sexta-feira, 27 de abril de 2018

SANTO ANTONIO FUJÃO



A trilha de Santo Antonio Fujão será retomada.

Duas coisas unem os ceboleiros: Santo Antonio e a Associação Olímpica de Itabaiana. Falemos do Santo. Com a chegada dos sesmeiros (século XVII), fundou-se no vale fértil do Jacarecica, o Arraial de Santo Antonio, onde se construiu a primeira igreja. O passo seguinte foi transforma-lo em Villa.
Criou-se a Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório (1665), para viabilizar a compra de um sítio na localidade da Caatinga de Ayres da Rocha, visando se construir a sede da Villa e uma nova igreja. O sítio pertencia ao padre Sebastião Pedroso de Gois, de São Cristóvão. Aqui houve divergências: como transferir a comunidade do Vale do Jacarecica, às margens de um rio, para um locar árido e sem água. O povo não aceitou. Como o padre tinha interesse em vender a sua propriedade, inventou a lenda de Santo Antônio Fujão. Isso eu aprendi na escola de Dona Jozeíta, no Beco Novo.

O padre trazia Santo Antônio para a sua propriedade, e colocava-o debaixo de uma quixabeira. Depois espalhava que o santo fugiu. O povo caia no mato a procurar a imagem. Quando a encontrava, sempre no mesmo local, fazia uma procissão levando o santo de volta. O padre nas missas usava esse argumento, para ajudar ele vender o sítio. Vocês querem o Arraial aqui, mas o santo quer lá, e agora? Prevaleceu o prestígio de Santo Antonio.

Esse ano, no próximo 13 de junho, esse caminho de idas e vindas de Santo Antônio Fujão será retomado. As 6 horas da manhã, em ponto, Santo Antônio Fujão estará saindo da igreja velha, em direção a quixabeira da Praça da Matriz. A Associação Sergipana de Peregrinos se fará presente. Esperamos o comparecimento de todos, fieis e infiéis...

Nesse furdunço de retomar a trilha de Santo Antônio Fujão, identificamos mais uma explicação para o nome da Villa de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Existem várias hipóteses. Desde a bobagem que Ita é pedra em Tupi, referindo-se a serra, e baiana era uma moça bonita que morava por aqui; até versões mais eruditas.

Sem pretensões a exclusividade, arisco mais uma explicação: no livro “O Tupi na Geografia Nacional, de Theodoro Sampaio (1911),” o nome da serra de Itabayana deriva de tabayan ou tabanga; taba-y-na, taba-anga, significando morada das almas. Eu ainda alcancei o povo chamando Tabaiana. Nessa versão, a serra era um cemitério dos Tupinanbás, a morada das almas, comprovada recentemente pelo naturalista Marcos Mota, filho de Tonho de Libanio, que descobriu grutas e cavernas no pé da serra (onde se enterrava os mortos).

Nessa nova versão, fica fácil entender o vocábulo “Alma” no nome da Villa. Santo Antonio era o nome do Arraial, e Almas era uma referência ao nome da serra, Taba-anga (morada das almas), um secular cemitério dos índios. Portanto, Villa de Santo Antônio e Almas de Itabaiana.
Antonio Samarone.

HOMENAGEM A ALBERTO CARVALHO


Homenagem a Alberto Carvalho (texto de Mirian Carvalho)

Na minha mesa tá faltando ele...

Meu pai era das palavras, dos livros, das letras, “ livros mudaram minha vida, mudaram minha alma...”. Desde sempre me vi rodeada por tudo isso, seja vendo-o ler incessantemente ou “naquela mesa onde ele sentava sempre” e conversava contente com toda gente que chegava por lá. E contava piadas, das melhores! Mas suas ações, ah suas ações, o tornaram protagonista da canção “se todos fossem iguais a você, que maravilha viver...”.

Em cada canto da nossa casa havia música, não tive como não me apaixonar por Chico,  Vinícius, Charles, Elizeth,  por Emílio ou Clara Nunes... eram tantos e tão bons, que a gente ia se aproximando, e não era preciso apresentações, a gente ia se olhando e se gostando. Até imbricar-se...

Dentre as histórias da nossa casa, havia a identificação com Cinema Paradiso, quando ele recordava da vida em Itabaiana com tio Petrônio, este a recortar as cenas dos filmes e meu pai a vender balas para não perder nenhuma sessão. Ele vibrava com a singeleza desse filme, com as músicas de Zorba, o Grego, com o piano de Golpe de Mestre e com tudo de Ennio Morricone. Comovia-se com a força de Casablanca, com a genialidade de Charlie Chaplin, Woody Allen, Fellini e com Ladrões de Bicicleta.... e assim, adentrei numa atmosfera que só me fazia apaixonar por um outro mundo, para me desligar desse aqui.

Mais tarde eu cantava “Eu sei que vou te amar” e ele declamava “Soneto de Fidelidade”, e numa dessas nos juntamos com músicos amigos para gravar esse momento em estúdio  e ele simplesmente “De tudo ao meu amor...” “De tudo ao meu amor...” “De tudo ao meu amor...”  Não adiantava, travou! “Esqueci, pronto, esqueci!”. A gente só conseguia rir...

A varanda da nossa casa era o seu coração. O dele e o de minha mãe. Era acolhimento a qualquer pessoa para conversar sobre qualquer assunto, para servir o que ela preparava, era lugar de festejar e para onde eu sabia que podia ir sem medo. Era lugar de estar feliz.
Ofenísia Freira disse numa entrevista quando lhe perguntaram um lugar de paz: “A casa de Alberto Carvalho”. Ela estava certa.

A biblioteca da nossa casa era o avião particular dele. Lá ele conhecia quem ele quisesse e o lugar que desejasse; ele falava de tudo com tanta propriedade que ninguém duvidaria que ele foi lá ou viveu de fato tudo aquilo, tornando-se assim a principal referência para tantos quando estavam em busca de conhecimento. Era só “falar com Alberto”. Era meu ponto de chegada e de partida. E ainda é.

O meu pai na minha vida me faz falta. Sinto falta de falar com ele sobre um filme bom que assisti, ou sobre uma música que descobri... sinto falta da paz, do porto, do amor em cada gesto dele. Em mim, ficou mais do que o nariz tanto lembrado nas caricaturas que fizeram dele, ficaram as melhores piadas e os ensinamentos para não perder a ternura diante dessa vida dura.

terça-feira, 24 de abril de 2018

A SAÚDE COMO MERCADORIA



A SAÚDE como mercadoria.

A assistência à saúde tornou-se uma atividade econômica das mais lucrativas. No Brasil, representam 10% do PIB. Ao incorporar-se ao mercado, a saúde virou mercadoria, e assumiu as suas propriedades: padronização, impessoalidade, valor de troca, produção em massa, produtividade e a lógica do lucro. Como transformar um serviço que era centrado no cuidado, no acolhimento, na individualização do tratamento, no alívio ao sofrimento em mercadoria?

O primeiro setor da saúde a submeter-se a lógica do capital foi o de medicamentos. A indústria farmacêutica assumiu a produção dos remédios, no pós Segunda Guerra, e o consumo disparou. Basta vê a prosperidade das farmácias, uma em cada esquina, e não param crescer. A rede de comercialização dos medicamentos só perde para a de distribuição de bebidas.

Com o envelhecimento da população as necessidades de atenção a saúde aumentam. Este setor da economia cresce, mesmo em períodos de recessão da economia. O retorno dos investimentos é garantido. O paciente virou consumidor. O que fez a medicina, uma profissão milenar, para adaptar-se a lógica de mercado?

A grande mudança foi a transformação do cuidado médico em procedimentos. A fragmentação do cuidado, semelhante a uma linha de montagem da indústria, foi o caminho de adaptação da medicina ao mercado. O cuidado é muito subjetivo, pessoal, imprevisível, implica numa relação de confiança; inadequado a lógica de lucro e da padronização das mercadorias. Foi preciso transformar o cuidado em pequenas intervenções (procedimentos) e o estabelecimento dos protocolos. Os procedimentos são realizados por diferentes médicos. O paciente deixou de ter um médico cuidador. O trabalho é coletivo, uma linha de desmontagem sem coordenação. Cada médico conserta uma peça do padecente.

A Associação Médica Brasileira (AMB) criou uma Classificação Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM), transformando o cuidado médico em 4.700 procedimentos. Tudo especificado, codificado e com o preço de cada subitem. Existem outras tabelas de procedimentos, da ANS, do SUS, dos Planos de Saúde, etc. O discurso de um sistema nacional de saúde, universal, público e gratuito; e de uma assistência integral e equânime foi derrotado. Perdi mais uma!
Antônio Samarone.

sábado, 21 de abril de 2018

BANZO



Banzo

“O negro chegava, e ao experimentar o áspero cativeiro, entristecia e definhava, entregava-se ao desespero, fugia como um doido, banzava por aí afora, preferindo-se matar-se a cair novamente nas mãos do senhor”. (Lycurgo). O negro escravo, arrancado das plagas africanas, padecia de mortal tristeza, padecia de banzo, causa frequente de suicídios.

O banzo é um ressentimento entranhado por qualquer princípio, causado por tudo aquilo que pode melancolizar a saudade dos seus, e da sua pátria; o amor devido a alguém; à ingratidão, a aleivosia, a cogitação profunda sobre a perda da liberdade; a meditação continuada da aspereza da tirania com que os tratam. Esta paixão da alma a que se entregam, que só é extinta com a morte. Um forte parecer sobre o caráter dos africanos (fiéis, resolutos, constantes). O banzo era o resultado do ressentimento pelo rigor com que os tratavam os seus senhores, rigor acrescido de crueldade e tirania. (Memória de Oliveira Mendes)

O banzo dos escravos era a nostalgia da medicina europeia. Nostalgia foi o nome científico (do grego nostos, retorno à terra natal, e algos, dor ou sofrimento). Interessa aqui destacar que, como observa Rosen, em fins do século XVIII, a nostalgia era aceita como entidade clínica, reconhecida por médicos como uma enfermidade ocorrente em diversos grupos sociais, não apenas entre soldados, e descrita em vários países da Europa.

O quadro ocorreria com frequência entre soldados (em especial entre os jovens convocados à força) deslocados para regiões distantes de seu torrão natal, em geral em condições muito adversas, em guerras ou ocupações militares. Estes seriam acometidos por um profundo desespero, em razão das saudades de casa ou diante da ideia de jamais voltar a ver o solo pátrio. Este sentimento progrediria até se tornar uma doença, muitas vezes fatal, com manifestações físicas e mentais: enorme tristeza, insônia, fraqueza, falta de apetite, alterações gastrintestinais, ansiedade, palpitações cardíacas, febre, apatia, estupor, além das incessantes e suspirosas lembranças do lar distante. O único remédio eficaz, reconheciam os médicos militares, era o retorno à terra natal, já que os nostálgicos não serviam mais para as armas (Rosen).  

Antônio Samarone.

O FIM DA POLÍTICA



O fim da política.

Como a política ainda não acaba esse ano, teremos eleições, tomo a liberdade de fazer alguns comentários sobre Sergipe. O meu raciocínio parte do pressuposto que o eleitorado votará usando os critérios de sempre. Pelas pesquisas, não tenho sinais de que haverá mudanças.

Nos últimos 35 anos somente cinco políticos governaram Sergipe: João Alves, Albano Franco, Valadares, Marcelo Déda e Jackson Barreto (uma dinastia). Como será a renovação dentro da visão tradicional da política, quem serão os nomes para o futuro?

Sem exercício de adivinhação, pelos espaços que ocupam na vida pública, quatro nomes estão na linha de frente para substituir a dinastia anterior, a médio prazo: o prefeito de Aracaju Edvaldo Nogueira; o senador Eduardo Amorim; e os deputados federais Valadares Filho e André Moura, líder do presidente Temer. O resultado da próxima eleição será decisivo.

Claro, da geração mais nova, na política tradicional, tem outros nomes que podem emergir e se tornar líderes de projetos, chefes políticos. Não vou arriscar nomes. Entre os que estão atrás, na segunda fila da corrida, muitos já tiveram chances e não se firmaram, perderam espaço. Outros estão construindo os seus projetos, podem crescer. O jogo está aberto.

Na corrida eleitoral desse ano só enxergo duas novidades, entre os alternativos: Tarantela pela direita, ao lado de Bolsonaro; e Márcio Souza, pelo PSOL, que podem surpreender. No mais, são figuras repetidas, conhecidas de outros carnavais. Fiquei procurando novidades entre os outsiders, os que se apresentam como “não políticos”, sinceramente, por enquanto nada original. Contudo, a disputa eleitoral está apenas começando.  
Antônio Samarone.

terça-feira, 17 de abril de 2018

A MELHOR IDADE



A melhor idade.

O envelhecimento da população leva inexoravelmente ao aumento das demências irreversíveis. Entre elas, o Alzheimer corresponde a mais de 50%. A perda da memória e da atividade cognitiva apavora a quem sabe do que se trata. Entre as enfermidades, talvez sejam as demências que causem mais temor. Uma pessoa com Alzheimer terminal, ainda pode viver 12 anos.

Contrariando os crentes na auto-ajuda, nas teses simplórias que só envelhece quem quer, basta sentir-se jovem, que os problemas desaparecem; as demências não respeitam essas bobagens. Com a idade elas chegam, ignorando a ilusão e o pensamento positivo dos “velhos de espírito jovens”. Ou seja, as receitas da auto-ajuda não funcionam.

A medicina não se deu por vencida. Se os exercícios da mente (auto-ajuda) não afastam as demências, porque não exercitarmos o cérebro? Isso mesmo, fazer ginástica cerebral (brainfitness), uma forma de aumentar as reservas do cérebro. Se o cérebro está involuindo, atrofiando, regredindo; vamos estimular a neurogênese e a criação de novos circuitos cerebrais, adiando as demências.

Essa é a novidade: com a idade, começarmos a fazer coisas novas. Escovar os dentes com a mão contrária, andar pela casa de trás para frente, conferir as horas pelo espelho, aprender tocar um instrumento, fazer trilhas, ioga, pintar e bordar, desde que estejamos estimulando circuitos inativos do cérebro. Claro, isso não impede a chegada das demências, mas pode adiá-las por um bom tempo. Tem uma certa lógica, o risco é a gente desaprender a andar para frente.
Antônio Samarone.

domingo, 15 de abril de 2018

Os Direitos Humanos Serão Proibidos no Brasil



Os direitos humanos serão proibidos no Brasil.

O desprezo pela vida foi a marca da civilização no Brasil. Foi assim com índios e negros, consumidos pela violência, maus tratos e extermínio, ao longo de nossa história. Continua sendo assim com a população mais pobre. Presos e mortos, sem direito aos serviços da justiça. Dependendo do crime, a execução sumária está socialmente autorizada. A vingança substituiu a justiça.

A relação cangaço/volante era mais civilizada. O medo da violência é quem legitima mais violência. Todos os excluídos são suspeitos de tráfico ou de envolvimento com o crime, no mínimo coniventes, e muitas vezes eles não conseguem provar a sua inocência. São mais de 600 mil jovens encarcerados no Brasil, uma boa parte sem a devida condenação judicial.

Os porta-vozes da violência, diante de chacinas, execuções e linchamentos, esbravejam: - não me venham com essa lorota de direitos humanos, quem tiver pena de bandido, que leve para a sua casa. E os últimos e raros defensores dos “direitos humanos” estão intimidados, caíram na clandestinidade. Ficaram com medo de levantarem as suas bandeiras, e caírem em desgraça na opinião pública.

Só falta aparecer um parlamentar, desses da bancada BBB, para apresentar um projeto de lei proibindo os direitos humanos no Brasil, tornando-o crime inafiançável. E por ironia, ainda colher assinaturas, para torna-lo de iniciativa popular. Em pesquisa recente, 87% da população sente-se mais indignada com os maus-tratos aos animais (sobretudo cães e gatos) que aos humanos. A solidariedade, a fraternidade e a compaixão saíram de moda, e até a misericórdia estrou em vias de extinção.
Antônio Samarone.