domingo, 30 de agosto de 2015

AS DOENÇAS DO MUNDO


AS DOENÇAS DO MUNDO.

Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina


As doenças do mundo perderam a sua relevância cultural, passaram a se chamar “doenças sexualmente transmissíveis (DST), surgiu a AIDS, e as temidas doenças venéreas perderam o encantamento, deixaram de simbolizar o pecado, a perda da virgindade masculina, o rito de passagem para a maturidade. Os adolescentes enchiam o peito com orgulho e se gabavam: - “peguei uma gonorreia”, ou, querendo ser discreto: - “porra, como a benzetacil dói”, que todo mundo entendia.  Ninguém mais alardeia que tem gonorreia ou blenorragia...
A milenar gonorreia (gonos = espermatozoide + rhoia = corrimento), pela confusão do exsudato purulento com o sêmen; a mais disseminada, era conhecida na china antiga, citada no antigo testamento e batizada por Galeno. O germe causador só foi descoberto em 1879, pelo médico alemão Albert Neisser, e recebeu o nome de “Neisseria gonorrehoea”, em homenagem ao descobridor. A gonorreia só encontrou tratamento na década de 1930, com as sulfas; e com mais eficácia, a partir de 1942, com a penicilina.
Havia uma crença que a doença voltava com o uso de alimentos reimosos ou carregados, em quem sentasse em cadeira quente, principalmente de barbeiro, ou quem usa-se vestuário de pessoa infectada. Os cabarés eram chamados de pinga pus, por conta da devastação da gonorreia nas “mulheres da vida”.
O intrigante é que a doença não foi controlada, pelo contrário, a incidência tem aumentado muito, mas ninguém se dar mais conta da sua existência. A temível gonorreia não mete mais medo, não assusta, tornou-se uma doença ignorada.
Outra doença do mundo, bem mais nova e bem mais grave, surgida no século XVI, a grande pústula, morbus gallicus, mal napolitano, entre tantas denominações, assustou o mundo. Em 1530, Girolamo Fracastoro, médico e poeta de Verona, publicou seu poema “Syphilis Sive Morbus Gallicus”, no modelo das Geórgicas de Virgílio, onde a doença é descrita como uma punição de Apolo ao jovem e bonito pastor Sífilo, por ter sido insultado pelo mesmo. A fama do poema consolidou sífilis como o nome da doença. A descoberta que Treponema pallidum era a causa da sífilis, ocorreu em 1905, por Fritz Schaudinn e Erich Hoffmann.
A sífilis primária despontava como nome de cranco duro. Mesmo sendo doenças bem menos agressivas, curioso, o medo maior era do cranco mole, conhecido como “cavalo”, causado pelo Haemophilus ducreyi, com pequenas feridas purulentas nos órgãos genitais e que terminavam numa íngua insuportável; e do linfogranuloma venéreo, conhecido como “mula”, causada pela Chlamydia trachomatis, gerando um bulbo purulento na região inguinal. Em Itabaiana, chegou um desavisado com mula, Dr. Pedro Garcia Moreno rasgava, e ainda por cima, não abria mão de um exame da próstata, com o seu enorme dedo rombudo. Tudo pela saúde pública.
A distorção devia-se ao fato do cranco duro “recolher” com o tempo, ficando o infeliz à espera da sífilis secundária; já a mula, os médicos acreditavam que deveria ser “rasgada”, mesmo sem evidencias do menor benefício, e o cavalo causava uma dor insuportável. A sífilis (cranco duro), o cavalo e a mula também saíram de moda, acompanharam a gonorreia. Nunca mais soube-se de alguém conhecido reclamando nem de mula nem de cavalo, mas a sua ocorrência continua avançando.
Claro, a infestação por “chatos”, o popular Phthirus púbis; atingia até as sobrancelhas; a “crista de galo”, causado pelo Papilomavirus humano; essas desapareceram de vez. Para evitar desmentidos, as doenças do mundo desapareceram do universo de preocupação das pessoas, mas continuam vivas e saudáveis, apenas deixaram de ser do mundo. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MEDICINA COMERCIAL (Do Bastão de Esculápio ao Caduceu de Mercúrio)







Medicina Comercial. 

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina

Para onde está voltada a medicina, a que interesses obedece, a quem serve prioritariamente? Uma resposta romântica, e que agradaria ao senso comum e a autoimagem da corporação, é que a medicina está voltada e atende aos interesses dos pacientes, visando aliviar a sua dor e o seu sofrimento. A medicina artesanal da primeira metade do século XX era a face institucional dessa pretensão. Contudo, a realidade é outra, um pouco mais complexa. Foucault enxergou uma medicina de Estado na Alemanha prussiana; identificou uma medicina voltada para o espaço urbano, na França do Dezenove, e uma outra medicina, focada na força de trabalho, na Inglaterra da revolução industrial. O padre austríaco Ivan Ilich, chamou a atenção do mundo, identificando uma face iatrogênica na medicina oficial, em seu famoso livro “Nemesis da Medicina”.
A partir do final do século XX, a medicina incorporou-se ao mercado, tornando-se uma atividade de peso na acumulação capitalista, representando 10,2% do PIB brasileiro. O cuidado médico assumiu a forma de mercadoria, sob o disfarce de procedimento. O trabalho médico sofreu intensa taylorização, fragmentando-se, e a medicina subordinou-se majoritariamente a lógica do lucro, numa medicina comercial. Quais são as mudanças implantadas pela medicina comercial, e quais as possíveis formas de resistência e superação é a discussão que me interessa.
Não foi pacífico a assunção ao mercado dos serviços de saúde, a venda da força de trabalho via o assalariamento nunca foi bem vista pelos médicos; eles desejavam continuar vendendo os produtos do trabalho diretamente aos pacientes, como na fase liberal. Esse produto era o cuidado médico, muito pessoal, subjetivo, impossível de ser contabilizado numa economia de mercado. Os novos compradores precisaram de um produto padronizado, mensurável, impessoal como qualquer mercadoria, e os cuidados médicos tinham subjetividades em excesso. Médicos e mercado entraram num acordo e o cuidado foi fragmentado em 4.600 procedimentos e, à imagem e semelhança do trabalho fabril, criou-se uma linha de desmontagem do corpo humano, descoordenada, e comandado pela avidez do lucro, normal em qualquer processo de acumulação.
Os empregos dos médicos no Brasil concentrados nos serviços públicos, mas em harmonia com o sistema mercantil da compra de procedimentos. É frequente, mesmo nas instalações dos serviços públicos, o Sistema Único de Saúde (SUS) compre procedimentos, realizando uma remuneração mista, vencimentos mais pagamentos pelos procedimentos realizados. As combinações são inúmeras, raramente se constituindo a remuneração por salários, na renda exclusiva da força de trabalho.
A tendência é o capital ir retirando o comando dos serviços de saúde dos médicos, reduzindo a sua autonomia frente aos consumidores (“pacientes”), e padronizando a sua conduta através dos protocolos. Da mesma forma que os arquitetos e os engenheiros não possuem o poder de condução na indústria da construção civil; os médicos caminham velozmente para essa perda de poder no complexo financeiro industrial dos serviços de saúde.
Com o fim da ditadura militar no Brasil e as profundas mudanças no capitalismo mundial no início da década de 1980; viveu-se no Brasil uma grande incerteza no campo da saúde; politicamente, a conjuntura favoreceu a vitória parcial de uma reforma sanitária numa linha das políticas sociais à moda da social democracia europeia e um pouco dos sistemas estatais de saúde dos países socialista, surgindo o Sistema Único de Saúde (SUS). Um serviço público, universal e gratuito; em direção contrária ao novo capitalismo em ascensão, conhecido popularmente como neoliberalismo, que pregava o estado mínimo, e políticas sociais compensatórias; destinadas exclusivamente aos excluídos do mercado.
O surgimento do SUS, foi um impulso majoritariamente ideológico, conduzido por uma elite pensante do movimento sanitário, quase todos de esquerda, mas que saiu rapidamente dos trilhos sonhados na 8ª Conferência. No momento, a política pública de saúde no Brasil, caminha para a consolidação da alternativa neoliberal de “política compensatória”, sendo o “mais médico” o seu carro chefe.
A medicina comercial apresenta-se como um benefício para os consumidores, pela eficácia dos seus procedimentos, pela prontidão da oferta, pela possibilidade da livre escolha, tornando-se uma segurança para uma clientela crescentemente envelhecida, portanto, consumidora compulsória das referidas mercadorias. Numa realidade hedonista, onde a felicidade foi erigida a condição de direito, alcançado pelo consumo; a saúde e a juventude uma obrigação e o sofrimento tornou-se quase um desleixo ou exceção. O caminho para a saúde passou a ser o consumo de serviços e procedimentos de saúde. Saímos de uma determinação mágico religiosa da saúde para a de consumo de procedimentos médicos. A saúde, cidadania e qualidade de vida estão fora da lógica do lucro da medicina comercial. Esta foi a maior derrota da reforma sanitária brasileira.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

INSTITUTO PARREIRAS HORTAS





Instituto Parreiras Hortas.

Antonio Samarone de Santana.

No começo do Governo Graccho, em 14 de novembro de 1922, a lei n.º 836, em seu artigo 4º, letra K, autorizou a fundação de um Instituto voltado para a Saúde Pública. Em 23 de julho de 1923, a pedra fundamental foi lançada. O projeto era construir, ao mesmo tempo, um Instituto Pasteur, voltado para o combate à raiva; um Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina anti-varíola e um laboratório de análise clínica, bacteriológica e química; e que também funcionasse como um centro de pesquisas médicas.

Entregou a responsabilidade a um médico (clínico e dermatologista), cientista experiente, diplomado pelo Instituto Pasteur na França, o ilustre Dr. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta. O Instituto foi construído em tempo recorde de apenas oito meses. Em 05 de maio de 1924, ocorreu a sua festiva inauguração.

O Governador do Estado, em seu discurso durante a inauguração do Instituto, expressou uma esperanças: “Sabemos que nossa Capital é tida como uma das cidades mais infamadas, avultando-se novamente o perigo de algumas febres, dizem, de origem desconhecida pelo próprio Oswaldo Cruz, que as denominou como nossas, capitulando como exclusivamente nossos os germes de que elas se geram. Que febres serão essas, que sob o encanto destas paisagens sorridentes, encontrou o seu foco ou o seu berço?


Essa tarefa o Instituto Parreiras Horta cumpriu com competência. Não somente esclareceu a etiologia dessas febres (identificadas como tifóides), como conseguiu o isolamento dos germes e a fabricação de uma vacina oral, por meio de pequenas modificações de um método do Instituto Pasteur. Na verdade, as febres do Aracaju eram o pesado tributo pago pela população mais pobre às péssimas condições sanitárias da Capital.

Essa vacina contra as febres tifóide e paratifóide, que no Brasil foi produzida pela primeira vez em Sergipe, era obtida cultivando-se várias amostras de bacilos tíficos e paratíficos “A” e “B”, em garrafas contendo ágar inclinado. No fim de 24 horas, as culturas eram retiradas da superfície do ágar e emulsionadas em água fisiológica esterilizada. Fazia-se a contagem dos germes, previamente mortos com iodo, no hematímetro de Thoma-Zeiss. A solução era diluída a 2% numa solução decinormal de iodo. Após esse processo, a vacina resultante era distribuída em ampolas de 5, 10 e 20 cm3.

A vacina era empregada via oral, 20 gotas diluídas em água, tomadas em jejum, durante três dias consecutivos. Quanto à eficácia da vacina, hoje sabemos que era quase nula, mas, na época, como houve uma importante redução na incidência das febres, por outros motivos, o sucesso foi atribuído automaticamente à vacinação em massa praticada em Sergipe.

Na visão de Augusto Leite: “O Instituto Parreira Horta dilatou os horizontes da clínica, abrindo para Sergipe uma nova e promissora fase. É amparado no homem de laboratório que o clínico de hoje caminha. O cirurgião e o médico volta e meia lhe vão pedir orientação terapêutica, a confirmação de um prognóstico mal seguro ou a traça de uma doença que é só observação lhes não permite descobrir e autenticar."

Atualmente, esse relevante prédio público aguarda um destino condizente com a sua história, simbolo da introdução medicina cientifica em Sergipe.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A DOR, O SOFRIMENTO E A SOLIDÃO.



Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.

A semana passada visitei um amigo que padece de uma neuropatia progressiva. A doença evoluiu suprimindo os movimentos e os controles do sistema nervoso, tirando a autonomia até para beber água. Esta morte lenta está ocorrendo com o padecente em plena consciência, memória perfeita, raciocínio aguçado, só não consegue se expressar, a não ser pelo riso e pelo choro, pelos olhos expressivos e cheios de vida. O meu amigo tem uma neuropatia que ninguém sabe direito o diagnóstico, sempre imprecisos, sempre pode ser isso ou pode ser aquilo. Meu amigo sofre de uma doença negligenciada pela medicina.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define doença rara ou negligenciada como a que acomete até 65 pessoas a cada 100 mil. Em geral, é crônica, progressiva e degenerativa, com frequência levando à morte. A maior parte, 80%, tem origem genética. Nesse grupo estão incluídas anomalias congênitas ou de manifestação tardia, deficiência intelectual e erros inatos do metabolismo. As 20% demais são infecciosas, inflamatórias e autoimunes. Estima-se que no Brasil existem na ordem de 13 milhões de pessoas atingidas com essas doenças. Das cerca de 8 mil, mais de 90% não são tratáveis, a indústria farmacêutica não tem interesse em produzir esses medicamentos. O diagnóstico dessas doenças é difícil, geralmente ocorre em casos avançados e o tratamento consiste em cuidados paliativos.
Quem está cuidando do meu amigo, quem é o seu médico? São vários e nenhum, cada um cuida de um sintoma, de uma mazela, e prescreve um procedimento, uma terapia. Um cuida da fala, outro da depressão, outro da diabetes, outro da hipertensão, outro disso, outro daquilo. Mas quem cuida do alivio do sofrimento, do ser humano, da pessoa; quem avalia o que seria melhor para ele nesse momento? Claro, ninguém! Como ajuda-lo a suportar os últimos dias com dignidade? A medicina não cuida mais das pessoas, a medicina realiza procedimentos.
O meu amigo está tomando prolopa, para os tremores; esomeprazol, para a acidez do estômago; redoxon zinco, vitamina C mais zinco; metformina, para reduzir a glicemia; alopurinol, para reduzir o ácido úrico; striverdi, um brônquio dilatador; oximax, um corticoide; diovan, para hipertensão; clorid sertralina, outro para a pressão; spiriva, para depressão; macrodantina, para evitar infecções, talvez pelo uso frequente de sonda para urinar; DEA, que não sei para que serve, nem vou procurar saber; clorid propranolol, para ansiedade; e cialis, que vocês sabem para que serve. Sinceramente, são 14 medicamentos diários, e nenhum para a neuropatia progressiva. As 9 horas ele toma 12 medicamentos de uma só vez, a cuidadora me observou contente: - “ele engole com facilidade, não me dar trabalho”. Como um organismo, já debilitado, reage a isso?
Tenho uma profunda desconfiança que não estamos no caminho certo. Talvez o que a medicina por procedimentos tem a oferecer aos que precisam aliviar os seus sofrimentos nessas horas, que todos haveremos de passar, não seja um conforto, uma ajuda, uma boa companhia.


Tela: Einsam? (Solidão?), de Martin Kippenberger.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A SAÚDE PÚBLICA EM SERGIPE (REPÚBLICA VELHA - PARTE QUATRO)


A Saúde Pública em Sergipe (Início da República – parte quatro)

Antonio Samarone de Santana.

Após décadas de conflitos políticos entre pebas e cabaús, entre 1911 a 1917, Sergipe será governado pelo General José Siqueira de Menezes, combatente de Canudos. O sucesso do General com o saneamento básico não se repetiu na estruturação da Inspetoria de Higiene, conforme mensagem dele próprio à Assembleia Legislativa, em 07 de setembro de 1912: “autorizado pela letra ‘f’ do art. 4o, da lei nº 602, de 23 de novembro do ano passado, a reformar a repartição de higiene, nada pude ainda fazer devido à nossa precária situação financeira".
No governo de Siqueira de Menezes será nomeado como Inspetor de Higiene, o Dr. Batista Itajay, que no final substituído pelo Dr. Octaviano Vieira de Melo, nomeado em 14 de maio de 1914, que permanecerá no cargo nos governos de Oliveira Valadão (1914/18) e Pereira Lobo (1918/22).
Manoel Baptista Itajay, nasceu em Lagarto, em 28 de junho de 1859. Formou-se em Salvador, em 18 de dezembro de 1886. Foi Deputado Estadual, Intendente de Itabaiana, Governador do Estado e Inspetor de Higiene, entre 1911 e 1914. Faleceu em 31 de janeiro de 1918, em Aracaju, com 59 anos, e está sepultado no Cemitério Santa Isabel, Aju/SE.
Podemos também situar a pequena importância da Repartição de Higiene, já no final do Governo Siqueira de Menezes, quando analisamos a proposta orçamentária do Estado para ano de 1914. De um total de despesas estimado em 2.153:961$755 réis, apenas 15:573$600 réis seriam consumidos com a saúde pública, ou seja, cerca de 0,72%, índice ainda menor de que os Governos anteriores.
No final do governo Siqueira de Menezes, o já Inspetor de Higiene Dr. Octaviano Vieira de Melo, em relatório publicado no jornal O Estado de Sergipe, em 15/08/1914, assim se manifestou sobre a Repartição de Higiene:  “Instalada, como ainda continua em prédio que não lhe é próprio, de todo arruinado, e fora em absoluto de todas as precisões higiênicas, precisa essa repartição passar por uma completa reforma, e ser aparelhada do material preciso para servir ao fim a que é destinada.
No Governo de Oliveira Valadão (1914/18) teremos duas mudanças importantes na Repartição de Higiene. Primeiro, a sua transformação, em 30 de dezembro de 1915, de Inspetoria em “Diretoria de Higiene e Saúde Pública”, através do decreto nº 618, e a devida aprovação de um novo regulamento. Segundo, a transferência, em 21 de maio de 1916, dos “Serviços de Assistência Pública” do âmbito da Diretoria de Segurança para a Diretoria de Higiene e Saúde Pública. 
O novo serviço de Assistência Pública teve sua regulamentação aprovada pelo decreto nº 645, de 11/01/1917. “Será desnecessário encarecer-vos, senhores Deputados, as excelências de um regular serviço de Assistência, que terá por fim prestar socorros médicos cirúrgicos às pessoas vítimas de acidentes, nos casos de envenenamento, asfixias ou estados mórbidos súbitos, bem como no enterramento de indigentes, no transporte de feridos e parturientes para o hospital ou para as suas residências”. Mensagem de Oliveira Valadão, à Assembleia Legislativa, em 07/09/1916.
Na verdade, o Serviço de Assistência Pública era um similar dos atuais Prontos Socorros, que, por razões até hoje incompreendidas, estava a cargo do Setor Policial, inclusive, era a única repartição que possuía uma ambulância para o transporte de doentes. De acordo com o regulamento, competia à Assistência Pública: a) prestar socorros médicos e cirúrgicos de urgência nas vias públicas, em todos os casos de ferimentos, asfixia, envenenamento ou estados mórbidos súbitos; b)    prestar socorros médicos e cirúrgicos aos doentes da população pobre, inclusive às parturientes e aos loucos, remetendo-os para os hospitais, maternidades ou asilos, quando não se possa tratar a domicilio; c) promover o enterramento dos indigentes depois da verificação do respectivo óbito. O Regulamento previa a cobrança dos serviços de quem pudesse pagá-los.
Na estruturação do novo serviço de assistência, o Governo criou em 09 de novembro de 1917, o “Posto de Assistência Pública”, que, embora subordinado à Diretoria de Higiene e Saúde Pública, possuía direção e pessoal próprios. Para o cargo de Diretor da Assistência foi nomeado o prestigiado médico Dr. Francisco de Barros Pimentel, que permanecerá no cargo até seu falecimento, quando então será substituído, em 30 de abril de 1922, pelo Dr. José Thomaz de Ávila Nabuco.
No seu primeiro ano de funcionamento, o Serviço de Assistência Pública adquiriu uma ambulância para o transporte dos doentes e um carro funerário (rabecão), ambos puxados a cavalos. O serviço de transporte de doentes da Assistência Pública passou a ter tanta importância nas décadas seguintes em Sergipe, que até bem pouco tempo, a população denominava ambulância de “assistência”, confundindo o veículo para o transporte com a repartição.
A Assistência Pública atendeu, de janeiro a agosto de 1918, os seguintes casos: 60 pessoas socorridas nas vias públicas, 166 pessoas transportadas para o hospital, 33 curativos, 59 receitas, 220 guias para enterramentos, 85 enterramentos 345 atestados de óbitos. Como se percebe pelo volume dos serviços prestado, foi fundamental a sua organização, e aponta no sentido da ampliação da competência do que se entendia por Saúde Pública.
No que se refere à aprovação do novo regulamento para a “Diretoria de Higiene e Saúde Pública”, não identificamos grandes mudanças em relação ao Regulamento de 1905. Ocorreu a já citada transformação de Inspetoria em Diretoria, extingue-se o Conselho Geral Sanitário, um retrocesso, e talvez a sua grande novidade: incorporou, em seu artigo 201, os trabalhadores no âmbito da competência de fiscalização da polícia sanitária. É um Regulamento um pouco mais extenso do que o anterior, com 256 artigos.
Ainda no governo Valadão, tivemos uma importante reforma no Lazareto Público (hospital de isolamento), que possuía capacidade de 60 leitos, passando a funcionar de forma permanente desde a epidemia de Peste Bubônica, de 1903. Encontramos certa preocupação com os doentes mentais, que continuavam trancafiados nas cadeias públicas: na mensagem à Assembleia de 1918, o Presidente solicitou recursos para a construção de um pavilhão para alienados no Hospital de Santa Isabel.
Em 17 de março de 1916, a Intendência (Prefeitura) de Aracaju inaugura o seu primeiro Posto de Assistência Médica, visando a atender os indigentes e os desprotegidos da sorte e realizar a distribuição de medicamentos. O Posto funcionava diariamente, das 10 às 12 horas, no prédio da própria Intendência. Esse serviço, com objetivos bem menos abrangentes do que o Posto de Assistência Pública do Estado, representou uma outra tendência na política de saúde, que só irá se consolidar muitos anos depois, a do poder público assumir a responsabilidade da assistência médica à população.

Foto: Oliveira Valadão.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A SAÚDE PÚBLICA EM SERGIPE (INÍCIO DA REPÚBLICA - PARTE TRÊS)


A Saúde Pública em Sergipe (Início da República – parte três)

Antonio Samarone de Santana.

Durante o governo de Josino Menezes (1902 a 1905), foi aprovado um novo regulamento para a higiene pública. A lei nº 480, de 11 de novembro de 1904, alterou o regulamento existente. Em 03 de agosto de 1905 através do decreto nº 536, o Regulamento do Serviço de Higiene do Estado de Sergipe entrou em vigor, substituindo o de 1892. É um regulamento bem mais complexo, com 236 artigos, prevendo a ampliação da Inspetoria de Higiene. Além do Inspetor e dos Delegados de Higiene nos municípios, determinou a criação de um “Conselho Geral Sanitário”, órgão consultivo do Governo em matéria de saúde pública, o chamado controle social.
O Conselho Geral Sanitário era formado por três autoridades do poder público, o Inspetor de Higiene, o Médico de Saúde do Porto e o Intendente da Capital; e por três representantes da sociedade, um médico, um bacharel e um farmacêutico, nomeados pelo governo do Estado. Entre as atribuições do Conselho figurava a organização de um código sanitário.
O novo regulamento incorporou em seu texto as pretensões do Dr. Theodureto Nascimento, Inspetor de Higiene, de reformar a saúde pública em Sergipe. Na nova estrutura da Inspetoria estavam previstos a existência de uma seção de demografia sanitária, um instituto bacteriológico, um instituto vacinogênico, um laboratório de análise química e bromatologia, um serviço geral de desinfecção e um hospital de isolamento. Como se percebe, uma estrutura dentro da visão moderna da saúde pública daquele momento, que não consegue, contudo, sair do texto da lei.
O Regulamento normalizava o funcionamento dos hospitais e das casas de saúde particulares (inexistentes em Sergipe); o exercício da medicina, farmácia, arte dentária e obstetrícia; obrigava a vacinação (art. 76: “nenhum aluno será matriculado, nem funcionário tomará posse sem o atestado de vacina”); tornava obrigatório o atestado de óbito e a notificação de doenças. Nos itens referentes à fiscalização das fábricas, cuidava de proteger apenas os moradores vizinhos das mesmas, sem nenhuma citação de proteção aos trabalhadores.
Pelo Regulamento, o Inspetor de Higiene tinha poderes para autorizar a produção e comercialização de novos medicamentos. No jornal “O Estado de Sergipe” de 11 de março de 1909, encontramos um edital da Inspetoria autorizando o Dr. Pedro Garcia Moreno, farmacêutico de Laranjeiras, a comercializar o elixir de caroba e nogueira, o elixir antidiabético e um vinho intertropical, medicamentos de sua invenção e fabricação.
Durante os governos de Guilherme de Souza Campos (1906 a 1908) e do médico José Rodrigues da Costa Dória (1908 a 1911) ocupou a Inspetoria de Higiene o Dr. Francisco de Barros Pimentel Franco. No final do Governo Dória (1910), existiam apenas 15 Comissários Vacinadores nomeados para todo o Estado e 28 Delegados de Higiene, dentre os quais apenas sete médicos. Nesses dois Governos não identificamos nenhuma alteração importante, nem na estrutura nem no funcionamento, da repartição de higiene do estado. A opinião do Inspetor de Higiene confirma nosso ponto de vista: “Já é tempo de estabelecer-se neste Estado, nomeadamente nesta capital, um serviço regular de higiene moldado nos nossos recursos. ”
No governo de Guilherme de Campos os gastos com a saúde pública continuaram em patamares insignificantes. No ano de 1907, as despesas totais do estado estavam orçadas em 1.662:765$940 réis; e os gastos com a saúde pública importavam apenas 10:873$000 réis, isto é, cerca de 0,6% do orçamento. No mesmo ano, os gastos com a instrução pública atingiram 323:229$284, ou seja, cerca de 19% do orçamento.
Durante o governo Guilherme Campos (1906 a 1908) ocorreu um fato comprovador do atraso da medicina em Sergipe no período: o óbito em 13/12/1907, durante o trabalho de parto em palácio, de Dona Capitolina Alves de Melo, segunda esposa do desembargador Guilherme Campos, governador do Estado.  O parto foi acompanhado pelos doutores Costa Pinto e Moreira Magalhães, que chegaram à conclusão, de que somente o procedimento cirúrgico (Cesariana) salvaria a paciente. Mesmo tendo sido sobre “operação cesariana” a tese de doutoramento do doutor Costa Pinto, o mesmo nunca tinha tido a oportunidade de realizá-la. Em síntese, em Sergipe ainda não existiam condições para a realização de tal procedimento, nenhum médico estava preparado para realização de uma cesariana até a primeira década do século XX.
No final do Governo de Rodrigues Dória (1911), em seu último relatório, ele reforça nossa tese de que a estrutura sanitária do aparelho público, em Sergipe, não adquiriu condições para o enfrentamento mínimo das necessidades de saúde da população, até a última década da República Velha. “Não temos, nem tão cedo poderemos ter um serviço de higiene preventivo capaz de acautelar o Estado da invasão das moléstias epidêmicas, e de sua propagação. ”

Foto: Guilherme de Souza Campos.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

NOSSA SENHORA DA VITÓRIA


Nossa Senhora da Vitória.

(imagem de roca, Século XIX, procedente da Igreja Nossa Senhora do Amparo, Sergipe. Museu de Arte Sacra de Sergipe).
Com a ocupação de Sergipe por tropas da União Ibérica, em 1590, Cristóvão de Barros fundou uma Arraial na foz do Rio Sergipe, que denominou de Cidade de São Cristóvão, em homenagem a Cristóvão de Moura e Távora (Lisboa, 1538 - Madrid, 1613), fidalgo português, líder do partido espanhol quando da crise de sucessão de 1580. Homem de confiança de Felipe II, Cristóvão foi um homem poderoso, Vice-Rei de Portugal, durante uma parte da União Ibérica.
A cidade de São Cristóvão sofreu sucessivas mudanças, até firmar-se no local em que hoje se encontra, à margem do rio Paramopama, afluente do rio Vaza-Barris. Portanto, contrário ao difundido, o nome de São Cristóvão não é uma homenagem a Cristóvão de Barros.
A influência espanhola na colonização de Sergipe é manifestada também pela escolha da padroeira de São Cristóvão, Nossa Senhora da Vitória. Quem é a Santa? Foi a Nossa Senhora a quem é atribuída o papel decisivo na vitória da batalha naval de Lepanto, em 1571, uma esquadra liderada pelo Reino da Espanha, sob o comando de João da Áustria, venceu o Império Otomano, no largo de Lepanto, na Grécia, pondo fim a expansão islâmica no Mediterrâneo.
Antonio Samarone. Aguardo as controvérsias...