quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A AUTONOMIA DOS MÉDICOS.


A Autonomia dos Médicos.
(por Antonio Samarone)

Uma das polémicas da Pandemia foi sobre a existência ou não de tratamento precoce para a Covid-19.

O Ministério da Saúde, orientado pela crença do Presidente da República, chegou a estabelecer um protocolo, sinalizando para um Kit (cloroquina, ivermectina...). Os mais afoitos recomendavam o “Kit” até preventivamente.

Os médicos se dividiram, no geral, condicionados pela opção política pessoal. Os serviços de saúde (públicos e privados), salvo exceções, estabeleceram o “tratamento precoce”. Muita gente usou o “Kit”, preventivamente, por conta própria. O desespero desinformado.

Antes das vacinas, foi um vale tudo.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) anunciou que respeitava a autonomia dos médicos, em sua opção terapêutica.

O que é essa autonomia?

O médico tem autonomia para prescrever um medicamento fora dos usos e finalidades constantes na bula. É a chamada prescrição “off-label”.

O médico, avaliando o seu paciente, pode indicar um medicamento, em desacordo com o previsto na bula, assumindo a responsabilidade.

As prescrições off-label são muito frequentes na prática médica.

Segundo um estudo norte-americano de Radley et al., em 2001 foram realizadas 150 milhões de prescrições off-label (POL) nos EUA, constituindo 21% de todas as prescrições medicamentosas.

A Anvisa não possui competência para controlar a prática médica, onde se dá a prescrição de medicamentos. A Agência limita-se ao estabelecimento do tipo de receituário, para fiscalizar as substâncias sujeitas ao regime de vigilância sanitária.

O médico possui a liberdade terapêutica, limitando a prescrição ao interesse do doente e ao seu consentimento Informado. É essa a autonomia!

A autonomia não inclui a prescrição de medicamentos, onde existem evidências científicas da sua ineficácia. A autonomia não libera o erro médico.

A autonomia não concede ao médico competência para o estabelecimento de protocolos, de uso indiscriminado, nem de experimentação por conta própria.

A autonomia do médico só é legítima quando usada em benefício dos pacientes. Quando motivada por outras razões, sobretudo financeira e política, esta autonomia é indefensável e nefasta.

O escândalo da “Prevent Sênoir” é um exemplo.

Este grupo empresarial de São Paulo, que atende a idosos, estabeleceu o tratamento precoce em massa, utilizou medicamentos de forma experimental, falsificou prontuários, alterou a causa dos óbitos, tudo visando reduzir os custos e aumentar os lucros. Alguns médicos reagiram e denunciaram. O caso está em discussão na CPI.

Os médicos que fizeram essas prescrições, pressionados ou por convicção, tinham autonomia para essas condutas?

Quantos idosos morreram ou foram sequelados, por conta desses crimes? Haverá punições?

Mutatis Mutandis.

Os experimentos médicos de Auschwitz não se explicam apenas pela monstruosidade de Josef Mengele. Ele comandava uma equipe de 20 médicos.

A “Interessen-Gemeinchaf Farben”, conglomerado de empresas farmacêuticas formado pela Bayer, Hoechet, Basf e Agfa, entre outras, se tornaram potências mundiais, explodiram em lucros e lançaram vários medicamentos no mercado, por conta desses experimentos médicos nos judeus.

As empresas farmacêuticas financiavam os experimentos nos Campos de Concentração. A Bayer produziu e vendeu aos nazistas o Zyklon B, um gás a base de cianeto, usado nas câmaras de gás.

As empresas farmacêuticas financiaram Hitler, na campanha eleitoral de 1933. "Uma mão suja a outra."

Vários medicamentos experimentados nos Campos de Concentração, foram usados pelo Exército nazista como estimulantes. Eles recebiam porções generosas da metanfetamina - Pervitin.

A elite nazista era defensora do direito dos animais. O próprio Hitler era vegetariano e sonhava em fechar os açougues na Alemanha. Mas comandaram o holocausto.

É a banalidade do mal!

A Industria farmacêutica moderna nasceu na Alemanha. Foram eles que extraíram a morfina da papoula. Depois acrescentaram um radical acetil à molécula de morfina e criaram a heroína. Eles também sintetizaram o ácido acetilsalicílico e criaram a aspirina.

A possibilidade de experimentar novas drogas em humanos, foi um campo fértil para o crescimento dessa atividade industrial.

Uma parte foi julgada e condenada em Nuremberg.

No caso da Prevent Sênior, aguardo uma devassa e a punição rigorosa dos envolvidos.

Antonio Samarone. (médico sanitarista)


 

sábado, 18 de setembro de 2021

AS PROFECIAS DE PEDRO DEVOTO - TOMO I


As profecias de Pedro Devoto – Tomo I
(por Antonio Samarone)

Pedro Devoto era mestre na tesoura, no casear, franzir, coser, chulear e rematar. Alfaiate afamado do agreste de Sergipe ao sertão da Bahia.

Pedro dominava todos os tipos de pontos: ponto corrido, ponto duplo, ponto deitado, ponto de casamento, ponto atrás, ponto direito, ponto cobertor e ponto espinha.

Além de bons ternos, mestre Pedro era especializado em batinas. Vinham padres de longe, encomendar batinas em Itabaiana. Havia um detalhe, ele se acanhava em cobrar à padres. Como somente os padres usavam batinas, só pagava quem quisesse.

A vingança de Pedro Devoto era fofocar aonde chegasse: “sabe aquele padre de Jeremoabo? É velhaco até a alma.”

Conheci Seu Pedro Devoto bem velhinho, baixo, invocado, estabelecido à Av. Rio Branco, vizinho a farmácia de Oliveirinha.

Na entrada do seu “atelier” tinha uma pequena escadaria, onde eu me sentava de vez em quando, para ouvir as suas tiradas filosóficas. Ele preferia chamar de profecias laicas.

Pedro Devoto portava com frequência um solidéu preto, próprio dos abades. O solidéu do Papa, como se sabe, é branco.

Pedro Devoto nunca se interessou por política. Ele não acreditava em um futuro melhor. “O bom já passou”, falava Pedro. Ele não acreditava no progresso, dizia ser uma propaganda do iluminismo, uma tapeação da burguesia francesa.

Pedro Devoto era um conservador ilustrado, um Steve Bannon de província. Um autodidata, que devorou a biblioteca paroquial. Um homem cético, por princípio.

Pedro guardava na gaveta da máquina de costura, um livro desencapado de René Guénon, “La crise du monde moderne”. O livro era escrito em francês e foi surrupiado da biblioteca da igreja. Para quem não lembra, Guénon é guru de Olavo de Carvalho.

“O passado é o nosso futuro!” Era o axioma predileto de Pedro Devoto.

Ele achava que o tempo é cíclico, e sempre retorna. Existe a idade de ouro, dos sacerdotes; a idade de prata, dos guerreiros; a idade de bronze, dos comerciantes e a idade das sombras, dos escravos.
Pedro Devoto foi, ao seu tempo e na sub periferia do mundo, um tradicionalista.

Rememorando as profecias de Pedro Devoto, percebo as origens dos discursos políticos atuais. A direita populista tenta se apropriar superficialmente da doutrina tradicionalista.

Prometo continuar puxando pela memória e contar parte do que ouvi de Pedro Devoto e, por não entender, achava que o mestre alfaiate delirava, em suas profecias.

Hoje, suponho que Pedro era um tradicionalista de poucas leituras, mas que assimilou o essencial da exótica doutrina. Pedro era visto em Itabaiana como um “esquisitão”.

Em tempo: Benito Mussolini também foi um admirador do pensamento tradicionalista.

Entretanto, para que não pensem que estou associando Pedro Devoto ao fascismo, ele nunca vinculou as suas crenças mal assimiladas a nenhuma ideologia política.

Em Itabaiana, a política era um conflito entre coronéis, na disputa comercial pelo controle dos armazéns de secos e molhados (futuros supermercados).

A política era um vale tudo e a ideologia, comandada pelo bolso.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A MORTE É UMA FESTA.


A Morte é uma Festa.
(por Antonio Samarone)

Como durante as guerras, as Pestes obrigam as pessoas a conviverem com a morte.

A pandemia quebrou uma tendência secular. O ocidente tinha se distanciado da morte. A sociedade tenta “domar” a morte, prefere não falar neste assunto. Fingimos que a morte não existe.

As pessoas desaparecem, passam, vão para uma melhor, e não falamos mais sobre elas. Conversaremos mais tarde, quando tivermos esquecido que elas estão mortas.

Por outro lado, a morte provoca um misto de medo e fascínio.

A notícia da morte do outro causa um alívio secreto e um pensamento brota espontâneo: “ainda bem que eu continuo vivo”. Muitas lamentações são falsas. Os pêsames, no geral, são formalidades.

As mortes individuais são sentidas pelas vítimas com acidentes, ataques ou doenças que ainda continuam a derrotar a medicina. Não existe a morte natural! O inconformismo é geral: “por que eu?

“Todos os homens são mortais, mas para cada um à sua morte é um acidente e, mesmo que saibam e consintam, uma violência inusitada.” – Simone de Beauvoir.

A pandemia trouxe a morte para vida cotidiana.

Como conviver com as mortes pandêmicas sem sustos nem espantos, com naturalidade? Como a sociedade pôde habituar-se a tantas mortes?

As providências para o esquecimento foram tomadas.

A Saúde Pública alegou razões sanitárias para esconder os mortos. Determinou o sepultamento imediato, sem velório ou despedida. O sofrimento foi limitado a família e aos mais próximos. A morte foi transformada numa estatística diária divulgada ao final da tarde.
Sem a imagem do morto e com a proibição dos rituais da morte a sociedade foi anestesiada, minimizando o impacto da Peste.

Apenas os sepultamentos em valas comuns chocavam. A memória atávica, nestes casos, trazia o medo.

A divulgação do número de mortos era concentrada em pessoas mais velhas e com patologias. O poder público divulga a relação diária dos mortos sem nominá-los, impessoalmente, e exagerando na situação de fragilidade deles: velhos e doentes. Muitos pensavam: “Eu não sou como aqueles que estão morrendo, não corro tanto perigo.”

A minha escola primária liberava os alunos para acompanharem os sepultamentos dos “anjos”. A elevada mortalidade infantil era naturalizada com a transformação das crianças em “anjos”. Não havia tristeza, nem dos pais.

No caso da Pandemia, houve muito medo no início, onde não havia respiradores suficientes e as UTIs estavam lotadas. A criação de novos leitos de UTI, mesmo precários, reduziu esse pavor. A certeza de uma morte assistida, sem a falta do oxigênio e indolor foi um grande paliativo.

As narrativas sobre a Pandemia foram meticulosamente construídas e divulgadas pedagogicamente pela imprensa. Mesmo nessa reta final, cada gestor apresenta-se como o “pai” da vacina e como o grande responsável pelo declínio da pandemia.

Sem eles, “cuidando da gente”, a Peste seria eternizada.

Mesmo com a manipulação, a pandemia trouxe mudanças nas consciências: deixou claro a nossa vulnerabilidade aos fenômenos naturais, a limitação da ciência e da medicina, a incapacidade das organizações políticas e sociais e a permanência da irracionalidade das pessoas diante dos imprevistos.

Na ausência de um tratamento eficaz, condutas fantasiosas foram prescritas, até por profissionais bem formados, e adotadas. no desespero, por muitas vítimas. Os profetas do “kit cloroquina” silenciaram!

Os fatos estão sendo parcialmente apurados, para a necessária responsabilização criminal, pelo menos, dos mal-intencionados e dos que lucraram com essa especulação.

A boa fé deve ser perdoada!

Antonio Samarone (médico sanitarista)