sexta-feira, 29 de maio de 2026

DOUTOR MARCONDES

Doutor Marcondes.
(por Antonio Samarone)

Na Aldeia de Itabaiana, faz muitos anos, os meninos brincavam vadios. Todos cascudos ou quase cascudos. As ruas eram de domínio público. Sem automóveis e sem as pedras dos calçamentos. As ruas eram nossas.

Os meninos eram quase iguais, ricos e pobres. Na verdade, os ricos eram poucos. Rico mesmo, só Durval do Açúcar e Zeca Mesquita.
No Murilo Braga, ginásio público, todos vestiam a mesma farda, de Caqui Floriano. Fora, na Associação Atlética, onde os meninos jogavam ping-pong, os pobres não entravam.

Para nossa surpresa, nesse tempo, apareceu um menino educado, fino, cordial, de modos ingleses. Uns diziam: ele veio de São Paulo; outros, parece que ele é de Ribeirópolis. Veio morar na Rua do Cisco, atual 13 de maio. Um beco, no fundo da Prefeitura.

Ele era um príncipe, convivendo com guerreiros. Éramos uma tribo. Mas ele foi perfeitamente integrado. Logo, virou um dos nossos, sem perder a elegância. Em Itabaiana, a conspetividade, as disputas pessoais, o espirito guerreiro são aprendidos logo cedo. O Príncipe tinha outros planos.

O menino não era de briga, nem de baderna. Não era bom de bola. Não vivia se lambuzando nas águas insalubres dos açudes. Mas era amigueiro e estudioso. Ouvia a BBC de Londres, e já aranhava o inglês. A professora Mercedes, do Murilo Braga, ficava encantada.

Itabaiana acompanhou o seu discreto e intenso namoro, com a futura esposa. Um Romeu e Julieta Aldeã.

Ele foi estudar o científico no Atheneu. Itabaiana ficou pequena. A distância cognitiva aumentou.

Nos finais de semana, quando ele voltava para Itabaiana, o seu saber impressionava. Ele deduzia as fórmulas de ótica, usando matemática superior.

A minha geração estudou ótica, eletricidade e magnetismo pelo livro: “Física por John Cutnell e Kenneth Johnson.” Não nada se entendia, ou quase nada. Se decorava as fórmulas para o vestibular.
Ele foi o segundo colocado no Vestibular de Medicina da UFS. Uma proeza.

Ele virou médico, especializado no sono e nos sonhos. Bateu perna pelo mundo. Fez especialização nos Estados Unidos, bem antes da Era Trump. Serviu a Marinha do Brasil, a Petrobrás e montou um Instituto do Sono.

Na quarta-feira, ele foi acolhido no ninho da Academia de Medicina.

Seja bem-vindo, doutor. Você faz parte da vanguarda cultural da medicina em Sergipe.

O mais importante, continuas o mesmo "gentleman" que desembarcou em Itabaiana, em priscas eras.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
 

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