luta não é pela supressão da democracia, mas pelo seu aperfeiçoamento.

Só se aprende a votar, votando.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

domingo, 21 de novembro de 2021

O CIO DA CADELA


O Cio da Cadela.
(por Antonio Samarone)

Após anos, reencontrei um velho contemporâneo da faculdade de medicina. Cumprido os rituais dos reencontros, sentamo-nos para um café.
Passadas as amenidades, o Dr. Aquiles entrou numa questão espinhosa:

“Samarone, por que o bolsonarismo é tão forte em nossa categoria? Como pode uma profissão ontologicamente humanista, voltada para aliviar o sofrimento humano, seguir um dublê de mito, um “duce” tosco e inculto?

O Dr. Aquiles não parava de falar:

“Que os agentes das forças de segurança, os milicianos, evangélicos, os empresários do agronegócio, os rentistas, e sei lá mais quem, acompanhem esse projeto fascista, pode até ser justificado, de uma forma ou de outra, eles são beneficiários do modelo. Mas, nós, médicos, ganhamos o que com isso?”

“O fascismo é um culto a violência, ao irracionalismo, portanto, incompatível com o humanismo médico. A medicina é ciência e arte”, lembrou o romântico colega.

“Não me conformo”, insistiu Aquiles:

“Os médicos sergipanos sempre acompanharam a liberdade e a democracia. Claro que existiam médicos entre os integralistas, na década de 1930; é notório que colegas apoiaram o Golpe de 1964, mas nunca foram maioria. Agora são uma praga!”

Eu fui pego de surpresa com a inquietação do colega. Não sabia nem por onde começar...

“Eu sei, lembrou-me Aquiles, quando as classes médias se frustram, sentem as suas regalias ameaçadas, pela ascensão das classes subalternas, tornam-se um terreno fértil para aventuras autoritárias. É a chamada “ameaça comunista”.

“Mas os médicos não têm motivos para frustações”, sentenciou o Dr. Aquiles. “Os médicos sempre foram conservadores, mas nunca chegaram a tanto.”

“São os hábitos culturais, as pulsões insondáveis ou os instintos primitivos? Samarone, você que gosta de Freud, me explique.”

Achei a indignação de Aquiles exacerbada. Calma colega! Tem muitos médicos na resistência, que não aderiram ao negacionismo. Ele retrucou: “muitos nada, são meia dúzia de gatos pingados.”

Fiz um contraponto: o fascismo não é uma filosofia política, prospera pelo sincretismo ideológico adotado. Não estou minimizando os riscos, apenas ponderando.

Dr. Aquiles se impacientou: “você sabe ou não sabe explicar, deixe de arrodeio.” Eu respondi sem hesitar: Não!

Para não passar em branco, sugeri ao colega a leitura de uma conferência de Umberto Eco, “Fascismo Eterno”, publicada no Brasil em forma de brochura, que poderá trazer alguma luz sobre a polêmica questão.

Confesso a minha douta ignorância!

PS: Claro, a conversa foi particular e Aquiles é um pseudônimo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)



 

sábado, 20 de novembro de 2021

O DIREITO A RANZINZICE


O Direito a Ranzinzice.
(por Antonio Samarone)

Nos últimos 50 anos, assisti um empoderamento das crianças e uma perda de importância dos velhos.

Eu peguei a transição: quando eu era menino os velhos eram poucos, mas pesavam socialmente. Os meninos não tinham vontades, nem quereres. Eu envelheci e tudo mudou: os meninos se empoderaram, mandam até nos pais e nos professores. Já os velhos foram renegados.

Antes.

Num congresso estudantil, os jovens pediram um conselho a Nelson Rodrigues. Ele foi sucinto: - “Envelheçam!”. Era uma velhice ciosa da sua importância.

Atualmente.

Assisti a um seminário estudantil recente, na Faculdade de Medicina da UFS, onde uma consagrada decana, experiente, professora doutora, acrescentava um exagerado comentário elogioso após cada apresentação dos alunos. Ela sabia da superficialidade, mas fazia média, jogava para a plateia, para agradar aos poderosos jovens.

“Apresentação encantadora”, repetia acriticamente a decana. São tempos!
A ideologia da eterna juventude nega a velhice, como se fosse possível. É mentira, que só é velho quem quer ou que a velhice é a melhor idade. A velhice é uma experiência onde entramos derrotados. Não se vence a morte.

Essa negação da velhice tornou a empatia dos mais jovens com os velhos difícil. A velhice e a morte são afastadas da reflexão, escondidas, negadas. Não existe interesse pelas experiências dos que estão envelhecendo.

Os velhos não são mais os depositários da cultura e de sabedoria. Quando se tem dúvidas, consulta-se o Google. Se consome avidamente as novidades. As ideias antigas perderam imotivadamente o prestígio.

A ideia do próprio envelhecimento não é objeto de reflexão.
Abandonou-se a convivência com a velhice. Perdemos os benefícios das poucas, más valiosas vantagens.

Por exemplo:

Exercer o direito a ranzinzice. O direito a dizer o que se pensa na cara do mal-assombrado, quando quiser, sem mediações nem arrodeio.

Exercer plenamente o direito a impaciência. Usar a surdez como proteção à enxurrada diária de bobagens.

Fazer o bom uso do enfraquecimento natural da memória, facilitadora do desapego. As boas lembranças fortalecem e a saudade nos apega à vida. Não falo do fim da memória, O fim da memória é a demência, o apagamento, a morte antecipada do espírito.

Falo dos benefícios do esquecimento seletivo.

Estive pensando em nossos asilos, hoje chamados “casas de repouso”, são desertos de solidão. Somos obrigados a conviver com gente desconhecida. Por que não pensamos em comunidades de amigos?

No Brasil, os velhos estão condenados a solidão e muitos ao desamparo e maus tratos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)