sábado, 30 de maio de 2015

Hospital do Câncer de Sergipe: uma voz destoante.


Hospital do Câncer de Sergipe, uma voz destoante.

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina

Após longa disputa política pela paternidade, troca de insultos e acusações, o Hospital do Câncer de Sergipe ganhará vida. Ressalte-se que há consenso em torno da ideia: políticos e eleitores, doentes e médicos; imprensa falada e escrita; autoridades civis, militares e eclesiásticas, todos defendem a benfeitoria. Será se Nelson Rodrigues tinha razão?
Diante de tantos apelos, tão sinceros e tão sentidos, o Governo de Sergipe decidiu construir um hospital de cinco andares, especializado no tratamento do câncer: 24 leitos de quimioterapia infantil, enfermaria de emergência, 43 leitos de quimioterapia adulto, avançado centro de imagem, radioterapia com dois aceleradores lineares, gama câmara, ressonância magnética, dois aparelhos de tomografia, centro cirúrgico com seis salas, 10 leitos de UTI infantil, 10 leitos de UTI adulto, 30 leitos de internamento infantil, 120 leitos para internamento de adultos. https://www.youtube.com/watch?v=TSmypwa_Yik
Até o momento foram gastos 12 milhões com a terraplanagem; as obras estão orçadas em 80 milhões, com mais outros 80, por baixo, para compra dos equipamentos, insumos e imobiliários. As vantagens apontadas é que os pacientes com câncer não precisarão mais enfrentar filas, recebendo um tratamento humanizado, e ainda poderemos atender com qualidade a demanda dos Estados vizinhos. Será uma ilha de qualidade e tecnologia, boa gestão e recursos suficientes, num mar de precariedades do nosso querido SUS. Quanto custará o custeio mensal para o funcionamento e em qual orçamento será incluído? Qual o custo médio de um leito oncológico? E com as novas tecnologias, o tratamento do câncer deve mesmo ser feito em hospitais especializados? Claro, isso não é pergunta que se faça...
O tratamento feito em regime ambulatorial mostrou-se mais fácil e mais bem tolerado pelos pacientes. Hoje existem drogas potentes para reduzir as náuseas e vômitos, evitar a queda na resistência, evitar infecções, estimular a produção de leucócitos permitindo que os pacientes sejam tratados em casa.  Pacientes com câncer, desidratados, com febre e septicemia são cada vez mais raros com os novos tratamentos, e quando aparecem, é mais eficaz interna-los em hospitais gerais, onde existem múltiplos recursos terapêuticos.
Nenhuma das três formas de tratamentos do câncer conhecidas, quimioterapia, radioterapia e cirurgia, necessitam de um hospital especializados; muito menos a moderna terapia alvo; os internamentos quando necessários decorrem das complicações e das intercorrências de outras patologias; melhor tratadas nos hospitais gerais. Na verdade, o racional seria construir-se uma ala de oncologia num hospital geral, que já dispõe de outros recursos, de um corpo clínico diversificado, do que o investimento num hospital especializado.
No caso de Sergipe, essa Ala já existe. O setor de oncologia do Hospital João Alves (HUSE), quando construído, era o mais bem equipado do Nordeste, com todas as condições de prestar bons serviços à população. O Centro de Oncologia Dr. Oswaldo Leite (COOL) do HUSE dispõe de 49 leitos (21 infantis e 28 de adultos) para internamento e realiza atendimentos clínicos e ambulatoriais, assim como tratamentos oncológicos à base de quimioterapia e radioterapia. Por mês, o COOL aproximadamente 2,5 mil consultas médicas com oncologistas, administra em torno de 70 quimioterapias e faz 115 sessões de radioterapia por dia. http://www.fhs.se.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=78:huse&catid=9&Itemid=473
As mazelas do início tardio dos tratamentos, falta constante de medicamentos, sucateamento, entre outros, decorrem da gestão inadequada e do financiamento insuficiente; problemas que não serão resolvidos somente com a construção de um hospital especializado. Por que os recursos que serão aplicados na aquisição de novas tecnologias, benvindas e necessárias, não são instaladas no setor de oncologia do HUSE, fortalecendo o tratamento ambulatorial?
Sabem por quê? Porque construir e equipar Unidades de Saúde é fácil e os recursos sempre aparecem, o problema é o custeio para mantê-las em funcionamento. Realizar a obra, botar uma placa, inaugurar com festa, divulgar o feito, tudo isso agrada politicamente, mas é tudo inconsistente. Qual foi a melhoria para a saúde da população da construção, nas beiras das estradas, das noventas “clínicas de saúde da família”, no governo passado? Por que a construção de hospitais pelo interior, todos funcionando bem abaixo da capacidade instalada, por dificuldades no custeio, não aliviou a sobrecarga do HUSE?
Se o tratamento do câncer em hospitais especializados é mais humano e mais eficaz, por que o setor privado, que atende aos ricos, segue outro caminho? A rede de Oncoclínicas do Brasil, com 26 unidades privadas de tratamento oncológico, que figuram entre as maiores clínicas do setor no país, presentes nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe e Pernambuco, não possuem leitos para internamentos.

Tudo bem, e o Hospital do Câncer I, do INCA, na Praça da Cruz Vermelha no Rio de Janeiro, como se justifica? A diferença é que ele também exerce um papel importante no desenvolvimento da pesquisa oncológica do Instituto e dos programas de residência médica e de enfermagem, dos cursos de especialização e atualização, entre outros. Não será o caso do Hospital do Câncer de Sergipe.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Reforma Sanitária Americana

A Reforma Sanitária Americana

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.

"Da força da grana que ergue e destrói coisas belas" - Caetano Veloso.

Os Estados Unidos, que em 2009 gastaram 2,5 trilhões de dólares com a Saúde, mais do que o PIB da França, estão realizando uma profunda mudança em seu Sistema de Saúde, a chamada Ação de Assistência Acessível (do inglês ACA - Affordable Care Act). Para garantir o acesso universal aos serviços de saúde, todo cidadão americano terá um Planos de Saúde. Outra mudança, até 2020, será implantado o prontuário eletrônico, gerando economia e agilizando a troca de informações sobre os pacientes. A melhoria na qualidade do atendimento passa pelo registro eletrônico dos dados dos pacientes e o seu acompanhamento. O governo americano está investindo 27 bilhões de dólares nos próximos 10 anos em tecnologia da informação, visando reduzir custos e melhorar o atendimento.
Na visão de futuro, os EUA caminham para a desospitalização e no reforço ao atendimento domiciliar, reduzindo a ida dos pacientes aos serviços de urgência e ambulatórios. A meta é reduzir dois terços dos internamentos por doenças crônicas. O atendimento em domicilio permite uma cobertura 24 horas, todos os dias; enquanto no modelo atual o atendimento é limitado ao horário comercial, com um detalhe, o sistema domiciliar reduz significativamente os custos. Os médicos serão remunerados por ações de promoção e prevenção. Na contramão de outros setores da economia, na saúde, a tecnologia e a inovação trazem aumento dos custos. A saúde enquanto mercadoria vira um objeto de luxo.
Como já vimos, a saúde no mercado apresenta-se como procedimento, e o consumo depende da decisão dos produtores, portanto, uma equação de custos ilimitados. Um caso atípico de mercado, mais lesivo que os monopólios, o consumo decorre da oferta e é decidido pelos vendedores dos procedimentos. O conflito entre as necessidades dos consumidores (pacientes) e o lucro do negócio é escancarado, muitas vezes, lesivo aos pacientes. Este fato gera uma contradição entre os setores do segmento saúde que pagam (poder público, planos de saúde, seguros, pessoa física), e os sistemas assistenciais de venda de procedimentos, que recebem.
Na reforma de Obama, esta forma de compra de serviços por procedimentos executados, será substituída por uma alternativa mais racional e menos custosa. O prazo para o retorno nas consultas foi ampliado para 30 dias. As despesas geradas com as internações de eventos agudos, considerados os cuidados três dias antes e trinta dias depois da internação será remunerado como uma única despesa, obrigando os serviços a melhorarem sua produtividade, a evitarem erros médicos e reduzirem os índices de infecção hospitalar, caso contrário seus lucros seria. No Brasil, os procedimentos são realizados por decisão dos vendedores, e a conta paga pelos consumidores, diretamente, ou através dos planos e seguros de saúde, ou pelo erário público.
Nos Estados Unidos, 64% do consumo dos procedimentos de saúde é realizado por dez por cento dos mais idosos na população; se ampliar a faixa para 20%, o consumo passa para 80% de todos os serviços ofertados. Portanto, o controle dos custos deve ser centrado nessa população mais idosa, portadora de doenças crônicas. A grande mudança está na forma de atender esses pacientes, que necessita ser individualizada, acompanhada diariamente, gerenciada, tentando controlar os problemas para se evitar as intercorrências agudas. Um retorno ao modelo do cuidado médico. Não será uma mudança fácil, pois bate de frente com os interesses mercantis do segmento da saúde.
Por outro lado, os 50% mais jovens da população, representam apenas 3% de todos os custos de cuidados com a saúde, nos EUA. Talvez no Brasil, devido aos elevados índices de violência, (homicídio e acidente de trânsito), e que ocorrem sobretudo nos jovens, esses gastos sejam proporcionalmente mais elevados. Desconheço estudos sobre os custos do consumo médico por faixa etária no Brasil.  As doenças que mais caras nos Estados Unidos são a insuficiência cardíaca congestiva, diabetes, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma e doença arterial coronariana. Bem provável que no Brasil seja muito próximo.
Outra medida da reforma do sistema de saúde americano foi a criação de uma instituição de pesquisa, sem fins lucrativos, para avaliar a eficiência dos tratamentos médicos, criar um banco de dados; e o resultado disso tudo será considerado um bem público. Se essa transformação for efetivada terá ampla repercussão nos sistemas de saúde no mundo. Atualmente, essas pesquisas estão sob o comando e orientação hegemônica do Capital. Já foram investidos 1,1 bilhão de dólares na criação deste centro de pesquisa.

Claro, a implantação de qualquer reforma encontrará resistência, e não existe garantias prévias que os objetivos serão atingidos. Entretanto, surge uma esperança de uma medicina mais humana, menos comercial, incorporando a tecnologia em benefício dos pacientes. Ao contrário do divulgado, a esperança não está na medicina cubana, humana mais atrasada, uma medicina simplificada, incompatível com o atual perfil epidemiológico e com os progressos da ciência. O modelo cubano não tem resposta para as doenças crônicas. A esperança também não está na medicina comercial, centrada no lucro, que atualmente domina o mundo capitalista. Dialeticamente, o remédio está surgindo onde a doença é mais grave, onde a medicina é cem por cento capitalista, e a saúde mercadoria. A esperança está na reforma sanitária americana, em curso no governo Obama. 

domingo, 1 de março de 2015

Nise da Silveira e Mário Magalhães da Silveira, em Sergipe (1937/38)




Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.

A história de Sergipe registra a proteção dada ao cangaço, pelo coronel Antônio Ferreira de Carvalho, o lendário “Antônio Caixeiro”, pai do Governador Eronides de Carvalho, no município de Canhoba. O governo de Eronides de Carvalho (1935 – 1941) foi altamente repressivo com os movimentos e organizações dos trabalhadores. Sua posse coincide com a Intentona Comunista de 1935. Censurou a imprensa, reprimiu a oposição, castigou os trabalhadores. Ao mesmo tempo, protegia o Cangaço e os coronéis, entre os quais o seu próprio pai.
Entre as contradições da história, o mesmo Eronides Carvalho, durante o Estado Novo, protegeu e acobertou em Sergipe dois notórios comunistas. Vamos aos fatos. Um casal de médicos alagoanos, Mário Magalhães da Silveira e Nise da Silveira, formados na Bahia na turma de 1926, e que depois se tornariam grandes nomes da Saúde Pública nacional, ele como Sanitarista; e ela como psiquiatra; se esconderam em Sergipe num período de clandestinidade (1937/38). Nossa hipótese, é que eles tiveram a proteção do médico, militar e interventor do Estado, Eronides de Carvalho, um anticomunista declarado.
Após a Intentona Comunista, em 1936, Nise da Silveira foi presa na Frei Caneca por 18 meses, por possuir  livros marxistas. No presídio da “Frei Caneca”, no Rio de Janeiro. Nise estabeleceu amizade com Graciliano Ramos na Prisão, tornando-se personagem do livro “Memórias do Cárcere”. "... lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-se culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se a tomar espaço. O marido também era médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento."
Por outro lado, Mário Magalhães da Silveira, simpatizante do comunismo, entrou para a clandestinidade. Identificamos a presença do Sanitarista em Sergipe a partir de 1937, com o pseudônimo de Claudio Magalhães da Silveira, organizando a implantação do Centro de Saúde Serigy e dos ambulatórios públicos do estado. Neste período, pelos mesmos motivos, Jorge Amado também viveu sua clandestinidade na Estância, em Sergipe, muito bem retratada por Rui Nascimento.
A escolha do pseudônimo “Claudio” para substituir Mário, durante a clandestinidade em Sergipe, não ocorreu de forma aleatória. Sua esposa, Nise da Silveira, recebeu esse nome, em homenagem a Nise, personagem de Cláudio Manuel da Costa, estreitamente relacionada ao ideal libertário, do qual o seu pai Faustino era admirador. O salão de Faustino era frequentado pelo que havia de mais destacado e elegante em Maceió. Nossa hipótese é que o “Claudio Magalhães”, Diretor de Saúde Pública em Sergipe é na verdade o famoso Mário Magalhães. Em conversa pessoal com o psiquiatra José Hamilton Maciel, Nise da Silveira revelou sua passagem por Sergipe.
Ao sair da prisão, Nise vem juntar-se ao marido em Sergipe. Mário Magalhães da Silveira ocupou o cargo de Diretor Geral de Saúde Pública (O Secretário da Saúde), substituindo o Dr. Lauro Dantas Hora. É impossível que o Interventor Eronides de Carvalho não soubesse as razões da presença daquele casal de médicos comunistas, já famosos, em Sergipe. Levanto duas hipóteses, amizades familiares, Coronel Antonio Caixeiro era alagoano; ou relação corporativa, em sua juventude, Mário Magalhães da Silveira, fez parte do Exército Brasileiro, em Fortaleza. Não sei dizer por quanto tempo eles se esconderam em Sergipe.
Além de nomear um comunista como Diretor de Saúde pública do Estado, (Secretário da Saúde), Eronides Carvalho criou o Leprosário Lourenço Magalhães; instalou o Centro de Saúde Serigy, o primeiro do Estado, construiu o Hospital Infantil, anexo ao Hospital de Cirurgia; criou o Serviço de Assistência a Psicopatas e Crianças Abandonados, o que possibilitou a transferência dos loucos das cadeias públicas para uma moderna unidade de saúde, dirigida pelo eminente psiquiatra Luiz da Rocha Cerqueira, um dos pioneiros da reforma psiquiátrica no Brasil. Essa história está apenas começando...
O governador Eronides Ferreira de Carvalho nasceu na Borda da Mata, Sergipe, em 25 de abril de 1897. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 20 de Dezembro de 1917. Eronides faleceu aos 73 anos, em 18 de Março de 1969 no Rio de Janeiro, onde está sepultado.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A Urgência Médica em Sergipe - 1930






Serviços de Urgência Médica em Sergipe – 1930.

 “O serviço de Assistência Pública nesta Capital está anexo a Enfermaria da Força Pública, de maneira que o médico encarregado da Assistência trabalha sob a imediata dependência do médico chefe da Enfermaria. Este substitui aquele na prestação de socorros que são exigidos com urgência. Igualmente a Enfermaria se utiliza dos serviços do médico encarregado da Assistência todas as vezes que este auxílio se torna preciso. Os demais funcionários servem também na Assistência e na Enfermaria.”
“Eis como o serviço de Pronto Socorro vai sendo desempenhado: no ano que se trata, a Assistência transportou e socorreu 452 indivíduos, não se limitando a isso o trabalho, porque os enfermos, na falta de Hospital de Pronto Socorro, permanecem em tratamento na Enfermaria da Força o tempo necessário, e depois são conduzidos para os hospitais Santa Isabel e Cirurgia, ou para as respectivas residências.”
“A Assistência dispõe de uma ambulância automóvel, em tempo adaptada, e que, com os reparos que sofreu o ano passado, se vai prestando bem aos fins a que se destina. A direção do serviço procura sempre poupá-la, ordenando que, para as ruas mal calçadas, ou sem calçamento, se utilize a ambulância de tração animal. Igualmente se proíbe que nela se transporte loucos ou pessoas portadoras de moléstias contagiosas. Existe outro carro de tração animal, para o enterramento de indigentes, serviço também a cargo da Assistência. O número desses enterramentos foi de 107. Precisam ser melhorados os serviços de transporte de que dispõe a Assistência.”
“A Farmácia da Enfermaria da Força fornece todo o material para os curativos e tratamentos feitos pela Assistência, sendo os maiores gastos os relativos ao algodão, gazes, ataduras, esparadrapos, soluções anti-sépticas, álcool, água oxigenada, ampolas de urgência. Com a autoclave da sala de cirurgia, para esterilização, que vem sendo instalado na Enfermaria, será muito reduzida à despesa com algodão, gazes, ataduras e esparadrapos.”    
Fonte: Transcrito do Relatório do Presidente do Estado, Manoel Dantas, em setembro de 1930.

sábado, 22 de novembro de 2014

Nosso Corpo, Nossas Regras...


“Nosso corpo, nossas regras...”
 Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina
As mulheres querem seus corpos de volta. Foi o que assisti ontem na OAB, numa palestra da Dra. Melania Amorim. Numa convincente e culta exposição, a médica, feminista, pesquisadora e ativista pela humanização do parto destrinchou os atuais procedimentos realizados pelos obstetras no ato de partejar, apontando equívocos, humilhações e maus tratos, lesivos a dignidade das mulheres. Uma verdadeira tourada obstétrica.
Segundo a pesquisadora, o parto deveria ser um momento divino para as mulheres, um evento natural cercado de simbologias e experiências emocionais. O primeiro encontro entre mãe e filho necessita de um cenário cercado de atenção, carinho e liberdade. As mulheres não podem abrir mão de comandar esse momento. A medicalização do parto, passando esse comando para os médicos, que determinam os tempos, modos e seqüências, levando aos extremos de obrigá-las a esquisita posição supina com as pernas levantadas, presas por suportes, posição de “frango assado”, com o objetivo de facilitar suas intervenções, precisam ser revistas. As mulheres devem parir na posição que acharem mais confortáveis e que se sentirem melhor. As posições onde o próprio feto ajude pela força gravitacional a sua expulsão parecem mais naturais.
No Brasil, os abusos continuam no “convencimento” (imposição?) da preferência pelo parto cirúrgico em detrimento do parto normal, com alegações e justificavas cientificamente inaceitável.  Atualmente, 85% dos partos realizados pelos planos de saúde e 37% dos realizados pelo SUS são cirúrgicos (cesáreas), com consequências tanto para a mãe como para o recém nascidos, mas de ampla conveniência financeira para os médicos, que assim podem racionalizar o uso do seu tempo e arrumar melhor sua jornada de trabalho.
Até o final do século XIX as cesáreas eram realizadas quando ocorria a morte materna após o sexto mês de gestação, visando salvar o feto. Era proibido o sepultamento sem a retirada do feto, pelo menos para batizá-lo. As cesáreas em vivas antes das descobertas da anestesia e da assepsia eram a certeza da morte por choque, hemorragias e peritonites. A história do parto é uma das mais dolorosas e traumatizantes das histórias universais, entregues a parteiras, cirurgiões e cirurgiões barbeiros, pois os médicos consideravam um ato indigno. Para os menos informados, cirurgiões e parteiros (obstetras) eram profissões, até o final do século XIX, distintas da profissão médica. A condenação bíblica pelo pecado original - “parirás teus filhos com dor e sofrimentos” - continua, com nuanças, sendo executada até hoje.
O próprio deus da medicina, Asclépio para os gregos ou Esculápio para os romanos, nasceu de uma cesariana. A ninfa Coronis, mãe de Asclépio, é condenada a morte por ter traído Apolo, antes da execução, o filho é retirada do seu útero. O imperador Júlio César promulgou uma lei determinando que, diante do óbito da mãe durante o trabalho de parto, o médico estaria autorizado a abrir o ventre e salvar a criança. Por conta dessa determinação do imperador, a cirurgia recebeu o seu nome.
Quando a opção é pelo parto normal, segundo a pesquisadora, a violência contra a mulher continua. A parturiente é posta num leito, na posição descrita acima, seus pelos sãos raspados, um soro com ocitocina é aplicado, para aumentar as contrações e diminuir o tempo do trabalho de parto. A mulher é obrigada a fazer força, todas as vezes que o médico emite o comando, e se não atender ou começar a chorar alto ou gritar de dor, pode ser admoestada com piadinhas e gracejos. “Na hora de fazer, não reclamou”, “se cale se não eu paro meu serviço”, ou outras infâmias dessa natureza.
Aqui entra a episiotomia, um corte lateral que os médicos realizam na vagina, para facilitar a saída do feto, e que a Dra. Melania, considera uma agressão estúpida, sem evidências científicas, realizado sem o consentimento das mulheres, e que em muitas delas tem o potencial agressivo do estupro. Este corte cumpre apenas o primitivo papel dos ritos de passagem, segundo ela. Consultando os colegas obstetras, eles entendem que a pesquisadora é uma feminista radical que não frequenta as “salas de partos”, e que desconhece os benefícios para as mulheres do parto hospitalar sob a tutela dos médicos.
Os defensores do atual modelo apresentam em sua defesa a incrível redução da mortalidade materna que o parto hospitalar medicalizado proporcionou. Os que defendem a autonomia das mulheres e a imediata humanização do parto usam em seu favor algumas evidências históricas. Até o final do século XIX a principal causa da elevada mortalidade materna era a febre puerperal, descoberta depois que era causada pelas mãos sujas dos médicos; e a sua redução só foi possível após o esforço dos mesmos em aceitarem lavar as mãos com água e sabão antes de cada procedimento.
Citei apenas alguns procedimentos violentos da atual assistência ao parto, comentados pela Dra. Melania. A sociedade brasileira, através de uma vanguarda de mulheres, está colocando na pauta dos direitos humanos a questão da violência obstétrica. O fato da OAB patrocinar o evento, da palestrante ser aplaudida de pé pela plateia presente demonstra que elas não estão sós, que a questão precisa ser enfrentada, que os obstetras precisam submeter-se publicamente a esse debate e apresentarem suas razões, que os gestores da saúde precisam abrir as portas de suas maternidades. Duas questões são incontestáveis: as mulheres têm o direito à autonomia sobre os seus corpos e parir é um evento natural, não é doença...


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os médicos no Brasil Colônia.

Os médicos no Brasil Colônia.

Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina.

Entender a medicina praticada no Brasil Colônia nos remete para a compreensão da medicina em Portugal. Como Portugal formava seus Físicos (médicos)? O ensino da medicina não se estabeleceu nas comunidades monásticas, foram para as universidades nascentes. Salerno, ao sul da Itália, foi uma das primeiras. Montepellier, Paris, Bolonha, Salamanca, Valladolid, entre outras.
Em Portugal, o ensino da medicina começou no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fundado em 1130, por D. Afonso Henrique, o mesmo príncipe que declarou a autonomia do Condado Portucalense (1128). A ciência hipocrática era apanágio dos religiosos, que a ensinavam e a praticavam.
A universidade portuguesa foi fundada em 1290, por D. Dinis, e constava das seguintes matérias: Cânones, Leis, Gramática, Lógica e Medicina.
A universidade no inicio ficava em Lisboa, depois Coimbra, depois voltava para Lisboa e, finalmente, em 1537, estabeleceu sua sede em Coimbra.
Da fundação até 1493, a medicina constava de uma cadeira, dominada pelos religiosos, tratava-se da leitura das obras de Hipócrates. Daí para frente, até 1540, foram dois lentes, (por porque liam); um de “prima”, pela manhã, lia as obras de Galeno; e outro de “véspera”, pela tarde, lia as obras de Hipócrates. Em 1940, foi criada a cátedra da “tertia” hora, a partir das 10 da manhã, onde eram lidos os autores árabes (Rhazes, Averrois e Avicena). O trabalho manual era considerado indigno, coisa de cirurgiões.
Depois de aprovado em gramática e em lógica, o aluno poderia ser matriculado no curso de medicina. Com três anos, o aluno era graduado como Bacharel em Artes e medicina; com mais um ano, obteria o título de licenciado; e após cinco anos, após a defesa de “conclusões magnas”, receberia o grau de doutor.
Somente em 1556, foram criadas outras catedrilhas, entre as quais a de anatomia, para ler “De uso Partium”, obra de Galeno; e uma cadeira de cirurgia teórica. A prática hospitalar e o ensino da clínica somente tiveram inicio em 1562, no Hospital Real de Coimbra. Este quadro só mudou com a Reforma de Pombal, em 1772. Enquanto o resto da Europa ensaiava mudanças, com o advento das descobertas da medicina, Portugal permanecia na leitura dos antiquados textos medievais.
Com a reforma de Pombal, o aspirante a carreira médica deveria saber falar latim, ter conhecimento do grego, da filosofia moral e racional, e manejar inglês ou francês. O curso passou a ser composto por cinco cadeiras: matéria médica e farmácia no primeiro ano; prática das operações e obstetrícia no segundo; teoria médica com prática no terceiro, onde se ia para o hospital; aforismos de Hipócrates e prática hospitalar no quarto; prática de medicina e de cirurgia, no quinto. Com cinco anos o aluno recebia o grau de bacharel em medicina e cirurgia, com mais um ano e a defesa da tese, se obtinha o título de licenciado e de doutor. Em 1783, com a criação da cadeira terapêutica cirúrgica, a cirurgia elevou-se ao nível da medicina.
Nos séculos XVII e XVIII, o ensino da cirurgia se fazia separadamente, e constava do aprendizado da trepanação, operação da hérnia, cauterização de tumores, lancetamento de abscessos e tumorações, extração de cálculos vesicais e operação de cataratas. Após o estágio, o aluno recebia o título de cirurgião aprovado.
Fonte de referência: História Geral da Medicina Brasileira, Lycurgo Santos Filho, Vol. I.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A assombrosa história da medicina, o caso das lobotomias.







A assombrosa história da medicina, o caso das lobotomias. 



Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina.

Os conhecimentos da medicina sobre o cérebro humano são recentes. Somente no final do século XIX, Santiago Ramón y Cajal, médico espanhol, Nobel em 1906, descobre que a unidade funcional do Sistema nervoso é o neurônio. Não é por acaso, que até hoje, o coração ainda simboliza as emoções. Em boa parte do século XX, a medicina não dispunha de nenhum recurso para enfrentar as doenças mentais.
Havia suspeitas que as funções nervosas superiores, linguagem, visão, emoções, etc., se localizam nos lobos do cérebro, porém sem comprovação científica. Somente em 1865, Pierre Paul Broca comprovou que o lobo frontal esquerdo era a sede da fala, e ficou conhecido como a “Área de Broca”. Essa descoberta deu fôlego para o surgimento da frenologia, tão apreciada pela medicina legal e pela criminologia no começo do século XX.
Com as descobertas da anestesia, assepsia e da localização das funções mentais em áreas específicas do cérebro, final do século XIX, o caminho estava aberto para a resolução das doenças do sistema nervoso através da cirurgia. Primeiro as neurocirurgias, retirada de tumores, abscessos, coágulos se tornaram frequentes; e logo em seguida, a introdução das cirurgias para as doenças mentais, as psicocirurgias. A ideia era simples: se os doentes estão ouvindo vozes, basta extrair o centro da fala que o problema está resolvido.
Reconhecemos que a tentativa de resolver as doenças mentais cirurgicamente é antiga. “Rogério de Salerno, cirurgião do século XII, recomendava que para mania e melancolia o escalpe do topo da cabeça fosse incisado em cruz e o crânio perfurado para deixar escapar a matéria”, (Antunes, p. 176). Porém, nada parecido com a lobotomia, método instituído a partir de 1935, pelo médico português Antônio Caetano de Abreu Freire Egas Munir, que consistia na retirada do lobo pré-frontal do cérebro, como forma de tratamento de várias doenças mentais, entre elas a melancolia e a esquizofrenia. A lobotomia era a retirada da parte doente do cérebro, uma verdadeira cirurgia da alma.
A lobotomia como forma de tratamento das doenças mentais se expandiu velozmente pelo mundo. Segundo Antunes, em sua biografia sobre Egas Muniz, entre 1942 e 1954, foram operados na Inglaterra e no País de Gales 11 mil doentes mentais e nos Estados Unidos, teriam sido praticadas 18.600 intervenções. O uso da lobotomia reduziu em 25% a população psiquiátrica nos hospitais. A primeira lobotomia no Brasil foi realizada pelo Dr. Matos Pimenta, em 1936, no hospital do Junqueri em São Paulo. A Colônia Juliano Moreira, inaugurada em 1952 no Rio de janeiro, possuía uma ala de psicocirurgias denominada Egas Muniz.
Em 1949, o Dr. Egas Muniz é agraciado com Nobel de medicina pela descoberta da lobotomia; premio que ele aguardou por sua outra descoberta para a medicina, a angiografia. Egas Muniz faleceu em 1955, coberto de glórias como grande benemérito da medicina. A lobotomia foi usada largamente no mundo até 1954, com a descoberta da clorpromazina, o primeiro medicamento usado com algum sucesso no tratamento das doenças mentais.
A partir desse momento, a visão sobre o papel da lobotomia na medicina inverteu-se radicalmente. As denuncias de que era um método de controle para prisioneiros políticos e jovens delinquentes se espalharam, em especial, nos países totalitários, que era uma forma de eugenia social, de transformação de seres humanos em zumbis descerebrados, etc. A lobotomia passou a ser usada para tratar de uma série de males, incluindo a ninfomania, o socialismo e a sede insaciável por liberdade. Várias propostas para revogação do Nobel para Egas Muniz já foram tentadas, e famílias já acionaram a justiça para reparar os danos a seus familiares que receberam o polêmico procedimento.
A lobotomia caiu na clandestinidade por vários anos, passou a ser considerada uma terapia aberrante e cruel, praticada por médicos marginais.  Atualmente as psicocirurgias ressurgiu com acentuado vigor, subsidiada pelos conhecimentos das neurociências, com mais recursos, mais precisão, com amplo conhecimento dos pacientes, e com retiradas de áreas bem mais restritas do cérebro. “A profissão médica não deve desculpas pela prática da lobotomia”, dizem os novos adeptos das psicocirurgias, deve celebrar essa prática como um começo ousado de uma evolução que continua... A cirurgia funcional do Sistema Nervoso está apenas começando. 
A mais comovente lição deste belo trabalho de João Lobo Antunes, “Egas Muniz – uma biografia”, publicado pela Civilização brasileira, é que precisamos ficar alertas para a rapidez como a medicina modifica suas visões e suas condutas nos enfretamentos dos problemas de saúde.
A questão das doenças mentais continua polêmica. As visões variam dos que acreditam na inexistência das mesmas, tudo não passando de comportamentos alternativos, alguns com reconhecido sofrimento; a uma visão inversa, onde todo comportamento fora da média é um distúrbio mental, portanto, passível de medicalização. As visões simplificadas das neurociências buscam nas alterações físico/química do cérebro, a base mecânica para as perturbações mentais. As condutas terapêuticas variam das simpatias, terapias grupais, florais, psicoterapias, intervenções medicamentosas e psicocirurgias; ou ecleticamente, tudo junto e misturado. Quem quiser que acredite nas descobertas “científicas” da medicina sem uma visão critica. Eu ando desconfiado com tudo...