terça-feira, 19 de outubro de 2021

SERGIPE del-REY


Sergipe del-Rey.
(por Antonio Samarone)

Historicamente, Sergipe foi feudo político de meia dúzia de famílias. O Poder sempre esteve a serviço dos senhores de baraço e cutelo, os donos da capitania hereditária. Os senhores do cabau, do gado e da construção civil compõem a elite dirigente, diretamente, ou através de prepostos.

Com as chegadas de Jackson Barreto a Prefeitura de Aracaju, em 1986, e de Marcelo Déda em 2001, essa regra foi ameaçada. A primavera política rondou Sergipe tardiamente, mas não aconteceu. O sol não nasceu!

O grupo político formado em torno dessas “mudanças”, usou da astúcia lampedusiana (Tomasi di Lampedusa): “É preciso que tudo mude, para tudo continuar como estar”. Apropriaram-se do Estado e estão até hoje.

Sergipe perdeu o eixo do desenvolvimento econômico, empobreceu, por decisões políticas erradas. O documento da Fundação Dom Cabral, aponta esses erros. O documento é oficial, de responsabilidade da ALESE.

Segundo o documento, Sergipe tem 1% da população brasileira e o nosso PIB representa apenas 0,62% do PIB nacional. Entenderam? Somos 38% mais pobres que a média nacional. Esse dado é o atestado do fracasso.

Não deu certo!

Entretanto, esse grupo político que comandou a derrocada é muito forte.

A máquina pública sempre pesou nas disputas políticas em Sergipe. Quem estava no governo já entrava com 15% do eleitorado. Hoje essa máquina é absoluta: fora dela, não existe espaço político.

A máquina pública é uma grande sinecura, regiamente loteada.

A oposição em Sergipe é virtual e bem-comportada. O Senador Alessandro cuida dele, não lidera ninguém e não quer. Faz a sua política!

O bloco no Poder é soberano, quase imperial.

A força da máquina concentra-se em seu comandante, o Governador. Belivaldo Chagas pode bater no peito e repetir Luís XIV: “l'état c'est moi.”

Quem desejar disputar qualquer cargo nas eleições de 2022, precisa pedir a autorização do Governador. O Senador do PT, Rogério Carvalho, quebrou a regra, foi o maior bate boca.

Coragem Rogério, a oposição em Sergipe precisa de líderes, com projetos para o Estado.

Jackson Barreto quer ser candidato ao Senado. mas já foi alertado pelo Governador. “se for, vai sozinho”. JB ficou pensativo.

O Prefeito do Aracaju é um nome forte para o governo, sem dúvidas, mas não bota o pé na estrada, sem a ordem de Belivaldo. Ninguém bota!

Nenhum político em Sergipe concentrou tanto poder, como o Governador Belivaldo. Nem o doutor Leandro Maciel, em seu tempo. Não me perguntem os motivos. Eu não sei.

Essas disputas de bastidores são repercutidas pelos porta-vozes da Corte e se transforma em realidade virtual.

O povo luta para sobreviver, sem tempo nem vontade para acompanhar a peleja.

Sergipe é do Rei.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

O DIA DO MÉDICO

 


O Dia do Médico.
(por Antonio Samarone).

Oficialmente, comemora-se o 18 de outubro como o Dia do Médico, por ser o dia consagrado pela igreja romana a São Lucas, o evangelista. Além do evangelho, Lucas escreveu o Ato dos Apóstolos.

Segundo a tradição, São Lucas era médico. Exerceu a medicina na Antióquia (atual Síria). Viveu no século I d.C. Portanto, não conheceu Jesus, fala por ouvi dizer. Não se sabe nem a data do nascimento nem da morte.

Entretanto, os seus despojos encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos.

Sabe-se que era médico, pois na epistola de São Paulo aos colossenses, Lucas é tratado como o amado médico (4,14). Foi amigo de São Paulo. O seu evangelho é eivado da linguagem médica da época.

São Lucas ficou conhecido do público no ocidente, após a publicação do romance “Médico de Homens e de Almas”, de Taylor Caldwell.

Entretanto, a escolha de São Lucas como patrono dos médicos é bem antiga.

Eurico Branco Ribeiro, cirurgião paulista, escreveu uma obra de 685 páginas, em 4 volumes, sobre a vida de São Lucas, intitulada: “Médico, Pintor e Santo”, onde ele afirma que, já em 1463, a Universidade de Pádua iniciava o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas.

Portanto, a tradição de São Lucas como patrono dos médicos vem de longe.

No momento, a medicina brasileira passa por turbulências, por conta do compacto alinhamento partidário da categoria com o “Mito”. A tradição médica é com a diversidade, o humanismo e a tolerância.

O objetivo central da medicina é aliviar o sofrimento humano. Portanto, incompatível com adesões incondicionais.

Contudo, o saldo humanista é positivo.

Foram os médicos que estiveram na linha de frente do socorro às vítimas da Peste, no momento que o ar lhe faltava.

Salve o Dia dos Médicos!

Antonio Samarone (médico sanitarista).


domingo, 17 de outubro de 2021

QUASE MEMÓRIA

 


Quase Memória.
(por Antonio Samarone)

Totonho de Bernardino, meu avô, viveu sem nunca ter consultado um médico. Era o tempo do Carrancismo. Entretanto, a sua biblioteca possuía um exemplar, muito consultado, do Dicionário de Medicina Popular, de Chernoviz.

A biblioteca de Totonho era repleta de literatura de cordel, que ele cantava em voz alta para deleite dos netos. Eu aprendi a ler com o cordel. Lembro-me da vasta coleção de Almanaques da Biotônico Fontoura e de alguns exemplares da “Seleções do Reader's Digest”.

Não sei que fim levou esse acervo.
O Dicionário de Medicina Popular é uma obra do médico Piotr Czerniewicz (1812 – 1881), que fugiu da Polônia em 1831 após a invasão russa. Refugiou-se na França. Colou grau em medicina, em Montpellier. Em 1840, migrou para o Rio de Janeiro, em busca de fama e fortuna.

Chernoviz foi admitido na Academia Imperial de Medicina, escreveu na imprensa médica e foi amigo e protegido do Dr. Francisco Xavier Sigaud, o fundador da Academia. Mesmo assim, teve dificuldades em sobreviver da clientela, em sua clínica.

A ideia de escrever um dicionário de medicina foi a salvação. Em pouco tempo, todo fazendeiro no Brasil tinha um exemplar em casa. Chernoviz não foi um charlatão. Possuía uma sólida formação científica, para os padrões da época. Era uma personalidade intelectual, científica e moralmente respeitável.

O Dr. Pierre Louis Napoleon Czerniewiz (nome francês), retornou à França em 1855, onde montou uma editora para publicação do seu Dicionário em português, e vende-lo no Brasil. Além do Dicionário, o Dr. Pedro Chernoviz (nome brasileiro), também publicou o Guia Médico do Brasil, com os tratamentos.

Pedro Chernoviz faleceu em 1881, em faustosa propriedade campestre, em Paris.

Uma pena que deram fim ao exemplar do meu avô. Eu continuo consultando Chernoviz, para fins de pesquisa histórica. Vale a pena.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


QUASE MEMÓRIA


Quase Memória.
(por Antonio Samarone)

“Quem controla o passado, controla o futuro”. - George Orwell.

Nomear é uma forma poder. Entre as dificuldades dos pobres, achar um nome bonito para botar nos filhos é uma delas. O menino está para nascer= e os pais não sabem como chamá-lo.

Antigamente se botava o nome do Santo dia. Não existia o Google. Se usava a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus (calendário) que trazia o nome do Santo, de cada dia.

No meu caso, usando a folhinha, 15 de dezembro é dia de Santa Cristina, pouco conhecida em Itabaiana.

Como já contei, Mamãe era organizada, sempre soube que o seu primeiro filho receberia o nome de Santo Antonio. E assim foi feito.

Recebi o nome de batismo de Santo Antonio (Fernando), e nome do Santo enquanto Frade menor da ordem franciscana de Coimbra (Antonio). Ao nascer, fui Antonio Fernando. Depois, recebi a vulgar alcunha de Samarone. Essa é uma estória comprida e sem graça.

O meu amigo Luciano de Oliveirinha (Cibalena), tem insistido que eu conte essa estória sem graça. Então vamos lá...

Meu pai foi ao cartório para me registrar: Antonio Fernando de Santana. Simples, como mamãe decidiu. Mas ele não anotou (não sabia ler) e esqueceu do “Fernando” de casa para o cartório. O tabelião insistiu, Antonio de quê? E nada. Meu pai se afobou e resolveu por conta própria: deixe só Antonio. Fui legalmente registrado apenas como Antonio de Santana. Por esquecimento.

E agora? Quando mamãe soubesse botaria ele para fora de casa. Mamãe era mandona, a última cepa das matriarcas de Itabaiana. Lá, vigorava o matriarcado.

Papai só teve uma saída, não contou. Mamãe perguntou, tudo certo? E ele, tudo! Entregou o registro cheio de carimbo, dobradinho, e mamão guardou no fundo do baú. Não conferiu, mesmo porque tabelião não erra.

Me tornei, para todos, Antonio Fernando de Santana. No Beco Novo, eu era o Fernando de Dona Lourdes. O padre Heraldo me batizou como Antonio Fernando de Santana. Matriculei-me na Escola do Padre, como Fernando.

Aos 11 anos, passei no Exame de Admissão e fui me matricular no Colégio Murilo Braga. Entre os documentos exigidos constava a certidão de nascimento. Finalmente, precisei desse documento. A essa altura, mamãe já tinha parido mais dez filhos, com sete vivos.

A merda estava feita, não existia o meu registro no baú. Mamãe encontrou um nome desconhecido: Antonio de Santana. Papai saiu de casa de fininho. Mamãe teve que levar o que tinha. Será se não botaram Fernando? 0nze anos depois, papai estava perdoado.

Na hora da matrícula, a Diretora, Maria Pereira, tinha sido minha professora na Escola do Padre, e não queria aceitar o registro de Antonio de Santana. Foi muita explicação.

Resumindo, virei Antonio de Santana aos 11 anos.

Se chamar Antonio em Itabaiana é lugar comum. Como diz João Cabral: “O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria.”

Já taludo, sonhava ser jogador de futebol. Torcedor do Fluminense, cabelos aloirados, me apelidaram de Samarone. Para que mentir, eu gostei. Me livrei de Tonho de Lourdes ou de Tonhão, e ajudou a alimentar o sonho.

Daí veio a parte inconfessável. Já formado, me meti em política. Precisava ter um nome conhecido e sonoro. Procurei um advogado, Dr. Rooselvet, que mentiu para o juiz, alegou que Samarone ser apenas apelido atrapalhava o meu trabalho como médico. O Juiz, um gozador, riu e deu o veredicto no corredor.

Virei Antonio Samarone numa canetada.

A Alma continua Antonio Fernando de Santana, é nome de batismo. No Juízo Final, é assim que vou prestar conta. São Pedro não aceita nome de cartório, vale o batistério.

Antonio Samarone (médico sanitarista.