quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS DA LOUCURA EM SERGIPE



Doença Mental.

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.

O Jornal Correio de Aracaju, edição de 23 de fevereiro de 1943, divulgou com grande ênfase uma carta aberta do Dr. Garcia Moreno (foto), Diretor da Colônia de Psicopatas, anunciando importantes incorporações tecnológicas da psiquiatria sergipana. Observem os termos mais esclarecedores da missiva:
“Comunico que desde outubro de 1942 o nosso Hospital Colônia de Psicopatas inclui em seus trabalhos rotineiro, ao lado da aplicação mais antiga dos métodos de Sakel e Meduna (insulina e cardiazol), a convulsoterapia de Cerletti e Bini”.
“Possuímos um aparelho de eletrochoque terapia fabricado pela Offener Electronies, dos Estados Unidos, do tipo mais moderno e portador das mais recentes inovações técnicas, de notáveis vantagens práticas (máquina de curar louco). Custou ao Governo Estado perto de treze mil cruzeiros e chegou a Aracaju por via aérea, o aparelho pesa menos de oito quilos”.
“Quase quarenta pacientes já foram, entre nós, submetido ao método de Cerletti, num total de crises convulsivas que andam perto de novecentas”.
A convulsoterapia elétrica era apontada como um grande avanço para psiquiatria pelas seguintes vantagens: baixo custo; rapidez na aplicação; e substituir a convulsoterapia cardiozóliza, muito temida pelos pacientes devido à elevada freqüência de fratura de costelas.
Continua Dr. Garcia Moreno em sua carta:
“Aqui, como em outras partes, duas a três aplicações semanais de uma corrente elétrica de 450 miliampere, durante 0,2 segundos através do cérebro, tem em pouco mais de um mês reconduzido a vida psíquica normal homens e mulheres”.

“Como se vê, a psiquiatria não é mais uma especialidade médica de literatos e filósofos. Não na medicina moderna, afora a cirurgia, setor de maiores ousadias técnicas. Como se vê, o doente mental encontra hoje recursos terapêuticos tão eficientes quanto os que beneficiam as demais especialidades médicas”.
Entre 1917 e 1935, quatro métodos para produzir choque fisiológico nos psicopatas foram descobertos, testados e usados na prática psiquiátrica, todos no continente europeu: Febre induzida por malária, para tratar paresia neurosifilítica, descoberta em Viena por Julius Wagner-Jauregg, em 1917; Coma e convulsões induzidas por insulina, para tratar esquizofrenia, descoberta em Berlim por Manfred Joshua Sakel, em 1927; Convulsões induzidas por metrazol, para tratar esquizofrenia e psicoses afetivas, descoberta em Budapest por Ladislaus von Meduna, em 1934, e Terapia por choque eletroconvulsivo, descoberta por Ugo Cerletti e Lucio Bini em Roma, 1937.
A narcose, sono prolongado por cerca de dez dias induzido por drogas como hidrato de cloral, paraldeído e barbitúricos, foi um método terapêutico introduzido pelo psiquiatra suíço Jakob Klaesi, em 1922.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

POR QUE O MOSQUITO CONTINUA GANHANDO A GUERRA?

Por que o Aedes aegypti continua ganhando a guerra?

ANTONIO SAMARONE DE SANTANA.
ACADEMIA SERGIPANA DE MEDICINA.

A estratégia do Ministério da Saúde no combate ao mosquito não vem dando certo há 30 anos, desde a primeira epidemia de dengue em 1986. O governo insiste. Trata-se do esforço em matar o mosquito, seja com inseticida e larvicida, ou com a eliminação dos pequenos criadouros domésticos. Para isso, resolveu usar o exército, numa visível jogada de marketing; e realizar “mutirões” de convencimento, visando sensibilizar a sociedade, para que todos se engajem nessa missão. O slogan da estratégia é “um mosquito não é mais forte que um país inteiro”.
A novidade do “mata mosquito” são os recursos tecnológicos: esterilizar os mosquitos com radiações, lançar mosquitos transgênicos no meio ambiente ou mosquitos contaminados com a bactéria wolbachia, tudo dentro da lógica de eliminação por concorrência do mosquito selvagem. Tudo feito às pressas, sem uma consistente avaliação das consequências. Contudo, nem mesmo dentro dessa estratégia limitada, as ações da saúde pública têm sido permanentes e efetivas. O “mata mosquito” com a tímida participação dos agentes de saúde é um faz-de-conta.
No caso de Aracaju, nem a estratégia limitada está funcionando, o descaso é exagerado. O munícipio dispõe de 900 agentes de saúde, que se devidamente mobilizados, dariam uma grande contribuição; possui recursos para a eliminação dos grandes criadouros; e tem se limitado a rotina dos agentes de endemias. A ação do Estado tem sido mais intensa em vários municípios, inclusive na capital.
O que os pesquisadores da Saúde Pública, congregados na ABRASCO, têm insistido é na eliminação dos grandes criadouros, nas ações de saneamento ambiental, coleta do lixo, fornecimento permanente de água potável; somado a ações permanentes de saúde pública. O atual ecossistema urbano é favorável ao mosquito, onde ele se encontra no topo da cadeia alimentar. Mesmo com a provável descoberta de vacinas, como foi o caso da febre amarela e dengue, o risco de novas epidemias por outros vírus selvagens continua.

O mais perverso, é que nos próximos meses a tríplice epidemia vai arrefecer, devido ao inverno, como vem ocorrendo há décadas; e os méritos serão atribuídos às ações de marketing do Ministério da Saúde.   

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SENHORA PRESIDENTA, O EXÉRCITO É OUTRO...



Senhora Presidenta, o Exército é outro...

Diante da repercussão internacional da tríplice epidemia (Zica, Dengue e chikungunya), e em especial da explosão dos casos de microcefalia; a Senhora resolveu organizar “um dia” (13) de esforço nacional para o combate ao mosquito. A estratégia escolhida foi a mobilização das Forças Armadas, acompanhado de uma ampla campanha de marketing. A intenção foi boa.
Mesmo considerando que a presença dos mosquitos decorre sobretudo da falta de saneamento ambiental, é consenso, que ação do poder público eliminando os criadouros domiciliares e peridomiciliares, em parceria com a população, reduz a infestação dos mosquitos, e pode interromper a transmissão das doenças.  
Em dezembro de 2015, o Sistema Único de Saúde (SUS) possuía 332.289 agentes comunitários de saúde credenciados pelo Ministério da Saúde, presentes em 5.504 municípios; profissionais que residem nas comunidades onde atuam, conhecem as pessoas, as vilas e veredas, já visitaram cada casa dezenas de vezes, são experientes; esses agentes estão vinculados a 48.391 equipes de Saúde da Família; compostas por médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, e que já cadastraram e visitaram a imensa maioria dos domicílios. Essa é a rede básica do SUS.
Senhora Presidenta, esse é Exército da Saúde pública. Qualquer estratégia para dar certo precisa centrar o combate ao mosquito nesses profissionais. A Senhora poderia organizar uma Força Sanitária Nacional, com esses agentes, centralizar o comando, com a missão prioritária de visitar todas as casas, permanentemente, e fazer uma varredura rigorosa dos criadouros do mosquito. Estamos diante de uma emergência. Claro que a ajuda das forças armadas, das igrejas, das escolas, dos sindicatos, das entidades empresariais, e de que mais quiser ajudar, será muito importante. Mas a base da ação não pode deixar de ser o SUS.

Só mais um pedido, a tarefa é reduzir o número de criadouros, suspenda imediatamente o envenenamento do meio ambiente e das pessoas, com o uso abusivo de inseticidas (fumacês) e larvicidas, já condenado por especialistas da ABRASCO. A experiência com o uso dos organoclorados (DDT, BHC, etc.) foi desastrosa para a saúde pública. 

Antonio Samarone - médico sanitarista.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A GRIPE ESPANHOLA EM SERGIPE (1918)


Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.

A gripe ou influenza é uma doença infecciosa, geralmente benigna, provocada por vírus e transmitida por contato direto. Algumas vezes, em decorrência de mutações genéticas do vírus, pode transformar-se em doença fatal. A causa da gripe foi inicialmente atribuída a um bacilo, isolado em 1891, pelo médico alemão Richard Pfeiffer. Somente em 1933 o vírus da doença é identificado por cientistas britânicos, abrindo a possibilidade de elaboração de vacinas contra a gripe.
Em 1918, uma epidemia de gripe originada na Espanha se generalizou pela Europa, então marcada pelos efeitos da I Guerra Mundial, e de lá se propagou para a Ásia e o continente americano, tornando-se uma pandemia. As estimativas apontaram cerca de vinte milhões de mortos entre os seiscentos milhões de infectados em todo o mundo.
A gripe espanhola chegou ao Brasil a bordo do navio S. S. Demerara, que em 21 de setembro aportou no Recife proveniente do porto de Dacar, na África, a epidemia se espalhou, em poucas semanas, pelas principais cidades do país.
Em Sergipe, a gripe espanhola chegou em 20 de outubro de 1918, quando seis pessoas contaminadas pelo referido mal desembarcam do “Vapor Itapacy”. Logo que a informação chegou ao conhecimento do Diretor de Higiene, essas pessoas foram removidas para o Lazareto Público, mas já era tarde. Em 04 de novembro, o mal já havia se espalhado pelo Estado, sendo a primeira vítima fatal Georgina de Jesus, negra de 25 anos e residente à Rua de Campos, em Aracaju[i].
O Governo tomou todas as providências que a sua estrutura permitia: criou um “Serviço de Combate à Gripe Espanhola” e entregou a coordenação ao Dr. Eronides de Carvalho. Convocou, para fazer parte do serviço, todo o pessoal médico ligado aos serviços públicos, ou seja, os Drs. Octaviano Melo, Diretor de Higiene; Pimentel Franco, Diretor da Assistência Pública; Carlos Menezes, Diretor do Gabinete de Identificação e Estatística e Médico legista da Policia; Álvaro Telles de Menezes, médico da Prefeitura e Alexandre Freire, Diretor do grupo Escolar “General Valladão”. Além do seu pessoal, comissionou os Drs. José Francisco da Silva Melo, médico, e Durval Madureira Freire, João Alfredo de Marsillac Motta, José Alves Tavares e Pedro Garcia Moreno, farmacêuticos, e Francisco Accioly Sobral, cirurgião-dentista[ii].
O Presidente recorreu à Assembléia Legislativa pedindo liberação de recursos para enfrentar o problema. Em 08 de novembro, a lei n.º 765 abriu créditos especiais de 10 contos de réis para o combate à epidemia e, poucos dias após, em 16 de novembro, a gravidade e velocidade de expansão da doença obrigou a aprovação de uma nova lei, a de n.º 766, abrindo créditos de cem contos de réis para o mesmo fim. A previsão orçamentária do Estado para o ano de 1918, destinava à rubrica Higiene e Saúde Pública pouco mais de 33 contos de réis[iii].
Diante das deficiências do Poder Público para enfrentar a epidemia, a sociedade reagiu de forma inusitada: pela primeira vez, em Sergipe, a população se mobilizou para enfrentar um problema de saúde pública. Entidades, empresas, clero, instituições beneficentes movimentaram recursos e pessoas para enfrentar a epidemia. A loja Maçônica “Cotinguiba” assumiu a responsabilidade pela assistência da área que ia da Rua Barão de Maruim até a localidade denominada “carro quebrado”. A Maçonaria entregou a coordenação dos trabalhos ao professor José de Alencar Cardoso, e contratou o Dr. Berílio Leite para realizar os trabalhos clínicos. 885 doentes foram atendidos pela loja maçônica, com 19 óbitos.
Importante também foi à participação da Associação Comercial, responsável pelas ruas Divina Pastora, Bonfim, Socorro, Vitória, Desaperta, Topo e Ignácio de Loyola. A entidade comercial contratou os serviços clínicos do Dr. Álvaro Teles de Menezes e atendeu a um total de 795 doentes. O Posto de Santo Antônio atendeu 1.200 doentes e ficou sob a responsabilidade do padre Abílio Mendes, de Garcia Rosa e Silvério Fontes e os serviços clínicos entregues à farmacêutica Cesartina Regis. Participaram também no combate à epidemia a Cruz Vermelha (320 doentes), Hospital Santa Isabel (50 doentes), quartel do 41.º Batalhão de Caçadores (352 doentes), fábrica Confiança (382 doentes), fábrica Sergipe Industrial (763 doentes), Escola de Aprendizes de Marinheiros (72 doentes), quartel de polícia (77 doentes), cadeia pública (83 doentes), Compagnie des Chemins de Fer (123 doentes) e Lazareto Público (32 doentes).
O atendimento consistia, basicamente, na distribuição de medicamentos entre a população indigente, distribuição de alimentos ou dinheiro, desinfecção das casas onde ocorriam óbitos e na remoção dos cadáveres. O tratamento usado para enfrentar a gripe era um purgativo, óleo de rícino ou água laxativa vienense, um antitérmico, cápsula de aspirina, pyramidon ou antipyrina, e um xarope de alcatrão. Para desinfetar as casas usava-se creolina, alcatrão e gás sulfuroso, como também se queimavam alcatrão nas ruas e praças.
“Em noite de 03 de dezembro de 1918, ordenei que se queimasse alcatrão nas praças Tobias Barreto e na do mercado, bem como nas ruas de Estância, Laranjeiras, São Cristóvão, Tôpo, São José, Estrada Nova, Alecrim, Geru, Divina Pastora, Bonfim, Victória e São João.”[iv]
Como demonstração da importância do atendimento prestado pela sociedade civil em Aracaju durante a epidemia, a Diretoria de Higiene, ou seja, o Poder Público, atendeu 2.790 doentes, enquanto as organizações não governamentais atenderam 4.488, ou seja, quase o dobro do Estado.
Durante os três meses que a pandemia assolou Sergipe. O número de casos registrados e o número de óbitos da epidemia de gripe espanhola, segundo o relatório de 1919, do Presidente Pereira Lobo, foram de 25.910 casos, com 997 óbitos em todo o Estado; sendo que somente em Aracaju aconteceram 7.974 casos, com 229 óbitos.
Esses dados foram contestados, inclusive pelo próprio chefe do combate, Dr. Eronides de Carvalho, que afirmava em seu relatório que o número de casos foi bem superior, devido a duas razões principais: os serviços de registros não eram merecedores de fé e só eram registrados os casos que se verificavam em indigentes que precisaram do socorro público.
O que ficou demonstrado é que Sergipe, pelo menos até o ano de 1919, ainda não tinha como enfrentar as epidemias. As ações eram improvisadas. Nesse caso da gripe espanhola toda rede escolar foi fechada, como várias outras instituições coletivas. O que ficava cada vez mais claro era a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de higiene e saúde pública.



[i] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[ii] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[iii] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[iv] Relatório do Chefe do Combate à Espanhola em Sergipe, Dr. Eronides de Carvalho, publicado no jornal “O Estado de Sergipe”, edições a partir de 08 de fevereiro de 1918.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O FIM DA SAÚDE PÚBLICA


ANTONIO SAMARONE
Academia Sergipana de Medicina.

O Ministério da Saúde decretou “estado de emergência” em Saúde Pública. O Nordeste foi surpreendido por uma epidemia de microcefalia, doença incapacitante e sem tratamento. Para agravar, os infectologistas suspeitam que o zika vírus seja a causa. Como esclarecimento, o zika vírus, febre amarela, febre chicungunha e a conhecida dengue são transmitidos pelo mesmo mosquito, o Aedes Aegypti. No momento, o único recurso eficaz para o combate a essas enfermidades é a erradicação do mosquito ou, no mínimo, o seu controle. Essa luta é centenária.
No inicio do Século XX (1902 a 1907), Oswaldo Cruz teve sucesso no controle do Aedes aegypti, eliminando a febre amarela do Rio de janeiro, através das brigadas sanitárias. Com o incentivo da Fundação Rockefeller, nas décadas de 1930 e 1940, foram executadas intensas campanhas de erradicação de Aedes aegypti no Brasil. Em 1947, a Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde decidiram coordenar a erradicação do Aedes aegypti no continente. Em 1956, foi criado o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENERu), órgão que assumiu as ações de combate à febre amarela e à malária, incorporando o Serviço Nacional de Febre Amarela e a Campanha de Erradicação da Malária.
Em 1958, na XV Conferência Sanitária Pan-Americana, em Porto Rico, foi oficialmente declarado que o Brasil conseguira erradicar o Aedes aegypti. Em 1967, criou-se a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), que absorveu as funções do DENERu. No mesmo ano, o mosquito é encontrado no Estado do Pará, e dois anos depois, em 1969, no Estado do Maranhão. Em 1973, um último foco foi eliminado e o vetor, novamente, considerado erradicado do território brasileiro.
Em 1976, entretanto, o Aedes aegypti retornou ao Brasil, em função de falhas na vigilância epidemiológica. Com o fim da SUCAM em 1991, no Governo Collor, a responsabilidade pelo controle das endemias passou para os munícipios, pondo fim a qualquer esperança no controle do Aedes aegypti. Em 1996, o Ministério da Saúde elaborou o Plano de Erradicação do Aedes aegypti (PEAa), cuja principal preocupação residia nos casos de dengue hemorrágica, que podem levar à morte. Quase nada deu certo, a dengue grassou solta durante esses anos. Em julho de 2001, o Governo abandonou oficialmente a meta de erradicar Aedes aegypti do País e passou a trabalhar com o objetivo de controlar o vetor.
Em 2002, foi implantado o Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), com a seguinte estratégia: elaboração de programas permanentes, desenvolvimento de campanhas de informação e de mobilização da população, fortalecimento da vigilância epidemiológica e entomológica, melhoria da qualidade do trabalho de campo no combate ao vetor, integração das ações de controle da dengue na atenção básica, com a mobilização do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e do Programa Saúde da Família (PSF), utilização de instrumentos legais que facilitem o trabalho do poder público na eliminação de criadouros em imóveis comerciais, casas abandonadas, atuação multissetorial, no fomento à destinação adequada de resíduos sólidos e à utilização de recipientes seguros para armazenagem de água e desenvolvimento de instrumentos mais eficazes de acompanhamento e supervisão.

Portanto, o caminho para o controle ou até mesmo a erradicação (já conseguimos antes), são conhecidos, o que falta é vontade política, responsabilidade, seriedade para se tomar decisões, e recursos para a execução dos trabalhos. Nos oito primeiros meses de 2015, o número de mortes causadas pela dengue no país foi de 693, e já constitui o maior índice anual desde que a doença começou a ser monitorada em detalhes, em 1990. O recorde anterior havia sido atingido em 2013, com 674 mortes. Se não bastasse, estamos diante da epidemia de microcefalia, 739 casos notificados até agora. Vamos aguarda as providências, não basta declarar “estado de emergência em saúde pública”. Chama atenção a indiferença da sociedade. Que Deus nos proteja.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A Saúde Pública em Sergipe (o caso da sífilis congênita).


A Saúde Pública em Sergipe (o caso da sífilis congênita).
Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina.

A passagem do Partido dos Trabalhadores pelo poder em Sergipe, iniciada em 2001, na Prefeitura de Aracaju, e interrompida com a morte do governador, em dezembro de 2013; destruiu os serviços de saúde existente, que mesmo modestos e com deficiências, funcionavam com regularidade. Ampliou-se a rede física, é verdade, mas rebaixou-se a qualidade dos serviços ofertados a uma faixa do inaceitável.
Com o pretencioso discurso de promover-se uma “reforma sanitária em Sergipe”, o sistema de saúde foi transformado numa máquina eleitoral, os serviços privatizados, o programa de saúde da família sucateado, os recursos drenados para obras, reformando-se e construindo-se dezenas hospitais e centenas de clínicas, com a promessa que ao final da aventura, a população teria um serviço de qualidade.
As consequências visíveis desse aparelhamento são conhecidas dos sergipanos, a saúde chegou ao fundo do poço. Montou-se uma rede centrada em hospitais, ociosa, de custo elevado; as ações preventivas foram desmontadas, implantando-se o modelo assistencial de oferta de procedimentos. Mas não é disso que eu quero falar.
A reforma petista também produziu consequências invisíveis. O abandono dos programas de saúde pública produziu o aumento das doenças objeto dos mesmos. Vamos tomar como exemplo, uma doença grave. A sífilis congênita, transmitida da mãe para o filho durante a gestação, assumiu ares epidêmicos nesta década em Sergipe. Em 2005, quando a notificação passou a ser obrigatória, a taxa de detecção de sífilis congênita em Sergipe era de 0,8 casos por mil nascidos vivos; em 2012, a mesma taxa atingiu 9,7 casos por mil nascidos vivos, segundo dados do Ministério da Saúde; um crescimento de 12 vezes no período. http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2012/52537/boletim_sifilis_2012_pdf_26676.pdf
Em 2013, nasceram em Sergipe 34.108 crianças; em 382 delas foram identificadas a sífilis congênita, com 05 óbitos; a taxa explodiu para 11,2 casos por mil nascidos vivos, três vezes superiores a media nacional (4,7 casos por nascidos vivos). Um horror! A meta da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), para a América Latina é uma taxa de 0,5 casos por mil nascidos vivos, em 2015, visando a erradicação. Sergipe está distante desta meta.
O crescimento da sífilis congênita acompanhou o recrudescimento da sífilis, doença tratada, (exceto em sua fase neurológica) com penicilina benzatina (a velha benzetacil), ou seja, uma doença com tratamento barato e eficaz. Vamos à outra indecência: o fornecimento da penicilina benzatina é irregular, com faltas constantes na rede pública. A indústria farmacêutica mundial perdeu o interesse econômico na produção deste medicamento, e como o Brasil não se preparou para suprir o mercado, a saúde pública vem pagando um preço elevado. Além de ser a primeira linha de tratamento contra sífilis, o remédio é ainda usado para tratar outras infecções, como a febre reumática aguda, doença bacteriana que afeta coração, cérebro e articulações.
Os mais atentos estão pensando, se o problema foi decorrente da escassez de penicilina, como a gestão da saúde em Sergipe está sendo responsabilizada? Ocorre que o problema deve-se também a outras variáveis. No Brasil, a sífilis congênita passou de 1,7 casos em mil nascidos vivos, em 2004; para 4,7 casos, em 2013; triplicando a incidência; em Sergipe, no mesmo período, o aumento passou de 0,8 casos, em 2005; para 11,2 casos por mil nascidos vivos, em 2013, ou seja, um crescimento superior a 12 vezes.
Observo uma mudança de rumos na condução da saúde por parte do Estado, a partir de 2014, sendo que os resultados não será de imediato. Desfazer o quiproquó de mais de uma década perdida, se houver continuidade, levará anos, com certo otimismo. 

sábado, 12 de setembro de 2015

ACADEMIA BECO NOVENSE DE LETRAS



Academia Beco Novense de Letras.

Antonio Samarone de Santana.

Até os idos de 1960, a Rua do Beco Novo era o centro cultural de Itabaiana. Entre outras esquisitices, a rua tinha o seu ateu, José Nogueira da Silva, conhecido por Araponga. Menino de pouca conversa, obstinado, autodidata; deixou a escola ao concluir o primário, por não suportar as pancadas da professora Branquinha. A mestra usava e abusava da sabatina, errou qualquer besteira, à palmatória comia no centro. Sem contar os castigos cruéis e humilhantes. Muitos mijavam nas calças, com as suas ações disciplinadora. Araponga desistiu.
Aos 16 anos, Araponga já era um bom sapateiro, apreendeu o oficio com o Pai. Poderia ter parado por aí, casar, criar família, levar uma vida simples, como tantos. Mas ele queria voar, descobriu que igreja católica tinha uma biblioteca, e que emprestava livros de graça. Meteu as caras. Não desconfiava o que iria encontrar. Uma biblioteca católica em Itabaiana, antes do Concílio Vaticano II, certamente estaria repleta de uma literatura religiosa, a vida dos santos, a imitação de cristo, a bíblia, os evangelhos; mas, por tentação de Satanás, Araponga pegou o primeiro livro na estante errada, era um livro de Voltaire. E foi a sua perdição, encasquetou com a filosofia, e não parou mais.
Até hoje me pergunto, o que aquela literatura iluminista estava fazendo na biblioteca do padre? Suponho, hoje, que sendo o padre muito ocupado com a salvação do rebanho, nunca tivera tempo de examinar o acervo literário da sua Paróquia. O certo é que os livros do padre empurraram Araponga para o ateísmo. Araponga leu Rousseau, Descarte, Diderot, alguns discursos do incorruptível Maximilien François Marie Isidore de Robespierre, leu os miseráveis aos 17 anos; percorreu a filosofia alemã, foi aos russos, leu Tolstói e Dostoievsk; não esqueceu de Machado de Assis, e foi um apaixonado por Lima Barreto. E o que ficou disso tudo? Quase nada, tudo muito embaralhado. Araponga continua sapateiro, pobre, ateu, mas guardou um sonho: ser imortal numa Academia de Letras, à semelhança da Académie française, fundada por Richelieu em 1635.
Sempre foi um sonho improvável. Contudo, o mundo gira. Araponga ficou sabendo que estão criando academias de letras em todos os cantos e recantos desse velho Sergipe, soube também, que os critérios para se tornar um escritor, um poeta, pintor, escultor, foram relaxados. Ser artista agora ficou fácil. A arte e o talento nunca existiram. Ou dito de outra forma, todos somos talentosos, o que dar no mesmo. A alta cultura sempre foi uma tapeação das elites. Entre um clássico de Eça de Queiroz e um livro de causos mal escrito, publicado às pressas, a diferença passa a ser uma questão de gosto, tem quem goste de um e quem goste do outro. Tudo é relativo.
No início do ano, Araponga recebeu a visita de um amigo, imortal das novas academias, que conhecendo o seu sonho, não se acanhou em aconselha-lo: - companheiro, por que não publica aquele poema em homenagem a revolução de 31 de março, que você declamou alguns versos na escola de dona Branquinha? Araponga nem lembrava, mas retrucou: - quem sou eu, pobre sapateiro, onde vou encontrar recursos para pagar a edição de um livro? A não ser que eu poste em meu perfil no Facebook. Será se é válido para eu tentar uma vaga numa Academia? O amigo disse que não sabia, e a conversa foi encerrada.
Foram cutucar a onça, Araponga despertou. Agora quer porque quer ser imortal. Postou o poema no Facebook, com boa aceitação: 136 curtidas, 36 comentários (todos a favor) e 11 compartilhamentos. A poesia de Araponga ganhou o mundo. Já participou de um sarau em Aracaju, e recebeu a promessa de um político, que vai arrumar um patrocínio para que a poesia de Araponga vá ao papel. As coisas estão encaminhadas. Araponga está percorrendo escolas, asilos, reuniões de Rotary, quermesse de paróquias, e qualquer espaço onde ele possa declamar a sua arte. Contudo, ainda não alcançou o principal objetivo: ocupar uma cadeira numa academia de letras. E a missão está complicada. Já existem academias nos 75 municípios de Sergipe, academias em alguns povoados, e ele até agora não foi lembrado. Ficar esperando que um ou outro bata as botas, para ele disputar uma cadeira, não é um caminho fácil. A fila é grande, muitos fazendeiros, políticos, gente graúda, todos querendo. Ser imortal em Sergipe é uma glória muito desejada.
Foi diante da crise, da escassez de vagas para a imortalidade, que Araponga encontrou uma saída genial, resolveu criar uma Academia de Letras no Beco Novo, e por que não? Ele será de cara o fundador e presidente; arrumar membros e patronos, com os novos critérios também não será problemas. Não precisa de sede própria, vai se reunir na sede do Rotary, no próprio Beco Novo. Os bodegueiros da rua, ao tomarem conhecimento da iniciativa cultural, já fizeram uma vaquinha, e vão pagar as despesas com edital, livro de ata, registro em cartório, e outros entraves burocráticos. O sonho de Araponga vai se transformar em realidade.

Eu, mesmo já sendo imortal por duas vezes, como natural do Beco Novo, até por uma questão de patriotismo, já aceitei o convite. Betinho, Beijo, Bem-te-vi, Demir de Valdice, Rosa, Nego Véio, Val e Regis de Euclides Barraca, as filhas de Bonito, Salomão, Pindoba, Peba de Justino, Chumbrega, Cabo João Mole, Sampaio, Miguel Fagundes, Rosalvo do Cabo Quirino, gente do Beco Novo é o que não falta, para ter o direito a imortalidade. Araponga, ainda quer ser original, está propondo que a “Academia Beco Novense de Letras, vá além, não seja apenas de letras, e seja a primeira, uma “Academia Beco Novense de Letras, Números e Sinais de Pontuação. Vamos à luta.