terça-feira, 22 de junho de 2021

GENTE SERGIPANA - VITAL JOSÉ DA LAPA


Gente Sergipana – Vital José da Lapa (1899 – 1981)
(por Antonio Samarone)

Vital José da Lapa nasceu em 15/01/1899, no Sobrado, à época, município de Itabaiana. (hoje, Macambira). Filho de camponeses. Logo cedo estabeleceu-se com um armazém de secos e molhados, em Itabaiana.

Vital da Lapa era casado com Dona Juvência Emília da Lapa (Dona Sinhá). Casaram-se em Macambira, em 06 de fevereiro de 1923. Constituíram uma família numerosa: 6 homens – Antonio, Manuelino, Cosme, José, Ataíde e Alonso; e 7 mulheres – Veronica, Madalena, Bernadete, Maria de Lourdes, Julia, Cecília e Josefa.

Na vida política, Vital da Lapa foi Vereador em Itabaiana, e acompanhava Manoel Teles, líder local do PSD.

A chegada da UDN ao poder em Sergipe (1955), ocorreu a ascensão política de novos ricos (fazendeiros e comerciantes) não nascidos de famílias oligarcas, dos donos do cabau e dos engenhos.

Em Itabaiana, a ascensão do líder udenista, foi um caso típico. Euclides Paes Mendonça era a maior liderança da UDN no Interior.

Após a vitória de Leandro Maciel (1955), “o emprego mais rendoso no Brasil será o de coveiro em Sergipe”, disse Adauto Cardoso, um liberal da UDN, citado por LEC, em seu livro.

Euclides Paes Mendonça foi um exemplo do “novo” Coronel. Líder de origem humilde, filho de pequenos camponeses da Serra do Machado, que por talento e ousadia assumiu o comercio de secos e molhados do agreste sergipano e virou o chefe político. A ordem pode ter sido inversa.

Um líder sem limites, que quando se viu acobertado pelo poder público, excedeu-se em violências e abusos. Botou famílias tradicionais de Itabaiana, que não se submetiam aos seus caprichos, para correr da cidade.

A UDN usou e abusou da mesma violência dos tradicionais senhores semifeudais, que dominavam o latifúndio açucareiro em Sergipe.

Vital da Lapa teve o seu corpo martirizado, silenciado, o rosto marcado com as brasas de um charuto, exposto como espetáculo, para servir de exemplo e amedrontar os demais insubmissos.

O líder da UDN não mandou terceiros, não transferiu o serviço para os jagunços, ele próprio, apagou um charuto no rosto de Seu Vital da Lapa.

Vital da Lapa foi intimado a comparecer no armazém do Coronel, onde lhe foi feita uma exigência: ele precisava de mudar de lado, deixar o PSD e apoiá-lo. Naquele tempo a proposta era uma afronta e não foi aceita.

Após gritos e desaforos, ameaças e xingamentos, Euclides Paes Mendonça cravou um charuto aceso na face esquerda de Vital da Lapa. Ferrou um adversário político, como se ferra um boi no pasto.
Aquele cidadão, de família descente, gente nascida e criada em Itabaiana, com a admiração e respeito daquela sociedade rural, gente que venceu no comercio, com o seu sortido armazém, sem precisar dos contrabandos e da violência, foi publicamente martirizado.

A dor era usada como meio de dominação política, mesmo assim, a dor moral suplantou a dor física. Vital da Lapa foi abatido pela humilhação.

Euclides sabia que não dobraria Vital da Lapa só na pancada, por isso apelou para a humilhação. Nasci e cresci em Itabaiana ouvindo essa história.

Vital da Lapa além de Vereador do PSD (“rabo-branco”), politicamente ligado a Manuel Teles, era um comerciante bem-sucedido. Talvez essa concorrência comercial, deixasse Euclides mais aborrecido que a simpatia política da vítima.

Vital da Lapa sempre fez uma oposição respeitosa a Euclides Paes Mendonça, como era regra naqueles tempos. A maior ameaça de Seu Vital era o seu bem-sucedido armazém, bem localizado, que disputava o mercado com quem queria o monopólio.

A guerra política em Itabaiana na década de 1950, era a consequência da guerra comercial, e controlar o fisco era uma arma decisiva. O contrabando permitido, desequilibrava a concorrência comercial.

Depois do rosário de perseguição do fisco, humilhações, violências, ameaças de morte, Seu Vital da Lapa resolveu ir embora.

“Corpos martirizados são insígnias do Poder. A dor é um meio de dominação” – Chu-Han

Em 1958, Vital José da Lapa vendeu o que tinha, desarrumou a vida, e partiu para recomeçar a vida em terras estranhas, com o intuito de criar os seus filhos com dignidade. Mudou-se para São Caetano do Sul, São Paulo, e os seus descendentes por lá continuam.

Ele não gostava de relembrar a face queimada por um algoz violento, covarde, impiedoso, para não entristecer a família. Vital da Lapa não pode ser apagado da memória dos que lutam por justiça.

Itabaiana foi a sua grande saudade. Morreu amando a sua terra, de onde foi expulso pela brutalidade política da UDN.

Vital da Lapa, um homem alegre, bem-humorado, contador de estórias, politizado, digno, voltado para a família, precisou migrar para terras distantes.

Vital José da Lapa faleceu em 27 de outubro de 1981, aos 82 anos, em São Caetano, São Paulo.

A minha homenagem aos que resistiram dignamente à violência política, sem transigir.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 20 de junho de 2021

MWMÓRIAS DE UM CRIME, JORNALISMO OU LITERATURA?


“Memórias de um Crime”, Jornalismo ou literatura?
(por Antonio Samarone).

O jornalista Ancelmo Gois considera “Memórias de um Crime”, o livro de Luiz Eduardo Costa, uma obra prima da literatura policial.

Eu acho que é um pouco mais. O assassinato de Carlos Firpo é apenas o pano fundo.

Memórias de um Crime é a memória de uma Era da vida sergipana. Comecei a leitura com a curiosidade de saber quem mandou matar o doutor, logo, nas primeiras páginas, percebi que isso era de menor importância.

Todos os suspeitos podem ser os culpados e todas as versões são possíveis. O livro é bem maior do que o enredo de um crime.

O livro é um desenho detalhado da vida sergipana, na segunda metade do século XX. Um retrato sem retoque da mesquinhez provinciana.

O livro trata da violência política e policial, da jagunçada, da pobreza dos trabalhadores e da obscura elite que mandava no estado.

Ou ainda manda?

Aprendi no ginásio em Itabaiana, com o professor José Costa, que a boa literatura é uma forma de se contar a história de uma civilização. O que sei da história de Portugal do século XIX, aprendi nos livros de Eça de Queiroz.

A polêmica se o livro de Luiz Eduardo Costa é jornalismo ou literatura é bizantina, puro pedantismo acadêmico. É literatura refinada, ouro em pó, uma joia de sensibilidade artística.

Apreciem essas passagens:

“A mulher (Milena, a esposa) vestia um robe escuro sobre a alva camisola de dormir. Cabelos soltos, quase desgrenhados, agitava-se em movimentos desconexos e balbuciava palavras ininteligíveis.”

Em outro trecho:

“Dr. Firpo, que tinha estatura avantajada, estava estendido de costa sobre a larga cama de casal, e protegia com as mãos o ventre volumoso, de onde o sangue jorrava e empapava os lençóis brancos, formando uma mancha escarlate. Arquejava agoniado, tentava falar, o sangue gorgolejava na sua boca.”

Luiz Eduardo Costa é o melhor texto do jornalismo sergipano, entre os vivos. Um intelectual orgânico (no conceito de Gramsci) do povo sertanejo.

Sergipe foi berço de grandes jornalistas: Joel Silveira, Luiz Antonio Barreto, Orlando Dantas, Ancelmo Gois, Fernando Sávio, Ivan Valença, Célio Nunes e Luiz Eduardo Costa foram os mais notáveis.

Pela pressa, posso estar esquecendo um ou outro.

O livro de Luiz Eduardo Costa é impiedoso com Aracaju:

“Em abril de 1958, quando aconteceu o crime da Rua de Campos, Aracaju era acanhada, bisonha e desenxabida, capital de um estado extremamente pobre...”

“Aracaju terminava ao sul, pelos fundos da Igreja São José, na Praça Tobias Barreto, que era um descampado, depois, começavam os extensos manguezais... Pelo lado oeste da cidade, pouco além do Hospital de Cirurgia, um morro de areia branca demarcava o limite de Aracaju de 1958.”

“Á noite, por volta das nove horas, depois eu tocava a corneta do Quartel de Polícia, Aracaju mergulhava num profundo silencio, e podia-se ouvir o silvar característicos dos bandos de paturis que passavam voando, buscando os alagados em torno da cidade.”

Luiz Eduardo não põe panos quentes, descreve os personagens da vida pública sergipana com dureza e precisão. Contribui para estremecer a hipocrisia de boa parte dos cronistas e historiadores.
Memorias de um Crime é um livro precioso, um raio X implacável da vida provinciana em Sergipe. E ainda conta os detalhes do assassinato de Carlos Firpo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

SENHORES DE BARAÇO E CUTELO


Senhores de Baraço e Cutelo.
(por Antonio Samarone)

O poder político em Sergipe, obedece a uma forma de dominação que se repete na história. A fragilidade econômica do estado, leva a uma hipertrofia da força política da máquina pública. Quem está no poder quase sempre faz o sucessor.

Talvez não seja apenas uma lógica sergipana. No Brasil também é assim. Após a redemocratização, o Presidente que disputou a reeleição, venceu.

Em Sergipe, as raras vitórias da oposição ocorreram após um longo domínio do grupo no poder e por sua divisão. As dissidências sempre nasceram da divisão do bloco dominante.

O sistema de mando é blindado, para que não haja grandes surpresas.

Com o fim da ditadura (1982), um bloco liderado por João Alves governou Sergipe por 24 anos.

Em 2006, com o discurso de mudanças, o PT, liderado por Marcelo Déda, chegou ao poder em Sergipe. De imediato, formou-se um bloco político, que está no poder a 15 anos.

Mandam e desmandam. Controlam um poder quase imperial.

Em Sergipe, a oposição política é residual, quase simbólica. A imensa maioria dos líderes possui lotes de poder na máquina.

Desconheço um Prefeito abertamente de oposição. Quem botar as caras será sufocado. Esse bloco unido é praticamente imbatível.

Em Sergipe, toda a bancada federal apoia o governo do estado. Caso único, na Federação.

Na Assembleia Legislativa, existe uma pequena oposição bem-comportada. E só!

Ocorre, que a sociedade sergipana cansou.

Esse bloco dominante levou Sergipe a estagnação econômica e ao retrocesso social. Nenhuma esperança, nenhum projeto, Sergipe ficou sem alternativas.

A máquina funciona apenas para o benefício dos seus operadores e mantê-los no poder. O estado se distanciou muito da sociedade.

Claro, o bloco no poder em Sergipe é um saco de gatos. Profundamente heterogêneo. As possibilidades de esfacelamento são reais.

Qualquer fração politica que rompa, com um projeto alternativo consistente, com uma nova narrativa, tem chances de vitória.

Em tempo: as eleições estaduais sofrerão profunda influência da polarização nacional, já estabelecida.

Vamos aguardar...

Antonio Samarone. (médico sanitarista)