sábado, 22 de novembro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Os médicos no Brasil Colônia.
Os médicos no Brasil Colônia.
Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina.
Entender a medicina praticada no Brasil Colônia nos remete para a compreensão da medicina em Portugal. Como Portugal formava seus Físicos (médicos)? O ensino da medicina não se estabeleceu nas comunidades monásticas, foram para as universidades nascentes. Salerno, ao sul da Itália, foi uma das primeiras. Montepellier, Paris, Bolonha, Salamanca, Valladolid, entre outras.
Em Portugal, o ensino da medicina começou no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fundado em 1130, por D. Afonso Henrique, o mesmo príncipe que declarou a autonomia do Condado Portucalense (1128). A ciência hipocrática era apanágio dos religiosos, que a ensinavam e a praticavam.
A universidade portuguesa foi fundada em 1290, por D. Dinis, e constava das seguintes matérias: Cânones, Leis, Gramática, Lógica e Medicina.
A universidade no inicio ficava em Lisboa, depois Coimbra, depois voltava para Lisboa e, finalmente, em 1537, estabeleceu sua sede em Coimbra.
Da fundação até 1493, a medicina constava de uma cadeira, dominada pelos religiosos, tratava-se da leitura das obras de Hipócrates. Daí para frente, até 1540, foram dois lentes, (por porque liam); um de “prima”, pela manhã, lia as obras de Galeno; e outro de “véspera”, pela tarde, lia as obras de Hipócrates. Em 1940, foi criada a cátedra da “tertia” hora, a partir das 10 da manhã, onde eram lidos os autores árabes (Rhazes, Averrois e Avicena). O trabalho manual era considerado indigno, coisa de cirurgiões.
Depois de aprovado em gramática e em lógica, o aluno poderia ser matriculado no curso de medicina. Com três anos, o aluno era graduado como Bacharel em Artes e medicina; com mais um ano, obteria o título de licenciado; e após cinco anos, após a defesa de “conclusões magnas”, receberia o grau de doutor.
Somente em 1556, foram criadas outras catedrilhas, entre as quais a de anatomia, para ler “De uso Partium”, obra de Galeno; e uma cadeira de cirurgia teórica. A prática hospitalar e o ensino da clínica somente tiveram inicio em 1562, no Hospital Real de Coimbra. Este quadro só mudou com a Reforma de Pombal, em 1772. Enquanto o resto da Europa ensaiava mudanças, com o advento das descobertas da medicina, Portugal permanecia na leitura dos antiquados textos medievais.
Com a reforma de Pombal, o aspirante a carreira médica deveria saber falar latim, ter conhecimento do grego, da filosofia moral e racional, e manejar inglês ou francês. O curso passou a ser composto por cinco cadeiras: matéria médica e farmácia no primeiro ano; prática das operações e obstetrícia no segundo; teoria médica com prática no terceiro, onde se ia para o hospital; aforismos de Hipócrates e prática hospitalar no quarto; prática de medicina e de cirurgia, no quinto. Com cinco anos o aluno recebia o grau de bacharel em medicina e cirurgia, com mais um ano e a defesa da tese, se obtinha o título de licenciado e de doutor. Em 1783, com a criação da cadeira terapêutica cirúrgica, a cirurgia elevou-se ao nível da medicina.
Nos séculos XVII e XVIII, o ensino da cirurgia se fazia separadamente, e constava do aprendizado da trepanação, operação da hérnia, cauterização de tumores, lancetamento de abscessos e tumorações, extração de cálculos vesicais e operação de cataratas. Após o estágio, o aluno recebia o título de cirurgião aprovado.
Fonte de referência: História Geral da Medicina Brasileira, Lycurgo Santos Filho, Vol. I.
Em Portugal, o ensino da medicina começou no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, fundado em 1130, por D. Afonso Henrique, o mesmo príncipe que declarou a autonomia do Condado Portucalense (1128). A ciência hipocrática era apanágio dos religiosos, que a ensinavam e a praticavam.
A universidade portuguesa foi fundada em 1290, por D. Dinis, e constava das seguintes matérias: Cânones, Leis, Gramática, Lógica e Medicina.
A universidade no inicio ficava em Lisboa, depois Coimbra, depois voltava para Lisboa e, finalmente, em 1537, estabeleceu sua sede em Coimbra.
Da fundação até 1493, a medicina constava de uma cadeira, dominada pelos religiosos, tratava-se da leitura das obras de Hipócrates. Daí para frente, até 1540, foram dois lentes, (por porque liam); um de “prima”, pela manhã, lia as obras de Galeno; e outro de “véspera”, pela tarde, lia as obras de Hipócrates. Em 1940, foi criada a cátedra da “tertia” hora, a partir das 10 da manhã, onde eram lidos os autores árabes (Rhazes, Averrois e Avicena). O trabalho manual era considerado indigno, coisa de cirurgiões.
Depois de aprovado em gramática e em lógica, o aluno poderia ser matriculado no curso de medicina. Com três anos, o aluno era graduado como Bacharel em Artes e medicina; com mais um ano, obteria o título de licenciado; e após cinco anos, após a defesa de “conclusões magnas”, receberia o grau de doutor.
Somente em 1556, foram criadas outras catedrilhas, entre as quais a de anatomia, para ler “De uso Partium”, obra de Galeno; e uma cadeira de cirurgia teórica. A prática hospitalar e o ensino da clínica somente tiveram inicio em 1562, no Hospital Real de Coimbra. Este quadro só mudou com a Reforma de Pombal, em 1772. Enquanto o resto da Europa ensaiava mudanças, com o advento das descobertas da medicina, Portugal permanecia na leitura dos antiquados textos medievais.
Com a reforma de Pombal, o aspirante a carreira médica deveria saber falar latim, ter conhecimento do grego, da filosofia moral e racional, e manejar inglês ou francês. O curso passou a ser composto por cinco cadeiras: matéria médica e farmácia no primeiro ano; prática das operações e obstetrícia no segundo; teoria médica com prática no terceiro, onde se ia para o hospital; aforismos de Hipócrates e prática hospitalar no quarto; prática de medicina e de cirurgia, no quinto. Com cinco anos o aluno recebia o grau de bacharel em medicina e cirurgia, com mais um ano e a defesa da tese, se obtinha o título de licenciado e de doutor. Em 1783, com a criação da cadeira terapêutica cirúrgica, a cirurgia elevou-se ao nível da medicina.
Nos séculos XVII e XVIII, o ensino da cirurgia se fazia separadamente, e constava do aprendizado da trepanação, operação da hérnia, cauterização de tumores, lancetamento de abscessos e tumorações, extração de cálculos vesicais e operação de cataratas. Após o estágio, o aluno recebia o título de cirurgião aprovado.
Fonte de referência: História Geral da Medicina Brasileira, Lycurgo Santos Filho, Vol. I.
terça-feira, 1 de julho de 2014
A assombrosa história da medicina, o caso das lobotomias.
A assombrosa história da
medicina, o caso das lobotomias.
Antonio Samarone
Academia Sergipana de Medicina.
Os conhecimentos da medicina
sobre o cérebro humano são recentes. Somente no final do século XIX, Santiago Ramón
y Cajal, médico espanhol, Nobel em 1906, descobre que a unidade funcional do
Sistema nervoso é o neurônio. Não é por acaso, que até hoje, o coração ainda
simboliza as emoções. Em boa parte do século XX, a medicina não dispunha de
nenhum recurso para enfrentar as doenças mentais.
Havia suspeitas que as funções
nervosas superiores, linguagem, visão, emoções, etc., se localizam nos lobos do
cérebro, porém sem comprovação científica. Somente em 1865, Pierre Paul Broca
comprovou que o lobo frontal esquerdo era a sede da fala, e ficou conhecido
como a “Área de Broca”. Essa descoberta deu fôlego para o surgimento da
frenologia, tão apreciada pela medicina legal e pela criminologia no começo do
século XX.
Com as descobertas da anestesia,
assepsia e da localização das funções mentais em áreas específicas do cérebro,
final do século XIX, o caminho estava aberto para a resolução das doenças do
sistema nervoso através da cirurgia. Primeiro as neurocirurgias, retirada de
tumores, abscessos, coágulos se tornaram frequentes; e logo em seguida, a
introdução das cirurgias para as doenças mentais, as psicocirurgias. A ideia
era simples: se os doentes estão ouvindo vozes, basta extrair o centro da fala
que o problema está resolvido.
Reconhecemos que a tentativa de
resolver as doenças mentais cirurgicamente é antiga. “Rogério de Salerno,
cirurgião do século XII, recomendava que para mania e melancolia o escalpe do
topo da cabeça fosse incisado em cruz e o crânio perfurado para deixar escapar
a matéria”, (Antunes, p. 176). Porém, nada parecido com a lobotomia, método
instituído a partir de 1935, pelo médico português Antônio Caetano de Abreu
Freire Egas Munir, que consistia na retirada do lobo pré-frontal do cérebro,
como forma de tratamento de várias doenças mentais, entre elas a melancolia e a
esquizofrenia. A lobotomia era a retirada da parte doente do cérebro, uma
verdadeira cirurgia da alma.
A lobotomia como forma de
tratamento das doenças mentais se expandiu velozmente pelo mundo. Segundo
Antunes, em sua biografia sobre Egas Muniz, entre 1942 e 1954, foram operados
na Inglaterra e no País de Gales 11 mil doentes mentais e nos Estados Unidos,
teriam sido praticadas 18.600 intervenções. O uso da lobotomia reduziu em 25% a
população psiquiátrica nos hospitais. A primeira lobotomia no Brasil foi
realizada pelo Dr. Matos Pimenta, em 1936, no hospital do Junqueri em São
Paulo. A Colônia Juliano Moreira, inaugurada em 1952 no Rio de janeiro, possuía
uma ala de psicocirurgias denominada Egas Muniz.
Em 1949, o Dr. Egas Muniz é agraciado
com Nobel de medicina pela descoberta da lobotomia; premio que ele aguardou por
sua outra descoberta para a medicina, a angiografia. Egas Muniz faleceu em 1955,
coberto de glórias como grande benemérito da medicina. A lobotomia foi usada
largamente no mundo até 1954, com a descoberta da clorpromazina, o primeiro
medicamento usado com algum sucesso no tratamento das doenças mentais.
A partir desse momento, a visão
sobre o papel da lobotomia na medicina inverteu-se radicalmente. As denuncias
de que era um método de controle para prisioneiros políticos e jovens
delinquentes se espalharam, em especial, nos países totalitários, que era uma
forma de eugenia social, de transformação de seres humanos em zumbis
descerebrados, etc. A lobotomia passou a ser usada para tratar de uma série de
males, incluindo a ninfomania, o socialismo e a sede insaciável por liberdade.
Várias propostas para revogação do Nobel para Egas Muniz já foram tentadas, e famílias
já acionaram a justiça para reparar os danos a seus familiares que receberam o
polêmico procedimento.
A lobotomia caiu na clandestinidade
por vários anos, passou a ser considerada uma terapia aberrante e cruel,
praticada por médicos marginais. Atualmente as psicocirurgias ressurgiu com acentuado
vigor, subsidiada pelos conhecimentos das neurociências, com mais recursos,
mais precisão, com amplo conhecimento dos pacientes, e com retiradas de áreas
bem mais restritas do cérebro. “A profissão médica não deve desculpas pela prática
da lobotomia”, dizem os novos adeptos das psicocirurgias, deve celebrar essa
prática como um começo ousado de uma evolução que continua... A cirurgia
funcional do Sistema Nervoso está apenas começando.
A mais comovente lição deste belo
trabalho de João Lobo Antunes, “Egas Muniz – uma biografia”, publicado pela
Civilização brasileira, é que precisamos ficar alertas para a rapidez como a
medicina modifica suas visões e suas condutas nos enfretamentos dos problemas
de saúde.
A questão das doenças mentais
continua polêmica. As visões variam dos que acreditam na inexistência das mesmas,
tudo não passando de comportamentos alternativos, alguns com reconhecido
sofrimento; a uma visão inversa, onde todo comportamento fora da média é um distúrbio
mental, portanto, passível de medicalização. As visões simplificadas das
neurociências buscam nas alterações físico/química do cérebro, a base mecânica para
as perturbações mentais. As condutas terapêuticas variam das simpatias,
terapias grupais, florais, psicoterapias, intervenções medicamentosas e psicocirurgias;
ou ecleticamente, tudo junto e misturado. Quem quiser que acredite nas descobertas
“científicas” da medicina sem uma visão critica. Eu ando desconfiado com
tudo...
sábado, 14 de junho de 2014
A medicina do Capital
A Medicina do Capital.
Antonio Samarone
Academia Sergipana de
Medicina
Em outros tempos, os médicos
cuidavam dos doentes, sua principal missão era aliviar o sofrimento humano. Estabelecia
com a sua clientela uma relação fraterna e de confiança, chamada
pretensiosamente de “colóquio singular”. A recompensa não era pagamento, remuneração,
salário, vencimento, nada que parecesse comércio, poeticamente, os médicos
recebiam honorários, aquilo que honra a quem recebe. Era comum o “Deus lhe
pague”, o “abaixo de Deus, o senhor”, e todo o médico tinha um horário em sua
agenda para a filantropia. Com freqüência, os pacientes demonstravam sua
gratidão com mimos: - “doutor, engordei esse capão para o senhor”.
A profissão médica era essencialmente
uma atividade liberal. O segredo, a livre escolha, a confiança e a autonomia do
médico eram intocáveis. Os remédios eram dosados individualmente e a clínica soberana.
O foco do cuidado era o ser humano, em sua individualidade. Após a segunda
guerra, com os avanços do conhecimento, o trabalho médico cresceu em
complexidade, surgiram às especializações médicas, novas tecnologias e a
indústria farmacêutica. A tecnologia
médica foi concentrada nos hospitais.
Uma mudança positiva: a intervenção
médica passou a ter eficácia, em especial, contra as doenças infecciosas.
Deixou de ser apenas psicoterapia. O conhecimento permitiu grande
resolutividade nos atendimentos de urgência. A expansão da cobertura passou a
ser uma exigência democrática. Cresceu o número de escolas médicas, leitos
hospitalares, clínicas, redes públicas (PIASS), INAMPS, SUDS e, finalmente, a assistência
médica tornou-se universal (SUS).
Nesse momento estabeleceu-se uma
polêmica. Com a contratação pelos governos, órgãos de previdência, empresas
médicas, etc., os médicos passaram a condição de empregados, a compor o
exército de trabalhadores assalariados. Um grupo entendeu que isso era um
avanço, e passou a organizar os sindicatos, e a se preparar para as disputas
sindicais, greves, mobilizações, etc. Outro grupo, sediado na Associação Médica
Brasileira (AMB), entendia que essa mudança seria a derrocada, os médicos
deveriam continuar liberais, que essa relação patrão/empregado acabaria com a
livre escolha, com a autonomia, e seria nefasta para a relação médico paciente.
Os médicos sempre resistiram à condição de assalariados, foram empurrados pela
força das relações econômicas.
O crescimento dos serviços
médicos, indústria farmacêutica, insumos, novos equipamentos, os crescentes
investimentos públicos com saúde, transformaram a atenção a saúde num poderoso
ramo dos negócios capitalistas. Além da consolidação do complexo médico
industrial, importante componente do PIB, o Capital financeiro se encarregou de
monopolizar as operadoras dos planos de saúde. A saúde, como qualquer outro
campo de atividade, submete-se as regras do mercado, e o cuidado médico se
transforma em mercadoria.
A medicalização da vida social se
impõe. O trabalho médico foi fragmentado em 4.600 intervenções distintas,
realizadas sem coordenação, com o consumo orientado pela oferta. O cuidado
médico foi repartido em “procedimentos”, denominação que a atividade médica
transformada em mercadoria, passou a receber em seu consumo pelos pacientes. Os
médicos vendem procedimentos. Em parte, os procedimentos são úteis, possuem “valor
de uso”; mas o que determina o seu consumo são os “valores de troca”, como
qualquer mercadoria. A indicação, a freqüência a oportunidade da realização dos
procedimentos saíram do controle do médico, são condicionados pelo tipo de
plano de saúde, pelo poder aquisitivo do paciente, pela cobertura dos serviços
públicos, pela necessidade de amortização do equipamento, etc. etc. Para tranqüilizar
a redução de importância do trabalho médico, a ciência elaborou protocolos, e o
consumo passou a ser legitimado pela ciência...
A maioria desses procedimentos são
exames, implantes e intervenções realizados por equipamentos (trabalho morto),
os mais valorizados, de maior custo. A consulta, forma dominante de trabalho na
fase dos cuidados, passou a ser secundária, mal paga, muitas vezes apenas uma
etapa para viabilização do consumo de outros procedimentos. Como acontece em
outros ramos da atividade econômica, o trabalho foi expropriado do trabalhador,
cabendo-lhe uma pequena tarefa na linha de montagem da vida.
O medico que insistir em cuidar
de seus pacientes de forma holística, humana, integral, voltada para o seu bem
estar e para o alivio do seu sofrimento, enfrentará a barreira inexpugnável da
medicina do Capital. A falência do Programa de Saúde da Família deve-se, entre
outras mazelas, a invasão desta lógica mercantil no trabalho médico, inclusive
no SUS. No Brasil, a medicina foi subjugada pela regras de mercado, e talvez estejam
aí a sua grande inadequação as necessidades de saúde da população.
O médico transformou-se num
executor de tarefas de um negócio cada vez mais lucrativo, mesmo os
assalariados dos serviços públicos padecem dessa servidão. Restam-lhes transformar-se
num pequeno empresário, adestrar-se na realização de um ou dois procedimentos, integrar-se
no mercado, e contentar-se com as migalhas que sobrarem do bolo. Não é possível
entender a progressiva perda de prestígio da categoria médica, a desconfiança
da opinião pública e as hostilidades do governo, se não aprofundarmos na discussão
do trabalho médico no atual estágio da acumulação capitalista.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
O Trabalho Médico
Trabalho Médico
Antonio Samarone de
Santana.
Academia Sergipana de
Medicina.
Ao longo da história, o trabalho
médico foi subdividido ou reagrupado em atividades profissionais distintas e em
especializações e sub-especializações, correspondendo ao aumento de complexidade
da assistência à saúde. Até aí, tudo bem, a divisão social do trabalho é
característica do trabalho humano tão logo ele se converte em trabalho social,
isto é, trabalho executado na sociedade e através dela.
Entretanto, o que ocorreu recentemente
foi o parcelamento do cuidado médico, a divisão em pequenas operações batizadas
de “procedimentos”, executados por profissionais diferentes, sem comunicação
entre si, sem hierarquia, sem coordenação, tornando o médico inapto para
acompanhar o cuidado como um todo, perdendo de vista o ser humano em sua
individualidade. A Associação Médica Brasileira (AMB) agrupou essa fragmentação
em 4.600 procedimentos distintos, por enquanto. Esta divisão imposta pelo
mercado, sob o comando do capital, levou a desvalorização do trabalho médico e
a sua menor remuneração. Passou a ser um trabalho de baixa complexidade, onde
um pequeno treinamento pode torná-lo habilitado para a realização de suas
tarefas, resumidas na execução de alguns poucos procedimentos.
Enquanto a divisão social do
trabalho subdivide a sociedade, a divisão parcelada do trabalho subdivide o homem,
e enquanto a subdivisão da sociedade pode fortalecer o indivíduo e a espécie, a
subdivisão do indivíduo é um menosprezo das capacidades e necessidades humanas.
Ao parcelar o trabalho médico em procedimentos, o mercado desvalorizou o
trabalho dos profissionais, para valorizar o emprego do trabalho morto,
incorporado à tecnologia e sob comando e direção do capital.
Quando a assistência destina-se a
condições agudas de saúde, esses procedimentos usados corretamente, de forma
rápida, apresentam uma razoável eficácia; contudo, quando se destinam ao
atendimento de condições crônicas de saúde (80% do total), que exige um
acompanhamento em longo prazo, envolvimento do paciente, cuidados continuados e
integrais, intervenção em equipe, etc. os procedimentos médicos tem se mostrado
ineficazes, quando não iatrogênicos. O que se mostrou eficaz para aumento da
lucratividade do capital que comanda a saúde, tem sido limitado na redução do
sofrimento humano e de impacto zero sobre os indicadores de saúde da população.
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