O Dono da Bola.
(por Antonio Samarone)
A minha aproximação com a bola foi cuidadosa. A bola reconhece os íntimos, os que a chamam de “você!”. A primeira foi uma bola de meia, que eu brincava com a minha irmã. Não estranhe, as meninas já jogavam, antes de existir o futebol feminino. Nas “peladas” de rua, elas compunham os times.
Se aprendia a chutar com as bolas de meia. Isso mesmo, meias de calçar. Enchia-se uma meia velha de algodão ou retalhos de tecidos, arredondava-se a pelota, e a bola estava pronta. As bolas de couro eram numeradas, de dois a cinco, além das bolas oficiais. Não era para o nosso bico.
Se comprava a bexiga e mandava-se um bom sapateiro encouraçar. Envolvê-la com sola batida. Em Itabaiana, só Mestre Dé e Joãozinho Baú possuíam essa maestria. Eram bolas duras. Passava-se sebo de carneiro capado, para amaciá-las. Após as partidas, as bolas eram esvaziadas, para evitar a deformação. As bolas ficavam ovais.
As bolas de couro de fábrica, de couro macio, aveludado, veio depois. Um luxo. As bolas antigas, artesanais, eram quase balas de canhão. Um chute forte, chamava-se de petardo ou bomba.
As bolas de couro eram inacessíveis para a molecada do Beco Novo.
Por vezes alguém aparecia com uma bola de borracha, que pulava e ardia quando se chutava. A bola de borracha não emplacou. Depois veio a bola Pelé. Essa, sim, uma novidade. Eram de um plástico resistente, macias, redondas, boas de se dominar. O sonho da bola de couro, era relevado.
Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, ocasionalmente, aparecia com uma bola Pelé, novinha, cheirando a leite. Ele a subtraia do supermercado. Um mistério, como ele saia da loja com a bola e ninguém via? A verdade, as bolas Pelé de Rosa, eram compartidas com todos. Um roubo com fins sociais.
Além das peladas, brincávamos de piruetar, bater bola sem a deixar cair.
Um fato inesperado abalou o Beco Novo: Benjamin de Seu Bebé dos passarinhos - Beijo, para os amigos, ganhou uma bola de couro número 5. Os irmãos Adélson e Alberto, mandaram de São Paulo. Era quase uma bola oficial.
Benjamin era forte, bom de bola, disciplinado, educado, amigueiro e adorava ler. Sem dúvidas, era o mais culto da turma. Morava no quarto trecho da rua, quase defronte ao Clube dos Trabalhadores.
Benjamin virou Rei, era o dono da bola. Não ficava mais de fora.
Paparicado, cercado pela molecada, cobrando que ele levasse a bola de couro, para tudo que era tabuleiro. Agora a gente ia saber quem era ou não bom de bola.
Os invejosos diziam: Beijo quer a bola para dormir na cama. Mentira! Ele sempre repartia o divino brinquedo.
Quando ganhei o meu primeiro campeonato, Beijo, era do meu time: Grilo de Firmino, Vadinho de Nilo, Beijo de Seu Bebé, Zé Augusto de Zé Olhinho, Eu e Nego Gato de Bonito. Era futebol de seis. Fomos campeões no torneio do Campo do Tenente Baltasar.
Demos a volta olímpica. Os campeões foram premiados com uma boa quantia em dinheiro. O time inteiro foi a casa de Seu Bebé, entregar o prêmio de Beijo.
Benjamin Nogueira Campos Neto não deu para o futebol. Estudou, formou-se em Medicina, e tornou-se um cardiologista famoso em São José dos Pinhais, Paraná.
O dono da bola tornou-se dono de uma sólida carreira na medicina. Saiu, por lá ficou e constituiu família. O Beco Novo foi a porta de saída, para a ascensão social de muitos.
Antonio Samarone.
