quarta-feira, 17 de junho de 2020

A PANDEMIA DE GRIPE ESPANHOLA EM SERGIPE.


A Pandemia de Gripe Espanhola em Sergipe – 1918 
(por Antonio Samarone).
Entretanto, o ciclo das grandes epidemias ainda não havia terminado em Sergipe. Em outubro de 1918, durante as festas de posse do novo Presidente do Estado, Coronel José Joaquim Pereira Lobo, Sergipe é violentamente atacado pela epidemia de gripe espanhola.
Essa foi a última epidemia a manifestar-se em Sergipe no estilo “pestilencial”, dizimando e aterrorizando as pessoas, e com o poder público e a medicina agindo quase tão somente na minimização das consequências sobre os indigentes.
A saúde pública, nesse período, já estava mudando as suas preocupações, começando a priorizar as endemias rurais, principalmente aquelas que atingiam a força de trabalho.
Em 20 de outubro de 1918, desembarcam do “Vapor Itapacy” seis pessoas contaminadas pelo referido mal. Logo que a informação chegou ao conhecimento do Diretor de Higiene, essas pessoas foram removidas para o Lazareto Público, mas já era tarde.
Em 04 de novembro, o mal já havia se espalhado pelo Estado, sendo a primeira vítima fatal Georgina de Jesus, negra de 25 anos e residente na rua de Campos, em Aracaju.
O Governo tomou todas as providências que a sua estrutura permitia: criou o “Serviço de Combate à Gripe Espanhola” e entregou a coordenação ao Dr. Eronides de Carvalho.
Convocou, para fazer parte do serviço, todo o pessoal médico ligado aos serviços públicos, ou seja, os Drs. Octaviano Melo, Diretor de Higiene; Pimentel Franco, Diretor da Assistência Pública; Carlos Menezes, Diretor do Gabinete de Identificação e Estatística e Médico legista da Policia; Álvaro Telles de Menezes, médico da Prefeitura e Alexandre Freire, Diretor do grupo Escolar “General Valladão”.
Além do seu pessoal, comissionou ainda os Drs. José Francisco da Silva Melo, médico, e Durval Madureira Freire, João Alfredo de Marsillac Motta, José Alves Tavares e Pedro Garcia Moreno, farmacêuticos, e Francisco Accioly Sobral, cirurgião-dentista.
O Presidente recorreu à Assembleia Legislativa pedindo liberação de recursos para enfrentar o problema. Em 08 de novembro, a lei n.º 765 abre créditos especiais de 10 contos de réis para o combate à epidemia e, poucos dias após, em 16 de novembro, a gravidade e velocidade de expansão da doença obriga a aprovação de uma nova lei, a de n.º 766, abrindo créditos de cem contos de réis para o mesmo fim.
A previsão orçamentária do Estado para o ano de 1918, destinava à rubrica Higiene e Saúde Pública pouco mais de 33 contos de réis.
Diante das deficiências do Poder Público para enfrentar a epidemia, a sociedade reagiu de forma inusitada: pela primeira vez, em Sergipe, a população se mobiliza para enfrentar um problema de saúde. Entidades, empresas, clero, instituições beneficentes movimentaram recursos e pessoas para enfrentar a epidemia.
A loja Maçônica “Cotinguiba” assumiu a responsabilidade pela assistência da área que ia da rua Barão de Maruim até a localidade denominada “carro quebrado”. A Maçonaria entregou a coordenação dos trabalhos ao professor José de Alencar Cardoso, e contratou o Dr. Berílio Leite para realizar os trabalhos clínicos. 885 doentes foram atendidos pela loja maçônica, com 19 óbitos.
Importante também foi a participação da Associação Comercial, responsável pelas ruas Divina Pastora, Bonfim, Socorro, Vitória, Desaperta, Topo e Ignácio de Loyola.
A entidade comercial contratou os serviços clínicos do Dr. Álvaro Teles de Menezes e atendeu a um total de 795 doentes. O Posto de Santo Antônio atendeu 1.200 doentes e ficou sob a responsabilidade do padre Abílio Mendes, de Garcia Rosa e Silvério Fontes e os serviços clínicos entregues à farmacêutica Cesartina Regis.
Participaram também no combate à epidemia a Cruz Vermelha (320 doentes), Hospital Santa Isabel (50 doentes), quartel do 41.º Batalhão de Caçadores (352 doentes), fábrica Confiança (382 doentes), fábrica Sergipe Industrial (763 doentes), Escola de Aprendizes de Marinheiros (72 doentes), quartel de polícia (77 doentes), cadeia pública (83 doentes), Compagnie des Chemins de Fer (123 doentes) e Lazareto Público (32 doentes).
O atendimento consistia, basicamente, na distribuição de medicamentos entre a população indigente, distribuição de alimentos ou dinheiro, desinfecção das casas onde ocorriam óbitos e na remoção dos cadáveres.
O tratamento usado para enfrentar a gripe era um purgativo, óleo de rícino ou água laxativa vienense, um antitérmico, cápsula de aspirina, pyramidon ou antipyrina, e um xarope de alcatrão. Para desinfetar as casas usava-se creolina, alcatrão e gás sulfuroso, como também se queimava alcatrão nas ruas e praças.
“Em noite de 03 de dezembro de 1918, ordenei que se queimasse alcatrão nas praças Tobias Barreto e na do mercado, bem como nas ruas de Estância, Laranjeiras, São Cristóvão, Tôpo, São José, Estrada Nova, Alecrim, Geru, Divina Pastora, Bonfim, Victória e São João.”
Apesar da elevada mortalidade, a maior parte dos casos de gripe eram benignos, agravados pela extrema miséria de grande parte da população.
A parte mais importante do atendimento era assistência social, exacerbado durante as crises epidêmicas, uma vez que o medo do contágio para os ricos e remediados estimulava esse tipo de prática, por parte do Estado, e despertava o adormecido sentimento filantrópico de uma parte da sociedade.
As condições sanitárias só eram consideradas como graves durante as crises epidêmicas; as doenças endêmicas e crônicas que matavam lentamente a população pobre (gastroenterites, tuberculose, sífilis, lepra, desnutrição), desde que não ameaçasse as elites, eram vistas com naturalidade e resignação. Esse ofício do Delegado de Higiene de Japaratuba, farmacêutico Helvécio Campos, ao Diretor da Saúde Pública demonstra muito bem o caráter de “assistência social” do atendimento:
“Solicito a Vossa Excelência em prol dos indigentes aqui atacados pela gripe espanhola algum auxílio. São numerosos os casos verificados e o pequeno auxílio em dinheiro que a Intendência tem prestado, dentro do seu limitado orçamento, é insignificante. Os povoados São José da Catinga, Marimbondo, Aguada e mesmo Pirambu estão em completo abandono, sendo neles extrema a pobreza. Rogo a Vossa Excelência providências como melhor julga.”
Como demonstração da importância do atendimento prestado pela sociedade civil em Aracaju durante a epidemia, a Diretoria de Higiene, ou seja, o Poder Público, atendeu 2.790 doentes, enquanto as organizações não governamentais atenderam 4.488, ou seja, quase o dobro do Estado.
O número de casos registrados e o número de óbitos da epidemia de gripe espanhola, segundo o relatório de 1919, do Presidente Pereira Lobo à Assembleia Legislativa, foi o seguinte:
Casos e óbitos por gripe espanhola em Sergipe, no ano de 1918:
Aracaju 7.974 casos e 229 óbitos; São Cristóvão 408 – 22; Itaporanga 218 – 06; Salgado 646 – 24; Boquim 615 – 28; Estância 2.150 -77; Arauá 250 – 10; Riachão 303 – 10; Vila Cristina 363 – 12; Santa Luzia  442 – 06; Espírito Santo - 50; Itabaianinha 728 – 21; Lagarto 3.000 – 90;  Anápolis 136 – 06; Itabaiana 1.700 – 120; Riachuelo 195 – 24; Divina Pastora 42 – 01; Santa Rosa 53 – 02; Campo do Brito 800 – 45; Laranjeiras 1.365 - 62; Maruim 916 - 22; Socorro  482 - 24; Dores 600 - 17; Capela 400 - 16; Propriá 1.125 – 52; Porto da Folha 825 - 65; Gararu 123 - 06. Total de 25.910 casos notificados e 997 óbitos.
Fonte: Relatório do Presidente do Estado, Pereira Lobo, à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1919.
Como se percebe na tabela acima, foram notificados 25.910 casos e 997 óbitos durante pouco mais de 3 meses que durou a epidemia em Sergipe.
Aqui, os dados também foram contestados, inclusive pelo próprio chefe do combate, Dr. Eronides de Carvalho, que em seu relatório, já citado nesse trabalho, afirma que o número de casos deve ter sido bem superior devido a duas razões principais: os serviços de registros não eram merecedores de fé e só eram registrados os casos que se verificavam em indigentes que precisaram do socorro público.
O que ficou demonstrado é que Sergipe, pelo menos até o ano de 1919, ainda não tinha como enfrentar as epidemias. As ações eram improvisadas.
Nesse caso da gripe espanhola toda rede escolar foi fechada, como várias outras instituições coletivas. O que ficava cada vez mais claro era a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de higiene e saúde pública.
O tema passou a ser amplamente discutido pela sociedade, mesmo porque, surge também em Sergipe a preocupação com a proteção da força de trabalho. Uma publicação do Delegado de Saúde de Estância, Dr. Jessé Fontes, defendendo a criação da “Liga Pró-Saneamento”, deixa esse ponto de vista muito claro:
“Do que adianta o Governo Federal pedir que se intensifique a produção agrícola, e que aproveita o Governo do Estado em distribuir sementes a granel, quando os nossos agricultores lutam com a falta de braços para a lavoura, e os poucos que possuem se acham invalidados pela doença, e suas inseparáveis companheiras, a miséria e a fome.”
O que percebemos é que no final desse período, os problemas de saúde começam a receber um novo enfoque. A visão pestilencial, representada pelas grandes epidemias dizimadoras de uma população indefesa e aterrorizada, ignorava as precárias condições de saúde do dia-a-dia, a desnutrição, as doenças crônicas (lepra, tuberculose, sífilis, amarelão, diarreias, etc.) e a morte precoce.
A preocupação central da saúde pública era o contágio das classes dominantes, durante as epidemias e, até certo ponto, com a carência de mão-de-obra no pós Pandemia.
A mudança que começa a se manifestar é a valorização das endemias rurais, do saneamento, do trabalho permanente da saúde pública, como fator indispensável ao desenvolvimento.
A higiene passa a ser vista como fator fundamental para o aumento da produtividade do trabalho. A figura do “Jeca Tatu”, pobre, indolente, improdutivo é atribuída à opilação, ou seja, a uma doença; isto significa que as ações sanitárias que eliminam as doenças passam a ser vistas como necessárias ao desenvolvimento econômico.
Essa ideologia chegou rapidamente a Sergipe.
Antonio Samarone.

ARACAJU PRECISA DOS MÉDICOS CUBANOS?


Aracaju precisa dos médicos cubanos?
(por Antonio Samarone).
A cidade está desprotegida. A Peste anda à vontade.
Venho cobrando medidas sanitárias de combate a Pandemia em Aracaju, sem sucesso. A Prefeitura ignora as sugestões. Num ato de soberba, o Prefeito não toca no assunto, nem para dizer que eu estou errado.
A revista Veja noticiou ontem que o Ministério da Saúde recontratou 523 médicos cubanos, dentro do programa “Médicos para o Brasil” (o antigo Mais Médicos), para suprir a alta demanda por atendimento causada pela pandemia de coronavírus.
Esses médicos cubanos estão entre os cerca de 1.800 que permaneceram no país apesar do fim da parceria entre os governos brasileiro e cubano, o que tornou inválida a brecha que os permitia atender pacientes sem a validação do diploma estrangeiro.
Como a Prefeitura de Aracaju desmontou as ações de Saúde Pública, uma alternativa nesse momento de Pandemia, seria a contratação de médicos cubanos, como fez a Itália, gente preparada em trabalhos comunitários de saúde.
Edvaldo Nogueira, os médicos cubanos podem ser uma saída para quem não tem saídas. A população aracajuana não pode é permanecer desprotegida.
Creio que as entidades médicas entenderão a urgência da Peste. Estou falando em médicos para a atuação em Saúde Pública. Aracaju precisa montar as brigadas emergenciais, para enfrentar a Pandemia, e não sabe como.
Prefeito, não se deixe dominar por preconceitos ideológicos, nem por sua nova devoção ao mercado. Quem erra, reconhece o erro, e conserta, procura novos caminhos.
Humildade nunca é demais, a Saúde Pública em Aracaju precisa de ajuda.
Cuba possui a Brigada Henry Reeve, que atua há 15 anos, formada por profissionais da saúde especializados em situação de desastres e epidemias graves. Há mais de 20 equipes da brigada em atuação contra a covid-19 no mundo. Quase dois mil profissionais formados em Cuba compõem esses esforços.
Essa semana eles chegaram ao Peru. Não são sábios da medicina. Não são peritos em tecnologias sofisticadas. São profissionais experientes e dispostos a ajudar os mais vulneráveis.
Não é hora de disputas ideológicas.
Dezenas de nações da América Latina e Caribe se reuniram virtualmente para iniciar uma onda de solidariedade continental à concessão do Prêmio Nobel da Paz para a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos.
Precisamos de médicos na saúde público, para juntar-se aos nossos abnegados médicos de família. Sem uma rede básica forte e atuante, a Pandemia não tem hora para acabar.
Não aceito o consolo, que os senhores improvisaram "leitos de UTI", para que as pessoas possam morrer assistidas. Não! Quero ações de combate a Peste, para reduzir a taxa de contágio.
Se o senhor não concordar, nos apresente uma alternativa, com urgência.
A Peste corre solta em Aracaju. (16.310 casos notificados, com 364 óbitos)
Antonio Samarone.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A SOCIEDADE ESTÁ DESPROTEGIDA


A Sociedade está desprotegida!
(por Antonio Samarone)
O Governo encontra-se numa enrascada, fechou o comércio há 90 dias e não sabe como voltar a normalidade. Os Decretos se sucedem, sem apontar saídas.
O Plano apresentado ontem é um sarapatel de bobagens. Para ser cumprido, exige mudanças comportamentais improváveis. A vida não muda por decretos.
O decreto é um rosário de exigências, com etapas coloridas: façam isso, façam aquilo! Ao Poder Público cabe apenas vigiar e punir.
No final uma novidade, uma autocrítica, o documento recomenda aos municípios que façam a sua parte. O decreto sugere que os municípios iniciem:
“A instalação de “batalhões de saúde” destinados à realização de busca ativa de casos positivos e comunicantes, com incentivo à massificação de testes da população e novas estratégias de rastreamento e isolamento de pacientes.”
Essa é a única maneira de abrir a economia sem aumentar as taxas de contágio. Atualizar e fortalecer o sistema de saúde pública (testes, rastreamento, isolamento, monitoramento) para quando o fechamento for aliviado, os casos não aumentem.
Aracaju vai cumprir essa recomendação? Claro que não!
Na atual gestão de Edvaldo, as ações de saúde pública foram esquecidas, a rede básica fragilizada, as equipes de saúde da família desmontadas. O Prefeito deixou de acreditar no serviço público.
A Saúde de Aracaju apostou na terceirização dos recursos humanos e na privatização. Edvaldo chamou de modernização inteligente dos serviços. Lembram-se, Aracaju virou uma cidade inteligente.
Agora Aracaju precisa do envolvimento da atenção primária e não tem. Sem os agentes comunitários e de endemia, sem os médicos de famílias, sem as enfermeiras, assistentes sociais, psicólogos, técnicos e auxiliares de enfermagem. Sem recursos humanos não se faz saúde pública.
A saúde pública não se compra no mercado. E agora José?
A população foi abandonada, desprotegida, entregue à própria sorte. A essa altura, com o vírus disseminado, somente ações de vigilância epidemiológicas, com isolamento dos infectados, pode amenizar a desgraça e o medo.
As ações de busca ativa devem utilizar o aplicativo “Monitora Covid”, elaborado pelo Comitê Científico do Nordeste. E montar uma parceria imediata com a comunidade. É o que deveria ter sido feito desde o começo.
O isolamento social era uma emergência, para evitar-se o colapso da rede assistencial. A Saúde Pública precisava fazer o que sabe e sempre fez, em qualquer epidemia. A surpresa: em Aracaju ela tinha sido desmontada.
Sem o envolvimento da sociedade, sem a participação, a ajuda de igrejas, entidades de classe, associações comunitárias, não sairemos dessa encruzilhada tão cedo.
A arrogância do “fiquem em casa” que a gente resolve é fake. Senhores governantes, vocês não estavam à altura da gravidade da Peste, “fiquem em casa”.
Manter o comercio fechado a essa altura é uma resposta política de quem não sabe ou não quer fazer a sua parte.
Vocês imobilizaram a sociedade. Caímos numa armadilha.
Sem uma ação efetiva da Saúde Pública, estamos condenados ao confinamento eterno. Quem sair corre riscos, o vírus pega.
Vocês nos impuseram a imunização de rebanho.
A taxa de contágio explodiu em Sergipe, mesmo com o comércio fechado. Começamos junho com 7.233 casos e 166 óbitos, dobramos em 15 dias, ontem chegamos a 15.675 casos e 352 óbitos. O Poder Público foi omisso, incapaz de tomar as medidas necessárias e urgentes para conter a doença.
A Peste corre solta em Sergipe.
Antonio Samarone (médico sanitarista)

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A PANDEMIA EM ARACAJU


A Pandemia em Aracaju.
(por Antonio Samarone)
O isolamento social continua protegendo aos que aderiram, mas não funcionou como estratégia de combate a Pandemia em Aracaju. Tivemos um isolamento discreto.
Agora que a Peste corre solta, começou a guerra de narrativas. O que deu errado? As autoridades e parte da imprensa culpa o povo, que não obedece às orientações higiênicas.
O Governador Belivaldo diz de boca cheia: eu fiz a minha parte!
Ontem, o Prefeito de Aracaju convocou a polícia, montou uma blitz nas Praias, acompanhado de câmaras e microfones, para mandar o povo embora. O objetivo era repassar a imagem de responsabilidade, preocupação, e mostrar a sociedade que está fazendo a sua parte.
As autoridades sergipanas não podem acusar o Governo Federal, depende das verbas. Sobrou para o povo, como sempre.
Tem gente que não cumpre as regras de higiene porque não pode. Mas, tem aqueles que não cumprem por desleixo, ignorância e irresponsabilidade.
Esses existem, não se pode negar. Aproveitando-se desse fato, as autoridade procuraram repassar a responsabilidade pela desgraça para o povo em geral.
É exagero, mentira e fraude atribuir a culpa pelo descontrole da Pandemia a esses desleixados. As causas são outras. Os culpados são outros! Esses “desleixos”, inclusive, só acontece por falta de ações adequadas do poder público.
A Imprensa saiu dos cemitérios e foi às ruas de comércio e shoppings, para mostrar as aglomerações e as pessoas sem máscaras. Uma cobertura subliminar, para reforçar a culpa das vítimas.
Só faltam dizer: vocês estão vendo quem são os culpados?
Uma pergunta necessária, em Aracaju, o Poder Público está cumprindo a sua parte?
Eu respondo, não! Longe disso.
Os estudos epidemiológicos apontam dois fatos como os principais responsáveis pela disseminação da pandemia em Aracaju:
1. As aglomerações nas filas da Caixa Econômica, durante o pagamento da primeira parcela da ajuda emergencial;
2. A negligência da Prefeitura de Aracaju com o isolamento das pessoas infectadas.
Existem hoje em Aracaju, pelo menos 2.879 pessoas transmitindo ativamente a doença. São pessoas que procuraram as Unidades de Saúde da Prefeitura, foram testadas positivas, como eram casos leves, foram mandadas para casa.
Essas 2.879 pessoas são focos de transmissão conhecidos pela Prefeitura. O “controle” está sendo feito por telefone. Um funcionário liga diariamente para saber como o infectado se encontra. “E aí, fulano, o senhor está bem? Qualquer coisa é só telefonar”.
Gente, paciência!
A Saúde Pública municipal tem a obrigação de ir às casas desses infectados conhecidos, identificar todos os que tiveram contatos com eles, fazer a testagem de familiares, vizinhos, gente próxima, bloquear o quarteirão. Manter uma vigilância rigorosa sobre esses infectados transmissores ativos.
Senhor Prefeito, isso é obrigação. Acompanhá-los por telefone é negligência. Não testar e monitorar todos os comunicantes é irresponsabilidade sanitária.
A China ficou assustada essa semana, sugiram 06 casos novos em Pequim. Logo foi identificado que a surto surgiu no mercado Xinfadi, numa tábua de cortar salmão. Na visita ao mercado, todos foram testados e identificados. 45 pessoas estavam positivas. Toda a área foi isolado. Pequim tem capacidade de realizar até 90 mil teste por dia.
Eu sei, Aracaju não fica na China.
Mas o que a Saúde Pública prescreve e determina é bem mais simples. Esta crise removerá a máscara dos líderes que desconfiam da ciência.
O populismo está atrapalhando o enfrentamento da Pandemia em Aracaju.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)

domingo, 14 de junho de 2020

OS DESEMPREGADOS DA PANDEMIA


Os Desempregados da Pandemia.
(por Antonio Samarone)
Além dos males da doença, a sociedade está amargando as consequências dos erros dos Governos (nas três esferas), na condução da crise sanitária.
Quando a Covid foi declarada Pandemia, a primeira medida aconselhada pela OMS, foi o isolamento social de 70% da população, para evitar o colapso do Sistema de Saúde. A China montou um hospital com 2 mil leitos em uma semana.
Para que o isolamento fosse viável, os Governos precisariam fazer a sua parte. Não bastava os decretos limitando a mobilidade e a vida econômica, era necessário um suporte financeiro para evitar a quebradeira das empresas, o desemprego e garantir uma renda mínima aos mais vulneráveis.
No Brasil, nada disso foi feito na forma e no tempo certo. Até o auxílio emergencial de 600 reais se tornou um fator de disseminação da doença. Depois das aglomerações na porta da Caixa Econômica, em Aracaju, para o pagamento da 1ª parcela, a Peste se alastrou em velocidade.
Para o Isolamento Social funcionar, necessitava do suporte do Poder Público. que não ocorreu da forma adequada. Muita gente, se ficasse isolada não comia. Empresas quebrariam.
Muitas atividades foram definidas como essenciais por motivos fúteis. Por exemplo: qual era a urgência do recapeamento das ruas em Aracaju, que não pararam durante a quarentena?
Por tudo isso, o Isolamento Social nunca passou de 40% em Aracaju. Nunca funcionou como era necessário! Por isso, a doença grassou livremente.
No início da Pandemia em Sergipe, as ações públicas se concentraram nos decretos, no marketing, na montagem de UTIs improvisadas e de na montagem de um duvidoso hospital da campanha, no campo do Sergipe.
As ações preventivas, recomendadas pela Saúde Pública, foram esquecidas!
A Prefeitura de Aracaju limitou-se às ações cosméticas de lavagem de ruas e terminais de ônibus, na distribuição de máscaras de pano, na tomada da temperatura de quem chegasse ao aeroporto, e em organizar a fila do peixe na semana santa.
Na parte da assistência social, o Governo do Estado anunciou um auxílio de 100 reais, não sei a quem nem em quantas parcelas, e a Prefeitura de Aracaju, com muito foguetório, distribuiu o que sobrou da merenda escolar, devido ao fechamento das escolas.
Ia esquecendo: o governo do estado dispensou o visto das mercadorias nos Postos Fiscais (auxílio contrabando). A DESO suspendeu o corte da água, por 90 dias. A PGE não vai ajuizar ações durante a Pandemia e o BANESE está emprestando dinheiro aos empresários (não sei as condições).
Governador, paciência! Uma ajuda mixuruca.
Como era de se esperar, a doença explodiu em Sergipe, e em especial em Aracaju. No dia de Santo Antonio, chegamos a 12.866 casos notificados, com 316 óbitos.
Uma tragédia potencializada pela omissão e erros do Poder Público.
Além das consequências naturais da Peste, temos as mazelas da incompetência e arrogância do Poder Público. Até o momento, se desconhece ações da prefeitura de Aracaju na prevenção da doença. Não basta estabelecer normas para a sociedade e mandar que as pessoas fiquem em casa.
É urgente que se caia em campo, ir em busca dos transmissores, para obrigá-los ao isolamento. Quebrar a cadeia de transmissão. A saúde pública sabia fazer isso. Vocês desmontaram!
É urgente a testagem em massa, a identificação precoce dos casos e dos portadores sãos, a identificação dos ainda susceptíveis e dos que já adquiriram imunidade. O Poder Público precisa fazer a sua parte, sair do escuro.
Quantas pessoas já foram infectadas em Aracaju? Vocês não sabem!
A luta contra a Pandemia é uma marcha no escuro, onde só os políticos se sairão bem. Um luta que deixará vítimas e sequelas entre os profissionais de saúde, e que marcará centenas de famílias com a dor da saudade.
Os políticos exigiram que se decretasse estado de calamidade, para que os recurso fossem gastos livremente. Receberam rios de dinheiro. Agravou-se o déficit fiscal. Sobram recursos e faltam planejamento, profissionalismo e uma condução técnica da crise sanitária.
Há cerca de um mês, o Prefeito da Capital anunciou nas redes sociais que tinha utilizado 45 milhões na pandemia. A fartura de dinheiro deu brecha a que se gastasse 3 milhões só em propaganda. Os gastos até hoje eu não sei. Faltam ideias e sobram recursos.
Nesse momento a doença já foi disseminada em Aracaju. O isolamento social está restrito a voluntários, com renda e consciência, que se manterão protegidos independente do que pense o governo. As ruas estão lotadas de gente.
A única medida sobre a qual o governo ainda mantém a governabilidade é o fechamento do comércio. Passando a falsa impressão de zelo, de que está preocupado com a saúde da população. Mentira! A doença está se disseminando livremente, mesmo com o comércio fechado.
Uma grande encenação. O governo apresentou um “plano para a reabertura do comércio”, cheio de etapas, protocolos, restrições e regras, tudo para simular o controle da situação.
Tudo mentira!
O governo não faz a sua parte, desativou as ações de saúde pública, não existe prevenção, não existe testagem, e mantem as aparências de ação, proibindo o comércio de funcionar. Um faz de conta criminoso.
Nesse momento, os governos (nas três esferas) tem mais responsabilidade pelo desemprego e quebradeira das pequenas empresas do que a própria Pandemia.
O Poder Público está agravando as desigualdades!
Num país sério, essa turma despreparada e interesseira iria responder judicialmente pela omissão. No Brasil, nada acontecerá. Alguns ainda serão reconduzidos para novos mandatos e outros sairão ricos.
Reclamar a quem?
Antonio Samarone (médico sanitarista)

sábado, 13 de junho de 2020

A SOLIDÃO DOS IDOSOS


A Solidão dos Idosos!
(por Antonio Samarone)
“O homem tem vida curta e cheia de tormentos. É como uma flor que se abre e logo murcha” – O livro de Jó.
O século XX escondeu essa verdade. A vida média triplicou. A população envelheceu. A Era dos idosos se aproximou. O que faremos com essa sobrevida de 20 anos?
Qual é a agenda dos octogenários?
O mundo abrigava apenas 900 milhões de pessoas com mais de 60 anos em 2015, segundo dados da ONU. No entanto, o número deverá subir para 2,1 bilhões em 2050, ou seja, uma em cada cinco pessoas será idosa.
O primeiro mundo envelheceu rico, mesmo assim, o destino dos idosos é a segregação. No Brasil, estamos envelhecendo pobres e sem saídas. A questão é ignorada. Somos tratados como um peso para a sociedade. Quem acolherá essa gente, qual a qualidade de vida possível para os idosos no Brasil?
A Pandemia tem aumentado a discriminação aos idosos. Criou-se uma forte Gerofobia!
Tenho pensado nessa questão. Segundo o IBGE, a minha expectativa de vida é de 18 anos. Não tenho mais tempo a perder. Nada mais a contemporizar!
Deixe-me sair para comprar a fogueira, só tenho mais 18 festas de Santo Antonio a comemorar. Terei os cuidados, mas a fogueira eu acendo. Hoje e na véspera de São João.
No pós-Pandemia só temos um caminho: lutar por esse breve futuro. Qual é o nosso papel? O que faremos com as vantagens da experiencia?
Qual o impacto que esse confinamento prolongado terá na saúde física e mental dos idosos?
Essas divagações resultaram de um telefonema que dei para um velho professor, de 87 anos. O professor tem duas filhas, uma médica e outra enfermeira, vários netos, mas não recebe visitas a 90 dias, por causa da Peste.
Não tenho o direito de identificá-lo. Um grande sanitarista, com quem aprendi o pouco que eu sei da saúde pública. Um homem lúcido, irônico, cheio de ideias e bom humor. Ele ajudou a erradicar a malária de Aracaju.
Fiz aquela pergunta de praxe: e aí, quais são as novidades?
Ele respondeu: “acho que o comunismo chegou ao Brasil, e eu estou preso. Confinado numa solitária”. O professor sempre foi de direita, admirador de Garrastazu. Tinha pavor a União Soviética.
O professor se fez de esquecido, perguntou se eu continuava fumando maconha. Professor, o senhor está me confundindo. Ele desconversou. Me pareceu num quadro de confusão mental. Mas continua engraçado.
Eu perguntei o que ele estava achando do Governo Bolsonaro. Ele respondeu: “Bolsonaro está preso, na Ilha das Cobras. Ele e os filhos. Você não soube? O comunismo não perdoa”. Fiquei calado!
O meu amigo e mestre está com uma preocupação inusitada: ele não sabe o que fazer quando a morte chegar. Ele tem medo de não saber morrer. Por onde começar? Eu tentei tranquilizá-lo: não se preocupe, a morte faz tudo sozinha, ela não precisa do senhor.
Ele começou a rir alto, em gargalhadas. E sentenciou: “morte filha da puta”!
Ele ainda fez graça: "quero morrer dormindo e me acordar morto. Tenho tentado me esconder da morte, durmo cada dia em um local diferente. De vez em quando durmo embaixo da cama, para a morte não me achar".
Por último, ele me pediu um cigarro do demônio. Disse-me que tem um amigo que se deu bem e leva uma vida mansa. Ele quer experimentar. Fiquei em dúvida.
Antes do final do nosso papo, ele não lembrava nem do cigarro, nem do demônio. Fiquei aliviado.
Ele ainda me contou alguns segredos, que eu não posso revelar.
Acho que ele ficou mais feliz com a nossa conversa. Suspeito, que ele se faz de esquecido, para afastar os chatos. Voltarei a ligá-lo.
Telefonei depois para uma das filhas, a que eu conheço mais. Fulana, o que você acha de seu pai? Ela caiu em prantos. Não sei o que fazer! Não sei o que é mais nefasto, a Covid ou a solidão.
Eu não tive coragem de dar-lhe conselhos.
Antonio Samarone.