quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

BEXIGAS, BOUBAS E BOSTELAS; PÁPULAS, PÚSTULAS E VESÍCULAS.


Bexigas, boubas e bostelas; pápulas, pústulas e vesículas. (por Antônio Samarone)

A primeira referência a uma epidemia de varíola (bexiga) no Brasil, encontra-se numa carta de José de Anchieta a Diogo Laínez, segundo superior geral da Companhia de Jesus. São Vicente, 08 de janeiro de 1556. Observem os assombrosos tratamentos disponíveis no século XVI.

A principal destas doenças hão sido varíolas, as quais ainda brandas e com as costumadas que não têm perigo e facilmente saram; mas há outras que é coisa terrível: cobre-se todo o corpo dos pés à cabeça de uma lepra mortal que parece couro de cação e ocupa logo a garganta por dentro e a língua de maneira que com muita dificuldade se pode confessar e em três, quatro dias morrem; outros que vivem, mas fendendo-se todos e quebrasse-lhes a carne pedaço a pedaço com tanta podridão de matéria, que sai deles um terrível fedor, de maneira que lhe acodem as moscas como a carne morta e apodrecida sobre eles e lhe põem gusanos (bicho de mosca) que se não lhes socorressem, vivos os comeriam.

José de Anchieta revela na carta: estive acudindo a todos, sangrando dez, doze cada dia, que esta é a melhor medicina que achamos para aquela enfermidade, e era necessário correr suas casas cada dia uma ou mais vezes, a buscar deles que, ainda que passeis por suas casas, se não a revolveis toda e perguntais por cada pessoa em particular, não vos hão de dizer que estão enfermos. E o melhor é que em pago destas boas obras, alguns deles, como são de baixo e rude entendimento, diziam que as sangrias os matavam, e escondiam-se de nós outros. Os índios desconfiavam que sangrar o bexiguento (doente com varíola), não era um bom socorro.

Contudo, os índios escolhiam outra forma agressiva de tratamento: mandavam fazer umas covas longas a maneira de sepulturas, e depois de bem quentes com muito fogo, deixando-as cheias de brasas e atravessando paus por cima e muitas ervas, se estendiam ali tão cobertos de ar e tão vestidos como eles andam, e se assavam, os quais comumente depois morriam, e suas carnes, assim com aquele fogo exterior como com o interior da febre, pareciam assadas. Três destes que achei revolvendo as casas, como sempre fazia, que se começava a assar, e levantando-os por força do fogo, os sangrei e sararam pela bondade de Deus.

José de Anchieta continua descrevendo as vantagens de sua medicina: a outros que daquele pestilencial mal estavam mui mal e esfolei parte das pernas e quase todos os pés, cotando-lhes a pele corrupta com uma tesoura, ficando em carne viva, coisa lastimosa de ver, e lavando aquela corrupção com água quente, com o que pela bondade do Senhor sararam; de um em especial se me recorda que com as grandes dores não fazia senão gritar, e gastando já todo o corpo estava em ponto de morte, sem saber seus pais que lhe fazer, senão chorar-lhe, o qual, como lhe cortamos com uma tesoura toda aquela corrupção dos pés, e os deixamos esfolados, logo começou a se dar bem e cobrou a saúde.
Essa peste de varíola ou corrupção pestilenta, como diz S. de Vasconcelos assolou o Brasil inteiro em 1563, sobretudo a Baía, onde tirou a vida a três partes dos índios.

Em seu escrito sobre o Frei Gaspar Lourenço, o Padre Aurélio de Vasconcelos nos conta que entre 1562 e 63, surgiu no litoral brasileiro duas grandes pestes (febre amarela e varíola) que dizimou os gentios, e que no espaço de três meses morreram mais de 30 mil índios. Uma descrita como uma febre alta, com hemorragias que matava em poucos dias e a outra como um pipocar de bexigas, asquerosas e pútridas, que em poucos dias estavam infestadas de bichos de mosca.

Nesse período das Pestes e de muita fome (1562), os portugueses aproveitaram a sentença de Mem de Sá contra os Caetés pela morte do primeiro Bispo, e estenderam a sua eficácia contra os Tupinambás do território entre os rios Real e São Francisco (Sergipe), tornando-os escravos.

Os principais beneficiários foram o poderoso fazendeiro F. Cabral e Garcia d’Ávila. Na verdade, Mem de Sá cumpria a determinação anterior da Rainha Regente Catarina de Áustria, esposa de D. João III. A escravização dos índios de Sergipe, como se ver, começou bem antes da expedição de 1575, organizada por Luiz de Brito.

Segundo o padre Aurélio Vasconcelos, em 1564, após cessada as Pestes, as aldeias de Sergipe ficaram muito despovoadas, pois os que escaparam da morte e da escravidão, fugiram sertão a dentro em busca da sobrevivência. A aldeia de Aracaen era a última de Itapicuru, onde viviam os índios subjugados, além ficavam os temíveis e guerreiros Tupinambás, as 28 aldeias de Sergipe, onde as tropas de Garcia d’Ávila não se atrevia em penetrar. Temidos pela fama de terem comido o Bispo Sardinha.

Antônio Samarone.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

AZEDO OU AMARGO?



Azedo ou amargo? (por Antonio Samarone)

O paladar tem regredido. As refeições rápidas (fast-food), e a comida produzida industrialmente não permitem que se apure o gosto. Comemos rapidamente as mesmas coisas. 

A delicadeza e a arte dos grandes cozinheiros, a distinção dos acepipes, quitutes, iguarias e guloseimas perderam a importância. Reconhecer as nuanças dos sabores tornou-se quase um esnobismo.

Restaram meia dúzia de sibaritas que se tornaram gourmets por ostentação, por distinção social. A fama e o preço do restaurante pesam mais que a qualidade da comida. Uma pretensa aristocracia do bom gosto. No fundo, simples aparências...

Os pitéus populares desapareceram. Não se come mais a tanajura, fêmea da Atta sexdens, com os seus abdomens gordurosos, crus ou torrados, que faziam a festa da molecada. Quem sabe dizer se ainda existem tanajuras? Em tempos chuvosos, corri muito atrás de tanajuras, com um versinho na ponta da língua: “cai, cai tanajura, na panela da gordura”.

Creio que ninguém mais frequente os matadouros, para saborear um fígado ensanguentado e quente, recém tirado do animal abatido. Fígado assado na brasa, e degustado às pressas, numa gula primitiva.

Uma pessoa privada do olfato é incapaz de apreciar os sabores. A consistência, a cor, a apresentação visual e a temperatura dos alimentos determinam o seu sabor. A cerimônia do chá no oriente é uma arte que exige sensibilidade absoluta: o exame visual, o olfativo e o gustativo. Se come com os olhos.

O paladar requer a ingestão de uma parte do mundo. Não é a gula que nos condena! “Não é o que entra pela boca que nos torna impuro, mas o que sai da boca...” Mt. 15:11.

O prazer da mesa é o ultimo a nos consolar, quando os outros nos faltam. A culinária constitui-se em um último acesso às raízes, quando os outros sucumbem. O paladar alimenta as recordações.

Só se gosta do que se come na infância, diz o senso comum. O paladar não é inato, possui história e revela a nossa cultura. A percepção de um sabor depende de um aprendizado.

Os sabores são infinitos. “A criança come a acaba apreciando os manjares da cozinha familiar”. Feliz o homem que, na meninice, girou ao redor das panelas”, diz Bachelard; feliz o homem que raspou o fundo do tacho, digo eu.

“Eu não conheci, e não conheço ainda, uma comida melhor do que a servida numa refeição rústica. Com laticínios, ovos, queijo, ervas, pão de rolão ou vinho, sempre estamos seguros de regalar-nos bem”; diz Rousseau em Les Confesions. Esqueceu o cuscuz!

Os sabores são impregnados de afetividades. O ato de saborear é individual, diz respeito somente a cada um. É um prazer pessoal. “De gustibus non est disputemdum” (gosto não se discute). O primeiro copo de vinho ou de cerveja dificilmente é saboroso. O paladar precisa ser treinado.

Quando alguém é inexpressivo dizemos que é uma pessoa sem sal; por outro lado, quando a pessoa é muito boa, dizemos que é um doce de pessoa. Os sabores nomeiam o mundo.

A cozinha é um definidor cultural por excelência. O chinês só fica saciado com o arroz, o nordestino com a farinha. A farinha cumpre três funções na alimentação: esfria o que está quente, engrossa o que está fino; e aumenta o que está pouco. Na ausência da farinha do reino, foi a farinha de pau dos Tupinambás, que ajudou a colonizar o Brasil.

Todos as comunidades gabam-se da pureza e do sabor da sua água. “Quem bebeu da água da Ribeira, não esquece Itabaiana”, sempre soube disso. Essa conversa que a água pura é insípida é só na teoria. Quem tem o paladar apurado, reconhece os sabores das águas de sua aldeia.

Só a antropofagia salva, nos diz Oswald de Andrade em seu manifesto. Somos descendentes da Nação Tupi, canibais por razões ritualísticas. Já, segundo Freud, foi a interdição da antropofagia que fundou a civilização. Fico com Oswald de Andrade!

Encerro aqui o meu passeio pelos sentidos. Sempre bebendo na fonte de Breton. Finalizo com um apelo do Apóstolo Paulo: Comamos, bebamos e alegramo-nos, pois, amanhã morreremos.” 1 Cor 15:32

Antonio Samarone.

BASTA ABRIR OS OLHOS


Basta abrir os olhos. (por Antonio Samarone).

A visão convoca a luz. No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo... Deus disse: haja luz e houve luz. Deus viu que a luz era boa... 

O mundo começou com a luz, e terminará com as trevas. “Em seguida ele voltará os olhos para a terra, por toda a parte só verá angustia, trevas, escuridão. Trevas infinitas.” Isaías 8:22.

A visão é o nosso contato imediato com o mundo. A existência é essencialmente visual. Para os cegos, o mundo é um universo dos odores, dos sons e dos contatos com as coisas. É pouco?

Agostinho é cego de nascença, nunca viu a luz. Ele discorda frontalmente de que o pior cego é o que não quer ver. Isso é conversa de quem enxerga: “o pior cego é quem quer ver e não consegue.

Por outro lado, me disse Agostinho: a visão é um sentido superficial, só vê as coisas que se mostram. Para esclarecer melhor, ele me contou o mito da caverna, de Platão, que eu não conhecia. Agostinho lê em braile. “Os homens vivem numa caverna, acorrentados. A luz só penetra na caverna por uma entrada estreita, projetando uma sombra na parede. O homem acredita que essa sombra é a realidade.” Entendeu? Eu disse, mais ou menos...

O homem não quer ver a realidade, continuou Agostinho. Não sei se para esnobar, citou uma passagem de Sócrates, sobre o mito da caverna: “E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?”

No dizer de Breton, a visão é um sentido ingênuo. “O homem só percebe sombras que assume por realidade, ele permanece prisioneiro de um simulacro.” A visão transforma o mundo em imagens, e facilmente em miragens. Há uma ilusão de que o que salta aos olhos é evidente, e não se discute, não precisa ser analisado.

Agostinho é agnóstico, mas recorreu a bíblia: “Deixai-os, são cegos conduzindo cegos! Ora, se um cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco.” Mateus 15:14.

Vivemos a era das imagens, filosofa agostinho. Com a descoberta da fotografia, do cinema (da telona), da tela da TV, das imagens digitais, e da telinha da multimídia, o mundo mudou. Todos vivem grudados no celular. Por exemplo: a medicina endoidou, quer dar todos os diagnósticos pelas imagens. Quando a doença não é visível, não produz imagens, a medicina diz que é virose. “Disso eu sinto falta, sentenciou Agostinho: não é fácil ser cego na era das imagens.”

Puxei a conversa para um terreno minado. Freud achava que era a impressão visual que mais despertava a libido, como os cegos lidam com isso, perguntei a Agostinho. “Ora, o amor cega os que tem visão, e faz os cegos enxergarem. Sinto o cheiro do cio à quilômetros. Eu vejo com a alma!” O difícil é a paquera, Eu ponderei, querendo ser engraçado. “Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração.” Mateus 5:28.

A visão nada mais é senão um determinado uso do olhar, diz Merleau-Ponty. “O olho é sem inocência, ele chega as coisas com uma história, uma cultura, um inconsciente. Ele pertence a um sujeito. O olhar não reflete o mundo, o constrói por suas representações.”

Toda visão é uma interpretação, reforçou Agostinho. Se eu voltasse a enxergar poderia enfrentar um conflito das imagens com a minha visão do mundo. Mesmo assim, eu quero esse conflito. A qualquer hora a ciência vai resolver o meu problema, ainda que seja com olhos artificiais. Já existe até coração feito com a tecnologia de impressão 4D. Só lembrando, nós, os cegos, somos clarividentes. Como assim?

“O pensamento só começa a ter o olhar penetrante quando a visão dos olhos começa a perder a sua acuidade”, ensinava Sócrates... A cegueira não é mutilação, mas a abertura do olhar sobre o tempo ainda desconhecido dos homens. Édipo pune-se por seus crimes, furando os olhos, mas no final da vida tornou-se sábio.

Antonio Samarone.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

CARNAVAL DE RUA DO ARACAJU




O Carnaval de rua do Aracaju. (por Antonio Samarone)
O Carnaval brasileiro nasceu do entrudo português. Uma festa popular nos três dias que antecedem a quaresma, onde se lançava água de cheiro e farinha do reino uns nos outros. A festa da cabacinha em Japaratuba é uma reminiscência desses carnavais.
No Brasil foi assim até a gripe espanhola de 1917. Depois virou uma festa pagã, imitando as saturnálias romanas, onde a transgressão, a esbornia e a orgia reinavam livremente. Até a quarta-feira de cinzas ninguém era de ninguém, era um liberou geral. Os religiosos entravam em penitência e orações, para contrabalancear os pecados da folia. Em Aracaju voltamos ao entrudo.
O chamado carnaval de rua, os blocos independentes imperam pelo Brasil afora. Um carnaval fora da parceria rede globo/bicheiros. Em Aracaju também existe carnaval de rua, e de uma certa forma original. Um carnaval bem-comportado. Ninguém mijando nos postes (filas nos banheiros químicos); nem jogando latinhas.
Fui ao desfile do tradicional bloco “Eu só se fico, se você não só se for”. Uma turma amiga. Tudo na maior ordem. Todo mundo sóbrio, ou quase sóbrio. Nada de lascívia, devassidão, licenciosidade, voluptuosidade. Nada! Não enxerguei nenhum libertino, tão comuns em outros carnavais.
Não vi passistas de frevo, nem sambistas. Todos andavam compassadamente, numa folia contida. A alegria se expressava pelo movimento dos braços, com o indicador apontado para o alto (Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô). Poucas fantasias, um ou outro com um cocar de penas artificiais e outros com orelhinhas de coelho. Nenhum mascarado. Nem confetes, nem serpentinas. Só as crianças apertando spray com espuma de plástico.
Gostei das músicas: o centenário frevo de Olinda. Lembrei-me dos carnavais do Clube do Trabalhador, em Itabaiana, onde só tocava músicas de Capiba. Antes houve um esquenta, com o “burundanga”, grupo de gente entusiasmada, comandado pelo maestro Pedrinho Mendonça.
Almir Santana não apareceu distribuindo camisinha. Fez bem, talvez não tivesse mesmo serventia.
Antonio Samarone.

LOBOTOMIA


Lobotomia: cura milagrosa ou mutilação cerebral? (por Antonio Samarone)
Disse um filosofo: o único poder que os deuses não possuem é o de apagar o passado. Em medicina, no que toca as armas dos diagnósticos e das terapêuticas, a longevidade é muito breve.
Rosália Boaventura, 85 anos, demente desde os 20, por conta de uma lobotomia, realizada no Hospital Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 1954. A sergipana de Altos Verdes, foi uma das primeiras pacientes do Dr. Aloysio Mattos Pimenta, que realizava esse esdrúxulo procedimento desde 1936, no Juquery, em São Paulo.
Sei que lhe bateu uma dúvida: lobotomia é o que eu estou pensando? É pior? A leucotomia Pré-Frontal e a lobotomia (depois viraram sinônimos) são intervenções cirúrgicas que destroem o lobo frontal do cérebro, desativando as suas funções. Já se usou quebrador de gelo e álcool absoluto. A cirurgia foi inicialmente utilizada em esquizofrênicos graves, depois generalizou-se para outras psicopatias.
Fulton e Jacobsen, no Congresso Internacional de Neurologia realizado em Londres, em 1935, demonstraram uma mudança de comportamento do chipanzé, animal selvagem e agressivo, que depois da retirada dos seus lobos frontais, tornou-se dócil e passiva.
O procedimento em humanos foi criado em 1933, pelo médico português, Dr. Egas Muniz, agraciado com o Nobel de medicina pela proeza, em 1949. A lobotomia foi usada amplamente no mundo por mais de vinte anos. Na época, essa “psicocirurgia” foi considerada avanço científico da psiquiatria orgânica. Egas Muniz recebeu o prêmio Nobel, em 03 de janeiro de 1950.
Em 1944, foi publicado o primeiro trabalho científico sobre o uso da lobotomia cerebral no Brasil. Das 160 cirurgias realizadas até então em internos do Juquery, com a técnica de Egas Moniz, Barreto, Antonio Carlos - analisou os resultados das cem primeiras. Um detalhe chama a atenção: Todas as cem pessoas operadas eram mulheres.
Como exemplo, ele relata o caso de uma mulher de 24 anos que fora submetida a vinte aplicações de eletrochoque e quarenta comas insulínicos sem que seu quadro de "esquizofrenia hebefrênica" fosse alterado. Submetida à lobotomia pré-frontal, com cinco cortes em cada lobo, diz o cirurgião, a paciente se recuperou completamente e depois de um mês teve alta, voltando a conviver com a família.
No Brasil, a lobotomia foi utilizada em pacientes de instituições asilares, entre 1936 e 1956. Eram intervenções que consistiam em desligar os lobos frontais direito e esquerdo de todo o encéfalo, visando modificar comportamentos ou curar doenças mentais.
A lobotomia foi proibida 1956, por a ferir o Código de Nuremberg, concebido para regulamentar e conter os abusos da experimentação médica em seres humanos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.
Existe evidências que a lobotomia foi usada em opositores políticos, nos manicômios da União Soviética. E onde mais? Depois da proibição, o assunto foi posto em esquecimento. Atualmente voltou a se falar em psicocirurgias, em “outras bases”, cirurgias mais localizadas. Não confundir com cirurgias neurológicas.
Dona Rosália nunca soube que fez parte de um experimento médico. Só ficou sabendo que destruíram uma parte do seu cérebro muito tempo depois. “Se soubesse, não tinha permitido”, ela afirma até hoje. A realização da lobotomia era uma decisão da equipe médica, fundada na ciência. Não carecia do consentimento.
Perguntei a Dona Rosália o que ela achava desse retorno dos manicômios e do eletrochoque, ela nada me respondeu, mas fez uma cara de profunda repugnância, como se dissesse, vade-retro satanás, eu já conheço tudo isso.
Fiquei pensando, esse discurso de que a realidade é outra, que o choque agora é cuidadoso, que a ciência avaliza, não é nenhuma novidade. A ciência já avalizou cada barbaridade... Inclusive a lobotomia.
Antonio Samarone.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

MEU NOME É JOHN


O meu nome é John... (por Antonio Samarone)

Jones Soares da Silva não nasceu em berço de ouro. Também nunca passou por dificuldades. Filho do petroleiro Leonardo e da professora Roseli, Jones frequentou boas escolas. Nunca foi um gênio, nem um apoucado. Um aluno mediano. Formou-se em filosofia pela UNIT.

Jones ainda não conseguiu uma colocação rendosa. Mora com os pais, e está estudando para concurso. Até aí, nenhuma novidade. Jones é um solitário. Não se sente parte de nada, não tem referências coletivas. Odeia a política e é indiferente a religião. Não pertence a nenhum grupo. Jones é uma alma desenraizada. 

De uns tempos para cá, Seu Leonardo começou a achar Jones estranho, meio confuso, com uma conversa sem pé nem cabeça. O que houve meu filho, o que está lhe faltando? Meu pai, a minha vida não tem sentido. Quem sou eu, um inútil? O que isso menino? Fizemos o maior sacrifício para você estudar, agora é ter paciência, a sua hora vai chagar. Meu pai, não existe concurso para filósofos! 

Só que bateu uma crise existencial em Jones, e sua autoestima despencou. Jones nem crer nem descrer em nada. Uma alma vazia. A primeira ideia foi cuidar do corpo. Passou a frequentar uma academia, e a ocupar boa parte do tempo na fisicultura. Engrossou os braços, tomou bomba, passou a ser um fitness. Mas não resolveu o vazio existencial.

Concluiu que o corpo musculoso não era suficiente. A sua feição tinha uma deformidade: as orelhas de abano, herdadas do Pai. Tomou uma providência imediata: procurou o cirurgião plástico mais caro de Aracaju, e operou as orelhas. Por infelicidade, as orelhas que antes eram muito afastadas da cabeça, com a cirurgia, ficaram muito coladas. Ele não gostou. Nem ninguém!

“A cirurgia estética é uma medicina destinada a clientes que não estão doentes, mas que querem mudar a sua aparência e modificar a sua identidade. Provocar uma reviravolta em sua relação com o mundo.”

Para encobrir o defeito cirúrgico, Jones passou a usar um par de brincos de penas com búzios caramelo. No começo chamou muita a atenção. Uns riam, outros debochavam, mas a verdade é que Jones saiu um pouco do anonimato. Começou a ser notado. Ele pensou, o caminho é esse, vou continuar investindo em meu corpo. 

Nesse meio termo Jones tentou outras saídas. Fez terapia cognitiva comportamental (TCC), yoga, meditação, recorreu a homeopatia, virou vegano, Hare Krishna, punk, cheirou pó, teve uma experiencia homo, fez a trilha de Santiago de Compostela, experimentou o Santo Daime, tentou o suicídio e chegou até pensar em virar evangélico. Nada deu jeito. Ao final de cada experiencia, a alma de Jones continuava vazia. Nenhuma resposta.

Só lhe sobrou o corpo, como último refúgio. “O corpo sou eu!” imaginava ele inseguro... “Se não existem mais saídas nas esferas coletivas, vou buscar na vida privada.” Fez duas grandes tatuagens, uma nas costas, outra na bunda; pôs um piercing no nariz e outro na bochecha. 

Pintou o cabelo de amarelo e mandou desenhar uma suástica. “Se não é possível mudar as condições de existências, pode-se pelo menos mudar o corpo de várias maneiras”, filosofava Jones. “O corpo é o emblema do self.”

Segundo Lasch, “essa paixão repentina pelo corpo é uma consequência da estruturação individualista de nossas sociedades ocidentais, sobretudo em sua fase narcisista.”

Jones passou a trespassar o corpo com alfinetes, enganchou cruzes gamadas, mutilou, talhou, escarificou, usou trajes impróprios; fez um branding com laser. Chegou a usar um ampallang, mas achou incomodo. 

Jones se transformou num body builder. A sua alimentação passou a receber um complemento nutricional dado por proteínas em pó, minerais e vitaminas. Jones Soares da Silva, aos trinta anos, é uma fortaleza de músculos inúteis e enfeitados. 

Jones tentou fabricar-se a si mesmo. O corpo virou o seu alter ego. O corpo passou a ser o seu lugar de questionamento do mundo. 

Nessa trilha sinuosa, Jones não sabe mais o que é mascara e o que é rosto. O virtual e o real se fundiram. No final da metamorfose, Jones se transformou numa colcha de retalhos, fragmentado, polimorfo, disforme, membro de uma nova espécie, o Homo esquizoide, que em breve receberá um chip com inteligência artificial, e será controlado via internet. 

Antonio Samarone.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

NO PRINCIPIO ERA O VERBO.



No Princípio Era o Verbo... (por Antonio Samarone)

Não nasci e nem me criei ouvindo músicas. A minha educação musical limitou-se as aulas de canto orfeônico, no ginásio. Tentei aprender música na Filarmônica, mas não houve jeito. Na verdade, sempre fiz ouvidos de mercador para a música.

Em minhas memórias auditivas permanecem o coaxar dos sapos, rãs, jias e caçotes dos brejos do Tanquinho; e o canto rouco de um galo garnizé, no quintal de dona Maroca. 

Acho que ainda reconheço os repiques dos sinos da matriz de Santo Antonio e Almas. Não sei ainda tocam, ou se pelo menos ainda existem. Assisti à unção desses sinos com o óleo dos catecúmenos. 

Em 1963, aos nove anos, acompanhei com sentimento a morte do Papa João XXIII, através dos repiques dos sinos da matriz em Itabaiana, que tocaram interruptamente na reta final do Pontífice. Era o fim do império da igreja romana. 

A minha memória também guardou (não sei até quando) os sons dos chocalhos das cabras, das matracas, dos ruídos dos carros de bois, das cigarras na quaresma, dos latidos e mugidos, dos grilos, dos trovões, dos berros dos jumentos, dos aboios, dos cânticos das procissões, das cantigas das lavadeiras do açude velho, das dobradiças das cancelas, das lamentações das vias sacras e das gatas no cio. 

Lembro-me do timbre do som da bigorna do ferreiro Bernardino, meu bisavô. Aliás, bigorna centenária que ainda vive. Tá lá, nas Flechas...

Minha relação com o som não se limitou as palavras, forma mais evidente de se expressar os pensamentos. Curioso, Deus criou a luz, antes eram trevas. Faça-se a luz, e a luz se fez. Porém não há registros de ter criado o som. Parece que o som já existia. No princípio era o verbo, e o verbo era o próprio Deus.

O som é anterior a luz, na cosmogonia cristã. Os deuses egípcios nasceram do som, acatando o convite do deus Atum-Ré. Tupã, o deus dos Tupinambás, era o trovão. O profeta Maomé só anotou o que ouviu do anjo Gabriel, enquanto meditava. Não bastava ver, ele precisou ouvir. 

Todos os povos primitivos dançavam e cantavam. A música deve ser anterior ao Homo sapiens. Quem fotografa pássaros guia-se pelo alarido, pelos sons dos cantos, e a visão vem depois. Não se enxerga os pássaros olhando-os, mas ouvindo-os. Quem é peregrino sabe disso.

Durante as noites no sítio do meu avô, nas Flechas, ouvíamos o silêncio. Depois que se rezava o terço, a ordem era dormir. Para mim sobrava uma rede no corredor. Logo cedo me acordavam, pois, as cordas que armavam a minha rede eram as mesmas que amarravam os pés das vacas para se tirar o leite. Foi ensinado a identificar o canto de cada pássaro, mas já esqueci da maioria.

Segundo Breton, “a palavra da mãe é o primeiro som a introduzir a criança já “in útero” no universo humano, carregada de afetividade, de significação. O feto mergulha no líquido amniótico e sente os seus odores, ele prova dos movimentos de sua mãe, está em permanente audição de seu coração, ouve igualmente a sua voz e a de seus próximos.” Depois as cantigas de ninar darão novos tons. 

O barulho é uma patologia do som. A sonoridade das festas de São João, seu fogos e foguetórios sempre me incomodaram. Talvez, por isso, não suporto trio-elétrico, charangas e batucadas. 

Júlio Cesar, 44 a.C., proibiu a circulação de carruagens em Roma, entre o pôr do sol e aurora, por conta da zoada. Ele estava certo! Jusué, filho de Num, derrubou as muralhas de Jericó com o som das trombetas.

A música é o som matematicamente harmonizado. O som se manifesta na política por aplausos e vaias, e o escracho se manifesta com o porrote.

Antonio Samarone.