sábado, 14 de maio de 2016

CLAUDIO MAGALHÃES DA SILVEIRA


O pesquisador Etevaldo Amorim, das Alagoas, me clareou que o sanitarista Claudio Magalhães da Silveira (formado em 1932), diretor da Saúde Pública em Sergipe durante o Governo de Eronides Carvalho; e Mario Magalhães da Silveira (formado em 1926), no mesmo ano de sua esposa, Nise da Silveira, são pessoas diferentes, primos, os dois médicos sanitarista alagoanos. Faço aqui uma retificação de um artigo publicado anteriormente por mim. Porém, Mario Magalhães da Silveira, o esposo de Nise da Silveira, também ocupou o cargo de Diretor da Saúde Pública em Sergipe, só que durante o segundo Governo do General Augusto Maynard, e que Nise e Mario viveram em Sergipe no período em que estavam na clandestinidade durante o Estado Novo.
Etevaldo Amorim esclareceu: “Mário e Claudio eram irmãos. Os Magalhães da Silveira formaram uma família de grande prestígio em Alagoas: Clemente Magalhães da Silveira foi Senador Estadual; Luiz Silveira foi jornalista, fundador do Jornal de Alagoas; Faustino, pai de Nise, professor; José Magalhães da Silveira (pai de Claudio) era comerciante. Mas o mais famoso deles foi Bonifácio Magalhães da Silveira, o famoso “Major Bonifácio”. Figura de grande influência nos meios culturais e artísticos da época. A música Carapeba, composta por Luiz Bandeira e Julinho e interpretada por Luiz Gonzaga, falava nele:”
“Bonifácio, Major do povo
Velhinho novo a comandar
Carapeba por onde passa
Faz som de graça prá se brincar”.

PRIMEIRO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO DE SERGIPE




Colônia Eronides Carvalho - Primeiro Hospital psiquiátrico de Sergipe localizava-se nas imediações do povoado Sobrado, em Socorro. (foto rara, do arquivo do pesquisador alagoano Etevaldo Amorim).

A passagem do médico Eronides Ferreira de Carvalho pelo Governo de Sergipe (1935 – 1941), foi proveitosa para a Saúde Pública. Organizou o Departamento Estadual de Saúde Pública, incorporando o Instituto Parreiras Horta, o Instituto de Química e Bromotalogia, os serviços de pronto socorro e de assistência dentária e escolar. Nomeou como Diretor da Saúde Pública, um sanitarista de renome nacional, Claudio Magalhães da Silveira. Contratou uma enfermeira diplomada pela Escola Ana Nery, do Rio de Janeiro, e montou uma bem treinada equipe de 12 visitadoras sanitárias.

Transformou uma antiga cadeia pública no Palácio Serigy (inaugurado em 27 de novembro de 1938), sendo considerado o melhor centro de saúde do Nordeste; construiu o primeiro hospital psiquiátrico, Colônia Eronides Carvalho; o leprosário, Colônia Lourenço Magalhães, com 76 leitos, iniciou a construção do hospital Sanatório (tuberculose) e do hospital Infantil (anexo ao hospital de Cirurgia).

Somente em meados de fevereiro de 1941 cerca de 45 doentes mentais deixaram as dependências da Penitenciária Modelo, onde até então eram enclausurados em Sergipe, e são transferidos para o Hospital Colonia, recentemente inaugurado na fazenda Santa Rosa. Em outras palavras, somente a partir de 1941 é que os doentes mentais em Sergipe passam a receber assistência médica, pois até essa data eram trancafiados na penitenciária junto com os criminosos. O fato gerou um grande acontecimento em Aracaju, a população saiu às ruas para acompanhar extasiados a novidade. Os doidos foram fotografados, para assinalar esse fato histórico.
 
Esse hospital colonia destinado ao atendimento dos alienados mentais estava localizado a cerca de 10 Km de Aracaju, na fazenda Santa Rosa, nas proximidades do atual povoado Sobrado, município de Socorro, estava estruturado para acomodar até 102 pacientes. Sua estrutura era formada por oito pavilhões, assim distribuídos: um pavilhão administrativo, onde funcionavam a diretoria, a secretaria, apartamento para o médico interno, laboratório, farmácia, biblioteca, gabinete dentário, de otorrinolaringologia, almoxarifado e sala para pequenas cirurgia; dois pavilhões para os calmos (masculino e feminino); dois pavilhões para os agitados; um pavilhão de refeitório; um pavilhão de rouparia e um outro para a capela e o necrotério.

Era considerada como uma cidade de portas abertas, uma psicolândia, onde estavam também previstas atividades esportivas e de lazer, introduzindo a proposta de ludoterapia. Para quem acabava de sair da cadeia pública tudo isso não deixava de ser uma grande novidade. Completando as ações hospitalares, também funcionava no Serigy um moderno ambulatório para o tratamento de doenças nervosas e mentais, e um escritório de higiene e profilaxia mental. Para a manutenção dessa estrutura foi criado um novo tributo: a taxa de assistência aos psicopatas.


Uma pena que a saúde pública em Sergipe dificilmente transformas as boas intenções em realidade. Com pouco tempo de funcionamento, a Colonia Eronides Carvalho estava com as paredes rachadas, pouco zelo na construção, e os doentes aguardando um local para a sua transferência. 

ANTONIO MILITÃO DE BRAGANÇA.




(OBSERVAÇÃO DE DOIS CASOS DE AMIGDALOTOMIA COM APLICAÇÃO DE COCAÍNA, pelo Dr. Antônio Militão de Bragança).

 Lendo em um dos números da Revista de Medicina, de Paris, a descrição de um caso de amigdalotomia praticada pelo Dr. Millard, no hospital de Beaujon, na qual empregou o ilustre médico a cocaína como anestésico, por minha vez lembrei-me de, oportunamente, estudar e apreciar os efeitos surpreendentes de tão precioso agente terapêutico. De posse desse alcalóide, proporcionando-me ultimamente a clínica dois doentes afetados de amigdalite crônica, operei a ambos e tive então ocasião de observar os resultados da anestesia cocaínica. O primeiro operado foi um menino de sete anos de idade, filho do do Sr. Capitão Antônio Luiz da Silva Tavares. A tonsila direita apresentava um volume extraordinário, ocupando quase todo o istmo da garganta. A esquerda estava ligeiramente hipertrofiada. Fiz, com intervalos de cinco minutos, quatro aplicações com um pincel embebido em uma solução de Cloridrato de Cocaína a 20% em toda a superfície de ambas as amígdalas e, seis minutos depois da última aplicação, a anestesia era completa. Imediatamente pratiquei a secção da tonsila direita, sendo a dor acusada pelo pequeno doente quase nula. O segundo operado foi um rapaz de quinze anos de idade, filho do Sr. Manoel José d’ Oliveira. Ambas as amígdalas estavam enormemente hipertrofiadas. Como no caso precedente, fiz as aplicações da mesma solução de Cloridrato de Cocaína. Anestesiadas as hipertrofiadas tonsilas, pratiquei sucessivamente a sua extirpação, não acusando o paciente a menor dor. Em ambos os casos servi-me do amigdalótomo de Loryenne. A observação do Dr Millard refere-se a uma rapariga de quinze anos de idade, cujas amígdalas estavam hipertrofiadas a tal ponto que se tocavam de cima a baixo, obstruindo completamente o istmo da garganta. Feitas as aplicações da solução anestésica, procedeu o ilustre médico do hospital de Beaujom a amigdalotomia, não demonstrando a doente o menor indício de sofrimento. Estas observações, feitas em pessoas de sexo e idade diferentes, provam exuberantemente as propriedades analgésicas da cocaína, deixando prever os resultados brilhantes que pode colher a cirurgia com o emprego desse alcalóide em muitas outras operações de garganta. Brevemente apreciarei a influência anestesiante da cocaína em algumas operações de olhos que tenho de praticar.

 _Pão de Açúcar(AL), 28 de setembro de 1885. (Publicado no jornal O TRABALHO, edição de 3 de outubro de 1885).  

_ (Republicado no Blog do pesquisador Etevaldo Amorim, em 27/11/2009).

ANTÔNIO MILITÃO DE BRAGANÇA Nasceu em 31 de julho de 1860 em Laranjeiras/SE, filho de Dr. Francisco Alberto de Bragança e Possidônia Maria de Santa Cruz Bragança. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 15 de dezembro de 1883, defendendo a tese “Paralisias Consecutivas às Moléstias Agudas”. Recém-formado, transferiu-se para o Rio de Janeiro por breve espaço de tempo e voltou para Laranjeiras onde montou consultório na Rua Direita. Informado da inexistência de médico em Pão de Açúcar/AL, transferiu-se para esta cidade ribeirinha, onde permaneceu por sete anos. Em 1892 regressou a Laranjeiras. É patrono da cadeira dois da Academia Sergipana de Medicina. Faleceu em 27 de março de 1949, em Aracaju/SE, com 89 anos. 

Foto: Hospital São João de Deus, em Laranjeiras.

domingo, 17 de abril de 2016

SÓ A ANTROPOFAGIA NOS UNE.





Antonio Samarone.

Hoje é o dia de uma batalha sem ganhadores. A sociedade brasileira dividida, eivada de ódios, aprofundará as divergências de raiz, das origens da nossa formação nacional. Nunca tivemos uma guerra de secessão. Contudo, colonizadores e nativos, nobres e plebeus, senhores e escravos, ricos e pobres, elite e povo, nunca resolveram as suas desavenças e contradições. “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.” Relembrando o velho manifesto de Oswald de Andrade.
Faz 460 anos que a nau Nossa Senhora da Ajuda encalhou na foz do Vaza Barris, Praias de Sergipe d’el Rey, onde os tupinambás devoraram, no maior ritual antropofágico da nossa história, o Bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, um letrado formado em Sorbone, que não reconhecia os índios como filhos de Deus; o Provedor-Mor Antônio Cardoso de Barros, e toda a tripulação, formada por 90 colonizadores brancos, entre os quais, nobres e fidalgos portugueses. A padroeira de Itaporanga é uma homenagem à nau naufragada. As escolas ensinam erradamente que o naufrágio ocorreu na Foz do Rio Coruripe, e os índios foram os caetés. Por via das dúvidas, as duas nações, caetés e tupinambás foram exterminadas.   
Em 1557, a regente de Portugal, Catarina de Áustria, numa cruel sentença, declarou guerra justa e perpétua aos índios caetés e tupinambás e aos seus descendentes, independente de sexo e idade, por considerá-los culpado pelo sacrifício do Bispo. Se alguns escapassem deveriam ser escravizados. Essa sentença foi uma marca da nossa história e é cumprida até hoje. Nas revoltas populares derrotadas, nunca se perdoou os revoltosos após a rendição, geralmente são dizimados e as suas cabeças cortadas e expostas em vias públicas. Foi assim em Palmares, Canudos e tantas outras.
Os dois embates fundadores da relação povo/elite no Brasil, o nós/eles, ocorreram na bacia do Vaza Barris. O ritual de antropofagia na foz do Vaza, onde o Bispo Sardinha e comitiva foram degustados pelos tupinambás; e a guerra de Canudos, em Belo Monte, comunidade erguida nas baixadas férteis do Vaza Barris, em suas nascentes, lá para as bandas do Uauá. Relembrando Euclides da Cunha: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.” Como se não bastasse, desenterraram o cadáver de Conselheiro, para que a cabeça fosse cortada e levada como um troféu de guerra.
Essa relação pouco mudou. A sentença da Rainha Catarina continua vigorando, basta observarmos o que ainda ocorre com pobres e pretos quando tidos como suspeitos por supostos crimes ou mal feitos. Essa inclusão social ainda não ocorreu. Uma parte da sociedade, (os “caboclos que querem ser ingleses”), acredita que os males do Brasil decorrem da matéria prima que formatou o povo, da mestiçagem atávica; acredita que nunca seremos uma Nação desenvolvida, que passaremos da “barbárie a decadência, sem passarmos pela civilização”, como disse Lévi-Strauss. O desejo desta turma é sair do Brasil.
A outra parte da sociedade, não conseguiu até o momento encontrar um caminho para integração. Devorar o seu inimigo, significa a incorporação das suas virtudes e bravuras, num secular ritual antropofágico. Que cesse a convivência autoritária e violenta, onde o homicídio é um crime banalizado, e grupos em confrontos visam à eliminação mútua, pelo menos simbolicamente.

Essa separação povo/elite é profunda no Brasil, atávica, explorada irresponsavelmente pelo marqueteiro do PT nas últimas eleições, e que se mostrou mentirosa na hora de governar. Nem existem saídas com a exclusão social, nem com o poder público corroído pela corrupção e pelo parasitismo. Seja qual for o resultado da votação do impeachment, nada mudará por esses caminhos. Os grupos políticos em disputa não representam as ruas, são faces da mesma moeda, desde o Império. Não estão preocupadas com o Brasil. Acho que o alerta recente de uma canção popular que circula nas redes sociais, vale para todos. “O morro mandou dizer, que se a senzala descer, ninguém vai segurar”. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

NASCE UMA ESPERANÇA NO SUS EM SERGIPE.



Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.


A interiorização das ações de saúde e saneamento (PIASS), na gestão de José Machado de Souza, final da década de 1970, foi à última experiência consistente de saúde pública, no âmbito da Secretária Estadual de Saúde.
A saúde em Sergipe, nos últimos 30 anos, teve a infelicidade de ser conduzida sob a égide dos interesses partidários e eleitoreiros, em três longas e penosas experiências. Ao final de cada gestão, não se avançava na qualidade dos serviços prestados a população, contudo, o gestor elegia-se o deputado federal mais votado e tornava-se uma liderança política.
Na última dessas aventuras, curiosamente durante o “governo das mudanças”, o modo petista de governar desmontou a rede básica; aparelhou o controle social, desmobilizou os servidores, com o uso do critério de adesão política para a escolha das chefias e gerências; levou a relação com os servidores para estado de beligerância permanente; e operou os recursos financeiros de forma perdulária. O próprio governador Marcelo Déda, num momento de desespero, foi levado a assumir pessoalmente as responsabilidades com a Saúde.
Com a posse de Jackson Barreto uma surpresa, a gestão da saúde foi entregue a um “outsider”, um engenheiro agrônomo, Zezinho Sobral. Sem a pretensão de realizar uma reforma sanitária, sem verdades prévias, humildemente, procurou os trabalhadores da saúde para pedir apoio e trabalhar em parceria, ocupou as gerencias com técnicos, pois freios no descontrole financeiro, desmontou os comitês políticos, botou o pé na estrada, e foi tentar consertar o que parece não ter mais jeito.  
Claro, muita coisa continua funcionando mal, o atendimento continua precário, falta isso, falta aquilo, mas muita coisa já melhorou. Não é fácil montar uma rede de serviços descentes a partir da situação encontrada. A bagaceira era grande. Contudo, os ventos começaram a soprar noutra direção.

Zezinho Sobral precisou deixar a Secretaria, e aí surgiram as especulações: quem seria o substituto? Para a minha surpresa e contentamento, o Governador anunciou hoje o nome de Conceição Mendonça, uma enfermeira, sem padrinhos políticos, sem sobrenome famoso; uma técnica, legitimada pela competência e compromisso com a coisa pública, sem ambição de ser chefe politico, sem ambição de enriquecimento, uma devota do serviço público, uma servidora do Sistema Único de Saúde (SUS). Quem sabe não seja esse o caminho? A Saúde que não deu certo em mãos dos coronéis da política pode ter encontrado o seu caminho na gestão profissionalizada, técnica, centrada no planejamento e no fim dos desperdícios com o dinheiro público. 

sábado, 5 de março de 2016

SECRETARIA DA SAÚDE E ASSISTÊNCIA SOCIAL EM SERGIPE (MEMÓRIA).

                          
Antonio Samarone de Santana.

O Governador Seixas Dória indicou como Diretor do então Departamento de Saúde Pública o Dr. Alexandre Menezes, Sanitarista pernambucano radicado em Sergipe, que entre suas metas incluía a transformação do Departamento, vinculado a Secretária de Educação, numa Secretária independente. O golpe militar de 1964 frustrou esse plano.

O Governador Celso de Carvalho, em 16 de outubro de 1964, sancionou a lei nº 1.289, criando a Secretaria da Saúde e Assistência Social, indicando como primeiro Secretário, o médico sanitarista Walter Cardoso, intelectual experiente e de boa formação. O Dr. Walter tomou posse no dia 22 de outubro, às 10 horas da manhã, chamando a atenção para a falta de saneamento, e para os elevados índices de diarreia infantil no estado, definido suas metas.

As prioridades estavam mudando, a Saúde que no Brasil era sinônimo de Saúde Pública, passava a abrigar as ações de assistência social. A nova Secretária possuía serviços de profilaxia da lepra, da tuberculose, um serviço de amparo a maternidade e a infância, e o serviço de assistência aos psicopatas. Chama a atenção o fato de que em Sergipe, a assistência social é anterior a assistência médica entre os serviços ofertados pela instituição sanitária.

A lei trás uma obrigatoriedade interessante: Art. 4º - O Cargo de Secretário de Saúde e Assistência Social, de imediata confiança e livre escolha do Governador do Estado, será exercido, em comissão, por medico de preferência especialistas em Saúde Públicas, com os direitos, vantagens e prerrogativas dos demais Secretários de Estado.  

HOSPITAL SANTA IZABEL (PARTE CINCO)

Hospital Santa Izabel (Parte Cinco)

Antonio Samarone de Santana

A política de Olympio Campos, Presidente do Estado, na questão do hospital, como já vimos, era repassá-lo para uma instituição filantrópica. Para legalizar a passagem foi aprovada a lei n.º 391, de 23 de outubro de 1900, em que o seu artigo 1.o autoriza o Governo a entregar o Hospital de Caridade de Aracaju a uma instituição de caridade que se dispuser a administrá-lo. De acordo com essa lei, em seu artigo 3.o, os bens do hospital não seriam transferidos (“são inalienáveis os bens que constituem o patrimônio do Hospital”).

Para atender ao previsto na lei n. º 391, foi criada a “Associação Aracajuana de Beneficência”, para assumir a administração do hospital, que passará a ser chamado de Santa Isabel, assim permanecendo até os dias de hoje.

Os estatutos da “Associação Aracajuana de Beneficência” foram aprovados pelos decretos 497 e 498 de 30 de março e 19 de abril de 1901, respectivamente. O primeiro presidente da Associação foi o senhor Joseph Dória Netto. No momento da fundação, a associação possuía cerca de 105 sócios regulares. Como encarregado clínico do hospital permaneceu o Dr. José Moreira de Magalhães.

No momento da transferência, o Hospital possuía 60 leitos e o seguinte patrimônio: apólices do Governo da União, no valor de 6:500$000 réis; letras do Banco da Bahia, no valor de 6:000$000 réis; casa do mercado; edifício do talho de carne verde; edifício do hospital; dois cemitérios (Santa Isabel e Cruz Vermelha), um prédio na rua Aurora e terrenos na rua São Benedito.

Entretanto, no primeiro momento, o patrimônio do Hospital de Caridade não pertencia à Associação Aracajuana de Beneficência. Somente com a lei n. º 486, de 14 de outubro de 1904, no Governo de Josino Menezes, é que os bens do antigo Hospital de Caridade foram transferidos para a Associação.

A evolução do Hospital Santa Isabel se deu muito lentamente. Em 1908, o seu corpo clínico havia aumentado para três médicos, os Drs. Aristides Fontes, Cândido Costa Pinto e, uma novidade, um médico dos olhos, o Dr. Edilberto de Souza Campos, que, em 07 de janeiro de 1908, interna o primeiro paciente com esse tipo de moléstia no referido hospital. O hospital possuía ainda um capelão, o vigário Antídio Telles de Menezes, e os serviços de administração e enfermagem haviam sido entregues às “Irmãs do Santíssimo Sacramento”, e, em particular, à Irmã Gregorina, que irá assumir uma posição de destaque nessa instituição de caridade.

O funcionamento do hospital continuava dentro da ótica de muita caridade e pouca ciência. Em 1908, na enfermaria das mulheres, cujo encarregado era o Dr. Aristides Fontes, foram internadas 217 pacientes, das quais 34 faleceram. Uma mortalidade de mais de quinze por cento. O Dr. Cândido Costa Pinto encarregado das enfermarias São Sebastião e São Roque, descreve de forma sucinta as condições em que trabalhava:

“Estas enfermarias foram freqüentadas por 631 doentes, dos quais 50 faleceram, sendo que muitos deles entraram agonizantes, saindo a maioria absoluta curada e os demais muito melhorados. É pena dizer-se que muitos doentes tem ainda horror a uma casa de caridade, a ponto de que logo que sentem alguma melhora nos seus padecimentos insistirem por sua alta, a despeito de repetidos conselhos, e outros há que não querem sujeitar-se a certas operações que trazem com certeza completa cura.”

Com a chegada à Presidência da Associação Aracajuana de Beneficência do senhor Simeão Telles de Menezes Sobral, o hospital Santa Isabel receberá um grande alento. Uma das medidas foi o convite para que o Dr. Augusto Leite fizesse parte do corpo clínico daquela casa. Em 10 de janeiro de 1913, o Dr. Augusto assume suas tarefas no Santa Isabel, ao lado do Dr. Francisco de Barros Pimentel Franco, e em julho, apresenta as primeiras críticas ao funcionamento do hospital:

“Bem situado, conquanto de acesso difícil, o hospital Santa Isabel ainda não apresenta as condições higiênicas necessárias à realização perfeita do seu elevado fim”.
“Conta à enfermaria São Roque com 38 leitos, onde se alinham, numa convivência lamentável, casos os mais diversos de medicina e de cirurgia”.

Eram péssimas as instalações do Hospital Santa Isabel:

“Não possuía autoclave. Possuía apenas alguns instrumentos cirúrgicos, alguns vidros de ventosas e um termocautério de Pasquelin. Os doentes eram distribuídos, segundo o sexo, pelas duas enfermarias, indiferente, doente de moléstia aguda ou crônica, infecciosa ou não. Ocupavam camas ou esteiras. Não havia lugar especial para crianças. A sala de operações era a mesma sala de curativos.”

A luta de Augusto Leite para transformar o Santa Isabel num hospital adequado à nova medicina, incorporando os princípios da bacteriologia, da patologia e das análises laboratoriais, teve algum resultado.

O Dr. Augusto Leite precisou criar as condições para o desenvolvimento da clínica cirúrgica naquela casa. Desalojou as freiras dos seus aposentos e o diretor do seu gabinete, criando uma sala cirúrgica e uma pequena enfermaria para seus doentes, organizando o primeiro serviço de clínica cirúrgica de Sergipe.

“Operava no Hospital Santa Isabel, escandalosamente protegido pela providência. Não tínhamos laboratório, não tínhamos tensiômetro, nem eletrocardiograma, nem enfermaria idônea. Em começo, o nosso anestésico era o clorofórmio, proibido hoje de entrar nas salas de operações”.

O Dr. Augusto Leite, em junho de 1913, viaja para a Europa, passando seis meses em Paris, onde irá fazer um curso de “técnica operatória” e aperfeiçoar-se em clínica cirúrgica. Nessa sua primeira viagem a Paris o Dr. Augusto Leite ainda faz cursos de Partos (com Wallich e Cauvelaire), citoscopia (com Papin), olhos (com Lapersonne), otorrinolaringologia (com Sebileau) e moléstias da nutrição (com Marcel e Henri Labbé). Com o seu retomo é que começa o funcionamento da clínica cirúrgica do hospital Santa Isabel.

“A 9 de novembro de 1914, com material cirúrgico e de esterilização trazido por ele mesmo da Europa, o Dr. Augusto Leite expôs à luz do dia a cavidade abdominal de uma doente, para dela retirar um fibromioma uterino. Até então, nunca, ninguém em Sergipe abrira um ventre em operação cirúrgica. Estava, finalmente, inaugurado o ciclo da grande cirurgia no estado.”

Com todas as dificuldades, entre novembro de 1914 e outubro de 1926, o Dr. Augusto Leite realizou nesse hospital 408 laparotomias, 19 tireoidectomias, 61 talhas hipogástricas e 11 esplenectomias.
Augusto Leite desenvolveu seu trabalho cirúrgico auxiliado, inicialmente, pelos Drs. Aristides Fontes, Josaphat Brandão e por seu irmão, Sylvio César Leite. Curiosamente, foi com esse irmão que iniciou suas atividades como operador, ainda como estudante, quando passava as férias em Sergipe. O seu irmão, Dr. Sílvio César Leite, já era clínico conceituado do município de Riachuelo:

“Sílvio Leite era médico de sólida cultura humanista, bom clínico, e de esplêndida formação moral. Exerceu sobre mim, grande influência. Aprendi muito, com ele. Ajudava-o em operações comuns, naquele tempo. Permitia por outro lado, que eu também operasse, sob suas vistas”.

Antes da chegada do Dr. Augusto Leite a Sergipe, em 03 de maio de 1909, a prática médica andava distante do caminho que iria percorrer no século XX. Por esse tempo praticava-se em Sergipe apenas pequenas cirurgias e, de vez em quando, um ou outro médico aventurava-se numa amputação. Entretanto, mesmo antes de fazer parte do corpo clínico do Hospital Santa Isabel, o Dr. Augusto Leite já exercitava cirurgia em domicílio.


“Comecei a operar em Aracaju, antes de entrar para o Santa Isabel. Operava nas residências dos doentes. Operei muito. Até mastectomias largas cheguei a praticar em domicílios. Fiz partos em casebres de palha, à luz de querosene.”