O Centenário do Ferreiro Bernardino.
(por Antonio Samarone)
A profissão de ferreiro é antiga. No Canto VI, dos Lusíadas, Camões descreve os ferreiros de Vulcano, no monte Etna, fabricando armas, raios e caldeando o ferro para as tempestades.
Numa terça-feira nublada, 17 de agosto de 1926, o velho ferreiro Bernardino Francisco de Oliveira, viúvo de dois casamentos (Maria Rosa de Jesus e Maria Wenceslau do Sacramento), faleceu, tragicamente, aos 68 anos.
Bernardino, nasceu em Matapoã, Itabaiana, em 11 de maio de 1858, filho do ferreiro português, João José de Oliveira (1829 – 1899) e Maria Pastora do Sacramento. João José instalou as tendas de ferreiro na Matapoã, por volta de 1850.
Bernardino era o mais velho dos ferreiros da “Maithapan”, entre os filhos de João José: Maria Venceslau; Bernadino, o mais velho; Chico Antonio; Felismino; Quirino; Benvindo; Tertino; Nonô – Pai de João Marcelo e Zentonho, o mais novo, pai de Graça de Rosendo. Posso ter esquecido alguém.
Bernardino deixou uma imensa prole: Servina; Clemencia, casada com Alexandre Fava Pura e mãe do Frei Fidelis; Francisca; Josefa; Firmina; Maria da Neves; Chico Antonio; Ana, casada com Chiquinho Gordo, pais de Marcelino; Felismina; Antonio Francisco de Oliveira (Pai Totonho), que nasceu em 05 de agosto de 1896 e faleceu em 16 de maio de 1965, aos 68 anos; Libanio; Ângelo, Lilia, Maria Rosa (Neném).
O velho ferreiro Bernardino, branco, alto, de aspecto sisudo, orelhas de abano, afamado pela força física, largou-se da Sambaíba, em Itabaiana, para comprar ferro em Maruim, matéria-prima da sua secular profissão. Cumpria a sua rotina.
A bigorna de Bernardino era famosa pelo som arredondado, parecendo um sino do Vaticano. A peça está conservada. Depois foi do meu avô e dos meus tios (Zé e Omero). Hoje, está sob a posse do primo Arnaldo, nas Flechas.
Se escutava o toque da bigorna de Bernardino, a mais de légua.
Próximo ao destino da sua última viagem, por volta das 9:40 da manhã, no povoado Caititu, entre Riachuelo e Maruim, KM 337 da ferrovia, o burro em que Bernardinho ia montado, assustou-se com o trem de passageiros n.º 72, da “Companhia Ferroviária Leste Brasileiro”, que vinha de Propriá com destino a Aracaju.
O trem era conduzido por um maquinista experiente, Caetano Antônio de Jesus, que ao avistar a aflição, danou-se a apitar e puxar o freio de emergência. Assustou os burros.
A tragédia se anunciava, o velho Bernardino (68 anos) não conseguiu tirar a sua montaria da linha do trem, o animal agitado não obedecia às rédeas. E o maquinista, impotente para frear.
O local era uma curva em declive, próxima a um pontilhão. Tudo muito rápido. A verdade é que o velho ferreiro não saltou do burro, talvez por amor ao animal, um burro castanho de estimação. A contingência os empurrou para o mesmo destino.
Em frações de minutos, o ferreiro e o animal estavam esmagados sob peso da locomotiva. A massa ensanguentada, irreconhecível, foi recolhida com a pá de carvão, e colocada num saco, depositada num salão de chão batido, da Estação que servia de parada do trem, em Caititu.
Ao final da tarde, os corpos foram transportados para o Departamento de Assistência Pública, na rua de Boquim, em Aracaju, para serem periciados.
Os drs. Carlos Moraes de Menezes e Mário de Macedo Costa, levaram mais tempo para separar as partes do ferreiro, que para a devida necropsia. O estado de mutilação do corpo de Bernardino chocou a província.
A emissão do laudo pericial foi acompanhada pelo Senhor Doutor Chefe de Polícia do Estado, Álvaro Fontes da Silva (é como está no laudo cadavérico).
O ferreiro Bernardino foi enterrado no Cemitério Santa Isabel, em Aracaju.
Chegamos ao centenário da morte do velho ferreiro Bernardino (1926 – 2026). A família vai relembrar a data. No dia de São José, padroeiro da Matapoã, a Prefeitura de Itabaiana vai inaugurar uma praça e a ligação asfáltica do povoado com a BR – 235.
Estaremos lá!
Todos os descendentes dos ferreiros da Matapoã, estão convidados. E não são poucos. O povoado tem a fama de produzir couve e inteligências.
Pensei em requerer aos Vereadores, que o nome da nova Praça do Povoado, fosse uma homenagem a Bernardino Francisco de Oliveira. Um herói do ferro e do fogo.
Desisti. Soube que a disputa é grande.
Antonio Samarone. (Ponta de rama, dos Ferreiros da Matapoã)

Nenhum comentário:
Postar um comentário